MANIFESTO


O que em filosofia política se chama «ideário», em poesia só pode chamar-se «escola».

Se podemos falar de uma «renascença portuguesa» é porque Portugal existe.

A identidade de uma pátria alicerça-se num conjunto de específicos, de traços culturais únicos, de um perfil étnico.

A poesia que assume ser a voz de uma nação é um clarim solitário.

Nem queremos saber dos vossos gozos e das vossas dores se não forem Portugal. Enviem para França os chiliques, o boudoir, as cartas perfumadas. Enviem a quem pertença tudo o que é verme neste chão.

Estes que se adiantam, que esporeiam as montadas e erguem o rosto impoluto diante do que ainda não é, chamamos-lhes poetas, vates, profetas, doidos, proscritos – o que quiserem. Por eles falam as pátrias, as eras que a História não guardou.

Do meu lado estão os bardos dos Lusitanos, mesmo que me digam que não existiram.

Toda a poesia, toda a palavra, o gesto sequer, o olhar, que não se erguer do sangue singular desta Pátria dos Portugueses Ibéricos – é lixo e aqui não pertence.

Os poetas são as antenas da raça.


Lord of Erewhon



«Artists are the antennae of the race but the bullet-headed many will never learn to trust their great artists.»

Ezra Pound


Terça-feira, 31 de Maio de 2011

BLOGUE ENCERRADO A 31 DE MAIO DE 2011

Domingo, 29 de Maio de 2011

PAISAGEM DO PORTUGAL PRÓ-FUNDO


Retrato do Génio enquanto Ébrio - Hotel du Manoir (Montreal), Vitor Vicente, Abril de 2011

Não tinhamos combinado, mas à noite encontrei-o no café. Noite sem bingo, por ser pouca a freguesia, ele numa roda de cabeças arroxeadas e olhos lacrimosos do vinho, agitado e também já meio bêbedo, a contar-lhes de uma Holandesa que os deixava de boca aberta.
Se neste mundo havia um paraíso, era ali. Melhor do que a América, melhor do que o Brasil, melhor...À falta de comparação apontava inseguro para a porta, acompanhando o gesto com uma descara de "Filhos da puta!", logo a retomar que a Holanda era cem vezes melhor do que a Suiça, cem vezes melhor do que a Alemanha, mil vezes melhor do que o Luxemburgo.
- Pr'aí só vai quem não tem colhões!
- Pra onde, caralho? Pra onde? - O dedo do Gato a exigir explicação e o outro, sem medo, parando a meio a golada que tinha começado:
- Pra Suiça, caralho! Vão lá pra lavar roupa! E a louça nas cozinhas! O cu aos velhos nos asilos! Trabalham mais de mulher do que de homem!
- Por isso é que alguns dão em panascas! - comentou de longe um rapaz magro, encostado aos matraquilhos.
Na roda discordaram aos gritos. Na televisão já se tinha visto algumas vezes e não era bem assim. Paneleiros havia agora em toda a parte, mesmo no Porto e em Lisboa, mas na televisão tinham mostrado que na Holanda. era onde havia mais disso. Lá até andavam meio nus pelas ruas, aos beijos, a dançar agarrados uns aos outros.
- Paneleiros e fressureiras! - riu o magro.
Os que estavam perto tiveram de o conter, porque ao ouvir aquilo o Gato, enraivecido, a escumar, estilhaçou o copo contra a mesa e queria pedir contas ao homem. Que não viesse bardamerdas nenhum, nenhum filho da puta, dizer como era na Holanda. Quem lá tinha estado é que podia falar. E o que se atrevesse a dizer que a Holanda era terra de paneleiros...
Recomeçou a estrebuchar, mas com bom modo os outros tiravam-lhe o copo quebrado da mão e ele acalmou, fazendo para o meu lado um gesto que era meio de desculpa, meio de amizade, e a fingir que só agora me descobrira no canto onde me tinha sentado.
O burburinho parou um instante com a chegada de um grupo de fora, gente que olhava em volta aborrecida, a queixar-se que ninguém os tinha avisado que não havia bingo.
Desinteressado, o Gato virou-lhes as costas, foi ao balcão pedir mais um copo e juntou-se de novo à roda. A Holanda, pois. Ele sabia. Tinha lá estado mais de vinte anos. Qual Suiça, qual merda! A Holanda é que era uma nação como devia ser: tudo novo, tudo perfeito, tudo rico, bem arranjado. E enumerando pelos dedos:
- Não há lá pobres. Toda a gente tem automóvel, televisão, telefone, o diabo a quatro. Trabalha-se aqui um mês para o que se ganha lá num dia ou dois. Nas casas é um luxo que só visto. Então as lojas, até cansa! Cheias de tudo! E enormes! Há-as do tamanho dum campo de bola. No porto entram navios maiores e mais altos que...
- Também já ouvi dizer - interrompeu o Barbeiro - , não sei se foi o meu primo ou na televisão, que há por lá gajas bem bonitas. E que não se engasgam nada para ir para a cama com um qualquer. Até com pretos.
O Gato olhou-o, suspeitoso, como se ouvisse uma indirecta. Olhou-me de seguida em soslaio, a parecer que se certificava da minha discrição, mas nem teve tempo de replicar, porque o rapaz se desencostou dos matraquilhos e veio direito a ele, toldado, pronto para a briga:
- Há lá de tudo, hein? E tudo grande, hein? O que há lá é só putas e paneleiros e fanchonas!
- Não te conheço de parte nenhuma, filho da puta, mas estás mesmo a pedir que te parta as trombas!
Ficaram um instante frente a frente, silenciosos e como se o vinhos lhes retardasse a raiva, mas foi o Gato que primeiro se atirou, agarrando o outro pelo pescoço e disparando a mão livre com tanta força que lhe fez espirrar o sangue do nariz e da boca.
Só se ouviram uns gritos das mulheres, mas os outros meteram-se de permeito a mandar a calma, a dizer que não se queriam ali zaragatas. O rapaz levantou-se do chão onde se tinha estatelado e, a cambalear, o lenço apertado contra o nariz, foi para a porta, resmugando que depois se veria, que aquilo que não ficava assim.
Riram-se dele e deixaram-no ir. Ninguém o conhecia. O mais certo era que fosse algum desses ciganos que apareciam agora pelas aldeias a vender droga e a desencaminhar a juventude. Má rês.
- De droga quem deve saber é o Gato - disse brincalhão o Sr. Filinto, reformado da Guarda - porque pelos jeitos na Holanda há droga por todo o lado. Pelo menos é o que diz o jornal, que eu não sei, nunca lá estive.
- Já tem dado na televisão - acrescentou um idoso.
Quase todos os olhares se tinham voltado para ele, à espera de comentário, mas o Gato parecia não dar conta, esfregando a mão com que socara o rapaz.
- Contra o osso e com essa força, até a podias quebrar - disse o Marcelo, o dono do café.
Em volta concordaram, ele acenou também com a cabeça, disse que de facto doía um bocado e, como se os quisesse evitar, sentou-se junto de mim.
- Isso vai? - perguntei eu a modo de boas-vindas.
Ele casmurro, a mostrar-se incomodado porque os outros o tinham seguido, o Sr. Filinto a insistiu chocarreiro:
- Então, a droga lá na Holanda? Há ou não há?
- Pois deve haver, mas é dos pretos e dos turcos. Dos holandeses não, eles não se metem nisso.
Riram bem-humorados, aperreando-o de que mentia. Não tinha nem pés nem cabeça dizer o contrário, porque volta e meia a televisão mostrava coisas sobre a droga e lá vinham sempre os holandeses. Até havia lojas. Então Amsterdão era o fim do mundo, viam-se os drogados caídos nos passeiros, nos portais, na estação.
- Isso é o que dizem, mas eu trabalhei lá vinte e tal anos e nunca vi nada - rematou ele numa voz morosa, ao mesmo tempo que se levantava, acrescentando que para chatice bastava e dali ia para a a cama.
Os outros não gostaram. Se não queria falar não falasse, ninguém o obrigava, mas também não era preciso pôr-se azedo. Afinal a Holanda não lhe pertencia, nem ele pertencia à Holanda, e por isso não tinha que estar sempre a defender, sempre a elogiar. Os que trabalhavam na Alemanha, como o Belmiro e o filho da Santeira, diziam que a Holanda era um país de merda, tão chato que enjoava. Esses dois tinham ido lá ver e diziam que realmente por toda a parte se viam putas e paneleiros, que havia ruas inteiras só para eles.
Murcho, olhando para mim em busca de ajuda, a cada invectiva o Gato encolhia os ombros, incapaz de replicar.
- O que eu penso - disse o Sr. Filinto dum modo bonachão, puxando-lhe a manga - é que o nosso Gato em rapaz arranjou por lá algum namorico e agora, se a gente é contra a Holanda, ele fica com dor de corno. Será isso?
Fez-se um silêncio cheio de expectiva, os que nos rodeavam a mostrar com meios sorrisos que sabiam ou suspeitavam, mas o bom seria se ele se abrisse e contasse. Pareciam garotos impacientes à espera de uma história.
De olhos arregalados, fazendo-nos cerco, paravam um instante a ver se ele cedia quando o Sr. Filinto voltava a repetir: "Será isso?", mas logo recomeçavam a atazaná-lo. Que contasse, caramba! Então! Que mal tinha? Estavam mortos por ouvir!
Ensimesmado, o olhar mortiço, o Gato não respondia e abanava as mãos, de vez em quando fazendo um gesto para o meu lado, a mostrar que aquilo o aborrecia.
- Vamos ? - sugeri eu, a mostrar-me solidário, mas também a temer que ele não aguentasse o vexame mais tempo e acabasse por algum desatino.
Levantei-me e, distraído, repeti: - Vamos? - estranhando não o ver levantar-se, e só então me apercebi de que o filho da Justina, caído de bêbedo, se pusera diante dele.
Com bom modo, para lhe desviar a atenção e receando o vinho eo mau génio de ambos, ainda segurei o rapaz pelo braço, mas ele libertou-se com um safanão.
Desfigurado, abria e fechava a boca sem falar, e ora dava a impressão de que ia arremeter, ora cambaleava, abanando os braços à toa, incapaz de agarrar o Gato que, ainda sentado, parecia indiferente à palhaçada do mulato e à vozearia dos outros.
- Conta lá! - conseguiu o rapaz dizer, revirando os olhos, o rosto numa careta de insolência.
- Prá casota, Farrusco! - atirou-lhe o Gato, ao mesmo que, levantando-se, lhe dava um empurrão e fazia ir às arrecuas.
O rapaz não caíu, porque os outros o seguraram a tempo, mas com o insulto como que se lhe foi a bebedeira. Teso e senhor de si, virou-nos as costas, falou para a roda:
- Não conta ele, conto eu! Estes dois... - e apontava também para mim, chocarreiro - estes são os dois da panelinha!
Foi uma premonição, daquelas que se têm nos momentos de grande perigo, quando num ápice nos ganha a certeza de que, inevitavelmente, o pior vai acontecer. Logo a seguir o o tempo arrasta-se, os milissegundos ganham a lentidão de minutos, e os movimentos, os corpos, as expressões dos rostos, os sons, tudo se petrifica ou acontece retardado, os pensamentos demoram a nascer. É como se a misteriosa maquinaria que tudo regula, parasse de funcionar.
- O Gato teve lá puta! Dessas gajas que andam de minissaia e com as tetas à mostra. A minha mãe viu. O Corvo tem lá uns retratos. Ele que diga!
Corvo. Pelos jeitos era essa a alcunha que me tinham posto, talvez por quase sempre vestir de preto. Ouvia-a pela primeira vez, mas sem irritação, indiferente, tomado como estava de um sentimento confuso que não me deixava raciocionar e deformava o que acontecia à minha volta.
- Ele que diga! Ele que diga!
As palavras ressoavam ensurdecedoras e o fulgor dos olhos, as caras retorcidas de crueldade, o escárnio, as gargalhadas, nada neles era humano, mas animal. Não havia ali gente, eram uma alcateia que o vinho, as frustrações e as raivas afogadas tinham retornado ao estado de bestas. Fazendo cerco, os seus corpos inclinavam-se para a frente, prontos para o ataque, as cabeças pendentes, lembrando hienas a farejar a presa.
De boca pendente, os olhos esgazeados, o Gato dir-se-ia que tinha perdido o juízo. O corpo tremia-lhe numa grande agitação e ora me encarava, ora se virava para os outros, indeciso, pronto a explodir, mas sem encontrar alvo para a sua fúria.
- Qual puta, qual caraças! - gritou um. - Puta nenhuma! Então os gajos que lá que estavam não diziam que ele, por ser bonitinho, ganhavam mais com os panascas, do que nas docas? Por isso não gosta que se toque nessas coisas. É como há bocado, zanga-se! Eh, Gato! Zangas-te logo, hein?
Desatinado, atirou-se ao que falara, mas nem um passo deu, os outros a agarrá-lo por todos os lados, caçoando daquele estrebuchar em vão. E verem-no indefeso acirrava-lhes a crueldade:
- Diz! Era puta? Pôs-te por conta?
Um outro, roçando-lhe a mão pela face numa carícia:
- Ou andaste por lá a levar no cu?
Ao meu lado, o Sr. Filintino pedia calma, dizia que bastava, acabasse com aquilo, mas ninguém lhe dava ouvidos, era como se por instinto tivessem de continuar até que acontesse o irremediável.
- Ganhou-lhes gosto! E ensinou este. Por isso é que todos os dias se vão ambos ao passeio! - chacoteou um, ao mesmo tempo que com uma expressão de nojo me atirava a ponta do cigarro.
- Vira ti, viro eu!
Outro veio aos empurrões até chegar perto de mim, estacou, e enfurecido, o seu dedo a tocar-me o nariz:
- Esse vi-o eu, a enrabar ovelhas! Vi, sim senhor! E o Gato de sentintela!
- Cala-te, palerma! Qual ovelhas? Não sejas besta! - respontou o filho da Justina. - O que ele queria era enrabar eram os miúdos da escola! Pergunta à minha mãe!
A algazarra, os gestos obscenos e os risos da chacota, aquelas feições de loucos a dar mostras que dum momento para o outro me poderiam estraçalhar. Senti-me rebaixado e indefeso, sem fôlego, o corpo a esmorecer, mas ninguém parecia prestar atenção na minha aflição. Ora se voltavam para mim e para o Gato, ora se ameaçavam uns para os outros, para logo continuarem às gargalhadas e aos encontrões.
Gritaram ao rapaz para que se calasse. Besta era ele e a a mãe não era para ali chamada, que essa era ainda mais puta do que as putas de Portugal, da Holanda e do resto do mundo todas juntas. Senão não se tinha deixado montar por um preto, nem ia parir semelhante mamarracho.
Francisco empalideceu, firmou-se. De punhos fechados, olhava para um lado, olhava para o outro à espera do adversário e pronto para o ataque, mas ninguém lhe ligou importância. Alguns puseram-se a imitá-lo, fazendo trejeitos, fingindo uma luta de boxe, e foi como se o ar começasse a desanuviar.
Houve risos, um afrouxamento. Pressentindo o descuido dos que ainda o seguravam, o Gato libertou-se com um safanão e logo à sua volta se fez um vazio.
Primeiro julguei que não se contivesse, que aparecesse de navalha ou quebrasse uma garrafa e se atirasse aos que estivessem mais perto. Em vez disso, pareceu-se deter-se um instante a tomar fôlego e depois, sem pressa, olhando em frente, avançou para a porta, os outros a abrir caminho, supresos, descrentes do que viam.
Saí também e na rua pus-me ao seu lado, a acompanhá-lo em silêncio, porque as palavras que me ocorriam, as desculpas, nenhuma delas parecia fazer sentido. Mas foi ele que parou, encarando-me sereno, como se nada o tivesse ferido nem humilhado. E a sua voz, inesperadamente calma, assustou-me mais do que se gritasse ou insultasse:
- Mande-me os retratos. E nunca mais me fale. Nem me apareça. Se o volto a encontrar, degolo-o como a um cão tinhoso.
Fulminado e incapaz de reagir ou explicar, vi-o ir rua adiante no seu passo arrastado.
Não sei quanto tempo fiquei ali, nem recordo como fui para casa. Lembro-me apenas que me deitei vestido, sobre a cama, mas tão grande era a opressão no peito que me tive de me sentar. E os olhos encheram-se de lágrimas, num pranto que era de vergonha, de cobardia, de penas e pecados, do remorso que dá o que não tem indulto, da solidão que nos sufoca quando descemos ao fundo de nós próprios.

J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa, Quetzal, Lisboa, Julho de 2010

Sexta-feira, 20 de Maio de 2011

KATE BUSH – The Sensual World (1989)

Quinta-feira, 19 de Maio de 2011

PORTUGUÊS E VAGAMUNDO, A Heteronomia dos Poliglotas




Não me considero – nem de perto, nem de longe – poliglota. Falo português de Diáspora, espanhol catalanizado e easyenglish. Por isso, não posso arrogar o estatuto de poliglota – pois para mim poliglota é aquele que, no mínimo, pode contar os domínios de idiomas pelos dedos das mãos e conversar em todas elas com o à-vontade de quem fala pelos cotovelos.
Enquanto pequeno poliglota, é-me permitida alguma – uma mínima - heteronomia. Dou por mim a pensar (a delirar) em português de Diáspora, a lidar com a língua (numa palavra, a dialogar) com o quotidiano em easyenglish e, de vez em quando, a falar espanhol catalanizado com as súbitas aparições de um passado que, para atestar a importância, teima em estar presente.
Seja em que idioma for, é mais facto que fantasia que todas essas heteronomias mais não são que variações – e assim sendo, afirmações da unidade – Vitor Vicente. Vale o mesmo para os períodos do tempo em que estou calado – o mesmo que dizer quando estou exilado na Pátria do Pensamento.


Vitor Vicente

Quarta-feira, 18 de Maio de 2011

LOUCO, IMODERADO ARREBATADO INFAME




Louco, imoderado arrebatado infame
Cavalgas a nuvem negra carregada
Rasgos de luz a troar a dor sem nome
Ergues no braço a lança o dardo a espada

E feres cortas derrubas  sem piedade
Árvores frondosas ninhos instalados
Assustas bichos não ouves uivos brados
O esvoaçar inquieto o piar verdade.

Logo o assombro o medo o horror a tempestade
Deixam as penas gastas o olhar sem viço
Asas caídas corpo sem mocidade

E tu correndo sempre em cavalo nuvem
Chamado pelos ventos fazendo o esquisso
Duma eternidade terra de ninguém.

Terça-feira, 17 de Maio de 2011

ILUSÃO YANKEE


The Phantom of the Opera - Majestic Theatre/Broadway, Vitor Vicente, 11 de Abril de 2011

Entre estrelas, em plena
sequência efervescente, cintilantes,
sentimo-nos célebres por pertencer
à ambulante nuvem de anonimato
que alimenta e cobre a grande cidade.

Não somos ninguém,
nunca deixaremos de ser ninguém
enquanto nada nos for vedado.
No final, ao cair do pano,
a metrópole fez-nos um filho,

o fastio.


Vitor Vicente

Segunda-feira, 16 de Maio de 2011

A NOITE E O RISO, Uma Sessão De Guitarra



Cyril Collard, Les Nuits Fauves, 1994

Domingo, 15 de Maio de 2011

THE BLACK LAMB BY LADY WILDE


Cliffs of Moher - County Clare, Vitor Vicente, 27 de Março de 2011


It is a custom amongst the people, when throwing away water at night, to cry out in a loud voice, "Take care of the water"; or literally, from the Irish, "Away with yourself from the water"--for they say that the spirits of the dead last buried are then wandering about, and it would be dangerous if the water fell on them.
One dark night a woman suddenly threw out a pail of boiling water without thinking of the warning words. Instantly a cry was heard, as of a person in pain, but no one was seen. However, the next night a black lamb entered the house, having the back all fresh scalded, and it lay down moaning by the hearth and died. Then they all knew that this was the spirit that had been scalded by the woman, and they carried the dead lamb out reverently, and buried it deep in the earth. Yet every night at the same hour it walked again into the house, and lay down, moaned, and died; and after this had happened many times, the priest was sent for, and finally, by the strength of his exorcism, the spirit of the dead was laid to rest; the black lamb appeared no more. Neither was the body of the dead lamb found in the grave when they searched for it, though it had been laid by their own hands deep in the earth, and covered with clay.


The Book of Fairy & Folk Tales of Ireland, Compiled by W.B. Yeats, Bounty Books, Londres, 2004

Sábado, 14 de Maio de 2011

PERSONAS SEXUAIS

Camille Paglia


(...) A projecção é uma maldição masculina: a de necessitar sempre de algo ou alguém para se sentir completo. Esta é uma das origens da arte e o motivo pelo qual a mesma sempre foi, historicamente, dominada pelos homens. A arte é o melhor que o homem consegue para imitar a majestosa autonomia feminina. Mas o artista precisa da sua arte, da sua projecção. Quando um artista se sente bloqueado, como Da Vinci, sofre como um condenado ao inferno. A pintura mais famosa do mundo, Mona Lisa, representa o isolamento auto-satisfeito da mulher, o seu sorriso ambiguamente escarninho perante a vaidade e o desespero dos seus inúmeros filhos.
Tudo o que há de grande na cultura ocidental é resultado do combate com a natureza. Foi o Ocidente, e não o Oriente, que vislumbrou a terrível brutalidade dos processos naturais, a ofensa para o espírito na cega e pesada trituração da matéria. A perda do eu não nos conduz a Deus ou ao amor, mas à sordidez primeva. Esta revelação recaiu historicamente no homem ocidental, um ser empurrado por ritmos marinhos em direcção à mãe oceânica. É ao seu ressentimento contra esta demónica ressaca que nós devemos as grandiosas edificações da nossa cultura. O apolíneo, frio e absoluto, representa a sublime recusa do ocidental. O apolíneo é uma linha masculina traçada contra a desumanizante magnitude da natureza feminina.
Na natureza, tudo se funde. Pensamos ver objectos, mas apenas porque o nosso olhar é lento e parcial. A natureza floresce e murcha em longas e ofegantes inspirações, subindo e descendo num oceânico movimento de marés.
Uma mente que se abrisse completamente à natureza, sem sentimentos preconcebidos, seria inundada pelo seu rude materialismo, pela sua inexorável superabundância. Uma macieira carregada de frutos: como é pacífica e pitoresca. Mas removamos do nosso olhar o rosado filtro do humanismo e olhemos novamente. Veja-se nela a natureza a espumar, o seu louco borbulhar seminal que interminavelmente se derrama e se despedaça numa inumana sucessão de desperdício, podridão e carnificina. Das apinhadas e vítreas células das ovas de peixe às penugentas esporas lançadas ao vento por certas vagens, a natureza é um supurante vespeiro de agressividade e destruição. Esta é a ctónica magia negra com que estamos infectados, como seres sexuados que somos; é a demónica identidade que o Cristianismo tão inadequadamente define como pecado original, ao mesmo tempo que acredita poder removê-lo dos homens. A mulher procriadora é o mais perturbante obstáculo à pretensa catolicidade do Cristianismo, testemunhada pelas suas doutrinas da Imaculada Conceição e da virgindade de Maria. A faculdade procriadora da natureza ctónica é um obstáculo a todas as metafísicas ocidentais e a todo o homem na sua busca de identidade contra a mãe. A natureza é o fervilhante excesso do ser.
A arma mais eficaz contra o fluxo da natureza é a arte. A religião, o ritual e a arte começaram por ser um só, e não há arte em que não persista um elemento religioso ou metafísico. A arte, por muito minimalista que seja, nunca é apenas concepção. É sempre uma reordenação ritual da realidade. O empreendimento artístico, seja numa era de estabilidade colectiva ou de instabilidade individual, é inspirado pela ansiedade. Qualquer assunto circunscrito e exaltado pela arte é sempre colocado em perigo pelo seu contrário. A arte é um fechamento que visa impedir a entrada desse contrário; uma forma de deter o mecanismo de movimento perpétuo que é a natureza. O primeiro artista foi um sacerdote tribal que proferiu uma fórmula encantatória a fim de fixar a demónica energia da natureza num instante encarado como imóvel. A fixação está no âmago da arte, fixação no sentido de estase e fixação no sentido de obsessão. Ainda que se limite a traçar uma linha num papel, o artista moderno não deixa de com isso estar a tentar domar algum aspecto incontrolável da realidade. A arte é um feitiço arrebatador; fixa o público no seu assento, faz com que os pés se detenham diante de um quadro, fixa o livro na mão do leitor. A contemplação é uma actividade mágica. (...)

Camille Paglia, Personas Sexuais - Arte e Decadência de Nefertiti a Emily Dickinson

Sexta-feira, 13 de Maio de 2011

THE GIFT – RGB (2011)

Quinta-feira, 12 de Maio de 2011

SIX DRUMMERS – Music For One Apartment (2008)

Quarta-feira, 11 de Maio de 2011

MONTRUGAL



Montra de Montreal, Vitor Vicente, 14 de Abril de 2011

Para o Jesus Carlos

O cúmulo da Diáspora Portuguesa dar-se-á no dia em que, numa rua de Montreal, dois portugueses derem um encontrão, um soltar "sorry" e o outro pedir "pardon".

Vitor Vicente

Terça-feira, 10 de Maio de 2011

ATLANTIHDA – Na Calma dos Teus Olhos (2011)

Domingo, 8 de Maio de 2011

À ATENÇÃO DAS MEMÓRIAS DE PASSARINHO


Vídeo exibido nas Conferências do Estoril 2011


Respectiva resposta

Sábado, 7 de Maio de 2011

AMOR ELECTRO – A Máquina (2011)

Sexta-feira, 6 de Maio de 2011

O SILÊNCIO DAS PALAVRAS, Escravos-libertos





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Gosto que me olhem nos olhos.

Gosto, espero o olhar dos outros com atenção, confiança, entrega. Quantas vezes o espero do pardal irrequieto que pousa na cana atrás da roseira, antes de levantar voo, antes da briga com o outro que chega, antes dos chiados na fuga. Por isso me encanta o pisco, o pisco escuro de peito ruivo que abre umas asas de fogo, lindo, pousado no beirado baixo, no muro, na pedra ali ao lado, seguro, fazendo vénias, quem sabe à espera que o humano lhe deixe algum petisco, alguma sobra do gato. Gosto assim de olhar por entre a chuva mansa que desce sobre as folhas das rosas, ouvindo o melro além, a gaivota perdida do mar, o açor parado no alto a fixar a presa, o chilrear dos pássaros novos, a vida dos bichos que não estão presos na terra, como nós.

E gosto de histórias. Aquelas histórias de sempre, fruto dos sonhos de criança, devaneios de adultos, pousados nas memórias de outrora, inverosímeis mas coloridas de espanto. E eis que surge José Mauro de Vasconcelos em «Meu Pé de Laranja-Lima:

Uma voz falou vindo de não sei onde, perto do meu coração.
— Eu acho que sua irmã tem toda a razão.
— Sempre todo mundo tem toda a razão. Eu é que não tenho nunca.
— Não é verdade. Se você me olhasse bem, você acabava descobrindo.
Eu levantei assustado e olhei a arvorezinha. Era estranho porque sempre eu conversava com tudo, mas pensava que era o meu passarinho de dentro que se encarregava de arranjar fala.
— Mas você fala mesmo?
— Não está me ouvindo?
E deu uma risada baixinha. Quase saí aos berros pelo quintal. Mas a curiosidade me prendia ali.
— Por onde você fala?
— Árvore fala por todo canto. Pelas folhas, pelos galhos, pelas raízes. Quer ver? Encoste seu ouvido aqui no meu tronco que você escuta meu coração bater.
Fiquei meio indeciso, mas vendo o seu tamanho, perdi o medo. Encostei o ouvido e uma coisa longe fazia tique... tique...
— Viu?
— Me diga uma coisa. Todo mundo sabe que você fala?
— Não. Só você.

E a eternidade inteira aqui, em «Rosinha Minha Canoa»:

— Estou velha, Zé Orocó. Velha e pesada... Não quero ficar, como outras canoas, jogadas sobre a areia, servindo de cocho para os animais...é demais de triste.
— Mas Rosinha...como é que vou passar sem você?
— Eu já disse que na aldeia de Santa Isabel, Idearrure quer vender uma canoa igualzinha a mim. Do jeito que você gosta...
Zé Orocó quase engoliu o orvalho dos seus olhos.
— Uma tarde, quando o pôr-do-sol for descendo como a arara vermelha de que tanto você gosta, me leve para a praia branca, me suspenda e, sem ninguém ver, me queime. Depois se afaste um pouco, porque não quero que você me veja desaparecer. Só o céu e a noite que estarão chegando. E o vento da noite vai levar minhas cinzas para onde ninguém vai saber, para alimentar a terra e fazer novas árvores.
—  Pare com isso, Rosinha!
— Você vai-me prometer, promete?
— Prometo, mas eu vou sofrer pra burro.
— Tudo passa.

E ainda olhos nos olhos, o olhar manso dos bichos oferece-nos a sabedoria do mundo e nós nem damos conta. Porque nos sentimos superiores e não somos, numa intolerância de séculos, porque crescemos e os reduzimos a escravos, esquecendo o óbvio, que, se não houver lugar para os servos, deixará de haver senhores.
 

Quinta-feira, 5 de Maio de 2011

PORTUGUÊS E VAGAMUNDO, O Menu de Montreal



Se em Nova Iorque não me contive nas comprinhas para cobrir (ou ornamentar) o corpo (leia-se Levi`s, Hugo Boss, Ralphs Lauren, Lacoste, Guess e a inevitável Calvin Klein), então em Montreal foi mais culinária.
Para começar, o belo do bitoque, acompanhado de uma enxurrada de batatas fritas e um ovo a cavalo. Isto enquanto o FC Porto facturava em Moscovo.
No dia seguinte, ao almoço e na comunidade judaica, comi a melhor sandwich de que o meu exigente estômago guarda memória. Devorei-a em três tempos; tudo o que lembro é o frango grelhado, pickles e um molho de chorar por não haver mais.
Nesse mesmo dia, e para terminar, foi um festim de frango, debaixo de uma tempestade de batatas fritas e uma salada lusitana. Como sobremesa, pedi um par de pastéis de nata. Contudo, levei-os como take away. É que no restaurante português tocava música pimba.
Em jeito de digestão, digamos que foi um bom teste aos meus limites de tolerância para com a Pátria. A tanto se sujeita um tipo em troca de algo que apenas lhe apetece.


Vitor Vicente

Quarta-feira, 4 de Maio de 2011

DETERMINAÇÃO

Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia Rocha, (São Martinho de Anta, 12 de Agosto de 1907 — Coimbra, 17 de Janeiro de 1995)


(Para o Klatuu, meu amigo embuçado)
 
[…]
Terra! Mas uma porção de tal modo exígua, que até os mais confiados a fixavam ansiosamente, como a defendê-la da voragem. A defendê-la e a defender Vicente, cuja sorte se ligara inteiramente ao telúrico destino.

Ah, mas estavam «rotas as fontes do grande abismo, e abertas as cataratas do céu»! E homens e animais começaram a desesperar diante daquele submergir irremediável do último reduto da existência activa. Não, ninguém podia lutar contra a determinação de Deus! Era impossível resistir ao ímpeto dos elementos comandados pela sua implacável tirania.

Transida, a turba sem fé fitava o reduzido cume e o corvo pousado em cima. Palmo a palmo, o cabeço foi devorado. Restava dele apenas o topo, sobre o qual, negro, sereno, único representante do que era raiz plantada no seu justo meio, impávido, permanecia Vicente. Como um espectador impessoal, seguia a Arca, que vinha subindo com a maré. Escolhera a liberdade e aceitara desde esse momento todas as consequências da opção. Olhava a barca, sim, mas para encarar de frente a degradação que recusara.

Noé e o resto dos animais assistiam mudos àquele duelo entre Vicente e Deus. E no espírito claro ou brumoso de cada um, este dilema apenas: ou se salvava o pedestal que sustinha Vicente, e o Senhor preservava a grandeza do instante genesíaco – a total autonomia da criatura em relação ao criador –, ou, submerso o ponto de apoio, morria Vicente, e o seu aniquilamento invalidava essa hora suprema. A significação da vida ligara-se indissoluvelmente ao acto de insubordinação. Porque ninguém mais dentro da Arca se sentia vivo. Sangue, respiração, seiva de seiva, era aquele corvo negro, molhado da cabeça aos pés, que, calma e obstinadamente, pousado na derradeira possibilidade de sobrevivência natural, desafiava a omnipotência.

Três vezes uma onda alta, num arranco de fim, lambeu as garras do corvo, mas três vezes recuou. A cada vaga, o coração frágil da Arca, dependente do coração resoluto de Vicente, estremeceu de terror. A morte temia a morte.

Mas em breve se tornou evidente que o Senhor ia ceder. Que nada podia contra aquela vontade inabalável de ser livre.

Que, para salvar a sua própria obra, fechava, melancolicamente, as comportas do céu.


Miguel Torga in «Bichos»

Segunda-feira, 2 de Maio de 2011

A NOITE E O RISO, Breves Notas Para Uma Poesia Qualquer



1. Deseja-se o poema como um acontecimento, como obra que irrompa por dentro e por fora. Um difuso acontecer cheio de tempo e transformação.
Deseja-se que seja. Mais verdadeiramente: deseja-se o ser.

2. Numa certa poesia diz-se que a intensidade derivada da acção poética é correlata duma intensificação vivencial. Que o poema é fazedor. Que nomear algo (o amor, a infinitude, uma lembrança de sangue e júbilo, um rosto sem fim imaginado, etc) num acto poético será determiná-lo a manifestar-se na vida, a crescer e firmar-se nos dias. A aparecer.

3. Noutra poesia, é como se o mundo estivesse lá-fora e entrasse no cá-dentro, instigando processos de expressão que se definem progressivamente, nomeando o mundo e cada coisa nele.
Deseja-se o poema como voz do mundo existente, uma membrana sensível que no todo envolvente reage oferecendo-lhe voz, expressão, e transformação.

4. Nestoutra poesia, os nomes são setas de armar, fachos de luz que dirigem a acção do poema no mundo.
Na poesia primeira são alvos em chama, um mundo que se gera acolhendo a poesia no mesmo movimento em que esta mesma se cria.
Na poesia segunda, é a poesia que se realiza no atravessamento de mundos não-poéticos; na poesia primeira, são os mundos poéticos que atravessam a vida, realizando esta em formas de rima e ritmo.

5. Tudo isto é rigorosamente moral.

6. E são ambas poesias o mesmo, ou unidade do mesmo; e todas as outras, existentes ou evanescentes, estão igualmente inclusas, e as inexistentes também. Que se diga então: nenhuma delas é anterior ou posterior a nenhuma outra. Sempre presentes e uma quando aparecem, sempre inexistentes e nenhuma quando não.

7. Diria que a poesia é a característica de inactualidade do tempo. A poesia inexiste no seu próprio dizer: é sempre outra coisa que está em jogo, como diz o povo. E é precisamente nessa inexistência, nesse ser que nunca se dá e continuamente se escapa, que a poesia insiste em nós desde os fins dos tempos e dos lugares como uma fome sem nome.

8. Noutra perspectiva: históricamente, a poesia segunda antecedeu a primeira. Decorre daqui que o mundo aconteceu no humano, e só depois este no mundo; e aqui somos forçados a constatar que a inversa também é verdadeira: não há mundo sem palavra , sem relação, sem garganta ou coração e entranhas que lhe dêem forma e significado.

9. Na poesia segunda, a palavra não precisa de ocorrer fora da linguagem. Na primeira, a linguagem não pode ocorrer fora do mundo. E nessa negação de si que reside em ambas, está o ponto em que ambas se cruzam e refulgem.

10. As outras poesias estão em ocorrência, fora deste texto, assim como nele.

11. A escrita poética é um efeito da poesia, não a sua acção própria, e muito menos a sua finalidade. Melhor dizendo, os poemas são as pegadas da caminhada, mas não o seu sentido.

12. Amanhã o poema voltou, o leitor só terá que aguardar ontem.

Domingo, 1 de Maio de 2011

A PÁTRIA É ONDE ENCONTRAMOS PAZ


Memorial de Jonathan Swift, Jardim da Catedral de Dublin

No Man could more verify the Truth of these two Maxims, That Nature is very easily satisfied; and That Necessity is the Mother of Invention. I enjoyed perfect Health of Body and Tranquillity of Mind; I did not feel the Treachery or Inconstancy of a Friend, nor the Injuries of a secret or open Enemy. I had no occasion of bribing, flattering, or pimping, to procure the Favour of any great Man or of his Minion. I wanted no Fence against Fraud or Oppression; Here was neither Physician to destroy my Body, nor Lawyer to ruin my Fortune; No Informer to watch my Words, and Actions, or forge Accusations against me for hire: Here were no Gibers, Censurers, Backbiters, Pick-pockets, Highwaymen, Housebreakers, Attorneys, Bawds, Buffoons, Gamesters, Politicians, Wits, Spleneticks, tedious Talkers, Controvertists, Ravishers, Murderers, Robbers, Virtuosos; no Leaders or Followers of Party and Faction: No encouragers to Vice, by Seducement or Examples: No Dungeon, Axes, Gibbets, Whipping-posts, or Pillories: No cheating Shop-keepers or Mechanicks: No Pride, Vanity, or Affectation; No Fops, Bullies, Drunkards, strolling Whores, or Poxes: No ranting, lewd, expensive Wives: No stupid, proud Pedants: No importunate, overbearing, quarrelsome, noisy, roaring, empty, conceited, swearing Companions: No Scoundrels, raised from the Dust for the Sake of their Vices, or Nobility thrown into it on account of their Virtues: No Lords, Fidlers, Judges, or Dancing-Masters.


Jonathan Swift, Gulliver`s Travels, Crw Publishing, Londres, 2004

 

RENASCIMENTO LUSITANO | O BAR DO OSSIAN