MANIFESTO


O que em filosofia política se chama «ideário», em poesia só pode chamar-se «escola».

Se podemos falar de uma «renascença portuguesa» é porque Portugal existe.

A identidade de uma pátria alicerça-se num conjunto de específicos, de traços culturais únicos, de um perfil étnico.

A poesia que assume ser a voz de uma nação é um clarim solitário.

Nem queremos saber dos vossos gozos e das vossas dores se não forem Portugal. Enviem para França os chiliques, o boudoir, as cartas perfumadas. Enviem a quem pertença tudo o que é verme neste chão.

Estes que se adiantam, que esporeiam as montadas e erguem o rosto impoluto diante do que ainda não é, chamamos-lhes poetas, vates, profetas, doidos, proscritos – o que quiserem. Por eles falam as pátrias, as eras que a História não guardou.

Do meu lado estão os bardos dos Lusitanos, mesmo que me digam que não existiram.

Toda a poesia, toda a palavra, o gesto sequer, o olhar, que não se erguer do sangue singular desta Pátria dos Portugueses Ibéricos – é lixo e aqui não pertence.

Os poetas são as antenas da raça.


Lord of Erewhon



«Artists are the antennae of the race but the bullet-headed many will never learn to trust their great artists.»

Ezra Pound


Quinta-feira, 19 de Maio de 2011

PORTUGUÊS E VAGAMUNDO, A Heteronomia dos Poliglotas




Não me considero – nem de perto, nem de longe – poliglota. Falo português de Diáspora, espanhol catalanizado e easyenglish. Por isso, não posso arrogar o estatuto de poliglota – pois para mim poliglota é aquele que, no mínimo, pode contar os domínios de idiomas pelos dedos das mãos e conversar em todas elas com o à-vontade de quem fala pelos cotovelos.
Enquanto pequeno poliglota, é-me permitida alguma – uma mínima - heteronomia. Dou por mim a pensar (a delirar) em português de Diáspora, a lidar com a língua (numa palavra, a dialogar) com o quotidiano em easyenglish e, de vez em quando, a falar espanhol catalanizado com as súbitas aparições de um passado que, para atestar a importância, teima em estar presente.
Seja em que idioma for, é mais facto que fantasia que todas essas heteronomias mais não são que variações – e assim sendo, afirmações da unidade – Vitor Vicente. Vale o mesmo para os períodos do tempo em que estou calado – o mesmo que dizer quando estou exilado na Pátria do Pensamento.


Vitor Vicente

2 Comments:

jawaa said...

Gosto da tua escrita fluente e fácil, neste português a que chamas «português de diáspora» e eu não sei se é brasiliano ou angolês ou timorense...
Pois eu achei graça a esta tua ideia de poliglotismo (não sei se o dicionário regista)e quero dizer que também vou no easyenglish, ora o que eu aprendo por aqui!
Para mim, ser poliglota é mais fácil: basta um tipo entender-se nas tais quatro ou cinco que nos possibilitam a volta ao mundo e ter um conhecimento mínimo de uma linguagem gestual capaz de nos dar de comer, ainda que seja preciso estar atento ao sim e não, de cabeça a acenar como e em que sentido.

Um abraço lusitano dos cinco continentes, força aí a segurar as pontas!
Não deixes (não deixemos!)que a crise tome conta do Bar!

Vitor Vicente said...

Descodificando o Português de Diáspora, diria que é um Português expansionista, atlântico e muito abrasileirado por um par de vezes em Terras de Vera Cruz e estreitas relações com os respectivos nativos.
Quanto ao easyenglish, é o meu manual de sobrevivência na Irlanda (até vir viver para cá, pensava ser fluente).
Por último, o poliglotismo é o privilégio dos que posicionar-se perante o mundo e serem muitos e nunca se perderem em países de ninguém e de nenhures.

Um abraço lusitano e cá estaremos para animar O Bar!

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