MANIFESTO


O que em filosofia política se chama «ideário», em poesia só pode chamar-se «escola».

Se podemos falar de uma «renascença portuguesa» é porque Portugal existe.

A identidade de uma pátria alicerça-se num conjunto de específicos, de traços culturais únicos, de um perfil étnico.

A poesia que assume ser a voz de uma nação é um clarim solitário.

Nem queremos saber dos vossos gozos e das vossas dores se não forem Portugal. Enviem para França os chiliques, o boudoir, as cartas perfumadas. Enviem a quem pertença tudo o que é verme neste chão.

Estes que se adiantam, que esporeiam as montadas e erguem o rosto impoluto diante do que ainda não é, chamamos-lhes poetas, vates, profetas, doidos, proscritos – o que quiserem. Por eles falam as pátrias, as eras que a História não guardou.

Do meu lado estão os bardos dos Lusitanos, mesmo que me digam que não existiram.

Toda a poesia, toda a palavra, o gesto sequer, o olhar, que não se erguer do sangue singular desta Pátria dos Portugueses Ibéricos – é lixo e aqui não pertence.

Os poetas são as antenas da raça.


Lord of Erewhon



«Artists are the antennae of the race but the bullet-headed many will never learn to trust their great artists.»

Ezra Pound


Sábado, 14 de Maio de 2011

PERSONAS SEXUAIS

Camille Paglia


(...) A projecção é uma maldição masculina: a de necessitar sempre de algo ou alguém para se sentir completo. Esta é uma das origens da arte e o motivo pelo qual a mesma sempre foi, historicamente, dominada pelos homens. A arte é o melhor que o homem consegue para imitar a majestosa autonomia feminina. Mas o artista precisa da sua arte, da sua projecção. Quando um artista se sente bloqueado, como Da Vinci, sofre como um condenado ao inferno. A pintura mais famosa do mundo, Mona Lisa, representa o isolamento auto-satisfeito da mulher, o seu sorriso ambiguamente escarninho perante a vaidade e o desespero dos seus inúmeros filhos.
Tudo o que há de grande na cultura ocidental é resultado do combate com a natureza. Foi o Ocidente, e não o Oriente, que vislumbrou a terrível brutalidade dos processos naturais, a ofensa para o espírito na cega e pesada trituração da matéria. A perda do eu não nos conduz a Deus ou ao amor, mas à sordidez primeva. Esta revelação recaiu historicamente no homem ocidental, um ser empurrado por ritmos marinhos em direcção à mãe oceânica. É ao seu ressentimento contra esta demónica ressaca que nós devemos as grandiosas edificações da nossa cultura. O apolíneo, frio e absoluto, representa a sublime recusa do ocidental. O apolíneo é uma linha masculina traçada contra a desumanizante magnitude da natureza feminina.
Na natureza, tudo se funde. Pensamos ver objectos, mas apenas porque o nosso olhar é lento e parcial. A natureza floresce e murcha em longas e ofegantes inspirações, subindo e descendo num oceânico movimento de marés.
Uma mente que se abrisse completamente à natureza, sem sentimentos preconcebidos, seria inundada pelo seu rude materialismo, pela sua inexorável superabundância. Uma macieira carregada de frutos: como é pacífica e pitoresca. Mas removamos do nosso olhar o rosado filtro do humanismo e olhemos novamente. Veja-se nela a natureza a espumar, o seu louco borbulhar seminal que interminavelmente se derrama e se despedaça numa inumana sucessão de desperdício, podridão e carnificina. Das apinhadas e vítreas células das ovas de peixe às penugentas esporas lançadas ao vento por certas vagens, a natureza é um supurante vespeiro de agressividade e destruição. Esta é a ctónica magia negra com que estamos infectados, como seres sexuados que somos; é a demónica identidade que o Cristianismo tão inadequadamente define como pecado original, ao mesmo tempo que acredita poder removê-lo dos homens. A mulher procriadora é o mais perturbante obstáculo à pretensa catolicidade do Cristianismo, testemunhada pelas suas doutrinas da Imaculada Conceição e da virgindade de Maria. A faculdade procriadora da natureza ctónica é um obstáculo a todas as metafísicas ocidentais e a todo o homem na sua busca de identidade contra a mãe. A natureza é o fervilhante excesso do ser.
A arma mais eficaz contra o fluxo da natureza é a arte. A religião, o ritual e a arte começaram por ser um só, e não há arte em que não persista um elemento religioso ou metafísico. A arte, por muito minimalista que seja, nunca é apenas concepção. É sempre uma reordenação ritual da realidade. O empreendimento artístico, seja numa era de estabilidade colectiva ou de instabilidade individual, é inspirado pela ansiedade. Qualquer assunto circunscrito e exaltado pela arte é sempre colocado em perigo pelo seu contrário. A arte é um fechamento que visa impedir a entrada desse contrário; uma forma de deter o mecanismo de movimento perpétuo que é a natureza. O primeiro artista foi um sacerdote tribal que proferiu uma fórmula encantatória a fim de fixar a demónica energia da natureza num instante encarado como imóvel. A fixação está no âmago da arte, fixação no sentido de estase e fixação no sentido de obsessão. Ainda que se limite a traçar uma linha num papel, o artista moderno não deixa de com isso estar a tentar domar algum aspecto incontrolável da realidade. A arte é um feitiço arrebatador; fixa o público no seu assento, faz com que os pés se detenham diante de um quadro, fixa o livro na mão do leitor. A contemplação é uma actividade mágica. (...)

Camille Paglia, Personas Sexuais - Arte e Decadência de Nefertiti a Emily Dickinson

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