
Retrato do Génio enquanto Ébrio - Hotel du Manoir (Montreal), Vitor Vicente, Abril de 2011
Não tinhamos combinado, mas à noite encontrei-o no café. Noite sem bingo, por ser pouca a freguesia, ele numa roda de cabeças arroxeadas e olhos lacrimosos do vinho, agitado e também já meio bêbedo, a contar-lhes de uma Holandesa que os deixava de boca aberta.
Se neste mundo havia um paraíso, era ali. Melhor do que a América, melhor do que o Brasil, melhor...À falta de comparação apontava inseguro para a porta, acompanhando o gesto com uma descara de "Filhos da puta!", logo a retomar que a Holanda era cem vezes melhor do que a Suiça, cem vezes melhor do que a Alemanha, mil vezes melhor do que o Luxemburgo.
- Pr'aí só vai quem não tem colhões!
- Pra onde, caralho? Pra onde? - O dedo do Gato a exigir explicação e o outro, sem medo, parando a meio a golada que tinha começado:
- Pra Suiça, caralho! Vão lá pra lavar roupa! E a louça nas cozinhas! O cu aos velhos nos asilos! Trabalham mais de mulher do que de homem!
- Por isso é que alguns dão em panascas! - comentou de longe um rapaz magro, encostado aos matraquilhos.
Na roda discordaram aos gritos. Na televisão já se tinha visto algumas vezes e não era bem assim. Paneleiros havia agora em toda a parte, mesmo no Porto e em Lisboa, mas na televisão tinham mostrado que na Holanda. era onde havia mais disso. Lá até andavam meio nus pelas ruas, aos beijos, a dançar agarrados uns aos outros.
- Paneleiros e fressureiras! - riu o magro.
Os que estavam perto tiveram de o conter, porque ao ouvir aquilo o Gato, enraivecido, a escumar, estilhaçou o copo contra a mesa e queria pedir contas ao homem. Que não viesse bardamerdas nenhum, nenhum filho da puta, dizer como era na Holanda. Quem lá tinha estado é que podia falar. E o que se atrevesse a dizer que a Holanda era terra de paneleiros...
Recomeçou a estrebuchar, mas com bom modo os outros tiravam-lhe o copo quebrado da mão e ele acalmou, fazendo para o meu lado um gesto que era meio de desculpa, meio de amizade, e a fingir que só agora me descobrira no canto onde me tinha sentado.
O burburinho parou um instante com a chegada de um grupo de fora, gente que olhava em volta aborrecida, a queixar-se que ninguém os tinha avisado que não havia bingo.
Desinteressado, o Gato virou-lhes as costas, foi ao balcão pedir mais um copo e juntou-se de novo à roda. A Holanda, pois. Ele sabia. Tinha lá estado mais de vinte anos. Qual Suiça, qual merda! A Holanda é que era uma nação como devia ser: tudo novo, tudo perfeito, tudo rico, bem arranjado. E enumerando pelos dedos:
- Não há lá pobres. Toda a gente tem automóvel, televisão, telefone, o diabo a quatro. Trabalha-se aqui um mês para o que se ganha lá num dia ou dois. Nas casas é um luxo que só visto. Então as lojas, até cansa! Cheias de tudo! E enormes! Há-as do tamanho dum campo de bola. No porto entram navios maiores e mais altos que...
- Também já ouvi dizer - interrompeu o Barbeiro - , não sei se foi o meu primo ou na televisão, que há por lá gajas bem bonitas. E que não se engasgam nada para ir para a cama com um qualquer. Até com pretos.
O Gato olhou-o, suspeitoso, como se ouvisse uma indirecta. Olhou-me de seguida em soslaio, a parecer que se certificava da minha discrição, mas nem teve tempo de replicar, porque o rapaz se desencostou dos matraquilhos e veio direito a ele, toldado, pronto para a briga:
- Há lá de tudo, hein? E tudo grande, hein? O que há lá é só putas e paneleiros e fanchonas!
- Não te conheço de parte nenhuma, filho da puta, mas estás mesmo a pedir que te parta as trombas!
Ficaram um instante frente a frente, silenciosos e como se o vinhos lhes retardasse a raiva, mas foi o Gato que primeiro se atirou, agarrando o outro pelo pescoço e disparando a mão livre com tanta força que lhe fez espirrar o sangue do nariz e da boca.
Só se ouviram uns gritos das mulheres, mas os outros meteram-se de permeito a mandar a calma, a dizer que não se queriam ali zaragatas. O rapaz levantou-se do chão onde se tinha estatelado e, a cambalear, o lenço apertado contra o nariz, foi para a porta, resmugando que depois se veria, que aquilo que não ficava assim.
Riram-se dele e deixaram-no ir. Ninguém o conhecia. O mais certo era que fosse algum desses ciganos que apareciam agora pelas aldeias a vender droga e a desencaminhar a juventude. Má rês.
- De droga quem deve saber é o Gato - disse brincalhão o Sr. Filinto, reformado da Guarda - porque pelos jeitos na Holanda há droga por todo o lado. Pelo menos é o que diz o jornal, que eu não sei, nunca lá estive.
- Já tem dado na televisão - acrescentou um idoso.
Quase todos os olhares se tinham voltado para ele, à espera de comentário, mas o Gato parecia não dar conta, esfregando a mão com que socara o rapaz.
- Contra o osso e com essa força, até a podias quebrar - disse o Marcelo, o dono do café.
Em volta concordaram, ele acenou também com a cabeça, disse que de facto doía um bocado e, como se os quisesse evitar, sentou-se junto de mim.
- Isso vai? - perguntei eu a modo de boas-vindas.
Ele casmurro, a mostrar-se incomodado porque os outros o tinham seguido, o Sr. Filinto a insistiu chocarreiro:
- Então, a droga lá na Holanda? Há ou não há?
- Pois deve haver, mas é dos pretos e dos turcos. Dos holandeses não, eles não se metem nisso.
Riram bem-humorados, aperreando-o de que mentia. Não tinha nem pés nem cabeça dizer o contrário, porque volta e meia a televisão mostrava coisas sobre a droga e lá vinham sempre os holandeses. Até havia lojas. Então Amsterdão era o fim do mundo, viam-se os drogados caídos nos passeiros, nos portais, na estação.
- Isso é o que dizem, mas eu trabalhei lá vinte e tal anos e nunca vi nada - rematou ele numa voz morosa, ao mesmo tempo que se levantava, acrescentando que para chatice bastava e dali ia para a a cama.
Os outros não gostaram. Se não queria falar não falasse, ninguém o obrigava, mas também não era preciso pôr-se azedo. Afinal a Holanda não lhe pertencia, nem ele pertencia à Holanda, e por isso não tinha que estar sempre a defender, sempre a elogiar. Os que trabalhavam na Alemanha, como o Belmiro e o filho da Santeira, diziam que a Holanda era um país de merda, tão chato que enjoava. Esses dois tinham ido lá ver e diziam que realmente por toda a parte se viam putas e paneleiros, que havia ruas inteiras só para eles.
Murcho, olhando para mim em busca de ajuda, a cada invectiva o Gato encolhia os ombros, incapaz de replicar.
- O que eu penso - disse o Sr. Filinto dum modo bonachão, puxando-lhe a manga - é que o nosso Gato em rapaz arranjou por lá algum namorico e agora, se a gente é contra a Holanda, ele fica com dor de corno. Será isso?
Fez-se um silêncio cheio de expectiva, os que nos rodeavam a mostrar com meios sorrisos que sabiam ou suspeitavam, mas o bom seria se ele se abrisse e contasse. Pareciam garotos impacientes à espera de uma história.
De olhos arregalados, fazendo-nos cerco, paravam um instante a ver se ele cedia quando o Sr. Filinto voltava a repetir: "Será isso?", mas logo recomeçavam a atazaná-lo. Que contasse, caramba! Então! Que mal tinha? Estavam mortos por ouvir!
Ensimesmado, o olhar mortiço, o Gato não respondia e abanava as mãos, de vez em quando fazendo um gesto para o meu lado, a mostrar que aquilo o aborrecia.
- Vamos ? - sugeri eu, a mostrar-me solidário, mas também a temer que ele não aguentasse o vexame mais tempo e acabasse por algum desatino.
Levantei-me e, distraído, repeti: - Vamos? - estranhando não o ver levantar-se, e só então me apercebi de que o filho da Justina, caído de bêbedo, se pusera diante dele.
Com bom modo, para lhe desviar a atenção e receando o vinho eo mau génio de ambos, ainda segurei o rapaz pelo braço, mas ele libertou-se com um safanão.
Desfigurado, abria e fechava a boca sem falar, e ora dava a impressão de que ia arremeter, ora cambaleava, abanando os braços à toa, incapaz de agarrar o Gato que, ainda sentado, parecia indiferente à palhaçada do mulato e à vozearia dos outros.
- Conta lá! - conseguiu o rapaz dizer, revirando os olhos, o rosto numa careta de insolência.
- Prá casota, Farrusco! - atirou-lhe o Gato, ao mesmo que, levantando-se, lhe dava um empurrão e fazia ir às arrecuas.
O rapaz não caíu, porque os outros o seguraram a tempo, mas com o insulto como que se lhe foi a bebedeira. Teso e senhor de si, virou-nos as costas, falou para a roda:
- Não conta ele, conto eu! Estes dois... - e apontava também para mim, chocarreiro - estes são os dois da panelinha!
Foi uma premonição, daquelas que se têm nos momentos de grande perigo, quando num ápice nos ganha a certeza de que, inevitavelmente, o pior vai acontecer. Logo a seguir o o tempo arrasta-se, os milissegundos ganham a lentidão de minutos, e os movimentos, os corpos, as expressões dos rostos, os sons, tudo se petrifica ou acontece retardado, os pensamentos demoram a nascer. É como se a misteriosa maquinaria que tudo regula, parasse de funcionar.
- O Gato teve lá puta! Dessas gajas que andam de minissaia e com as tetas à mostra. A minha mãe viu. O Corvo tem lá uns retratos. Ele que diga!
Corvo. Pelos jeitos era essa a alcunha que me tinham posto, talvez por quase sempre vestir de preto. Ouvia-a pela primeira vez, mas sem irritação, indiferente, tomado como estava de um sentimento confuso que não me deixava raciocionar e deformava o que acontecia à minha volta.
- Ele que diga! Ele que diga!
As palavras ressoavam ensurdecedoras e o fulgor dos olhos, as caras retorcidas de crueldade, o escárnio, as gargalhadas, nada neles era humano, mas animal. Não havia ali gente, eram uma alcateia que o vinho, as frustrações e as raivas afogadas tinham retornado ao estado de bestas. Fazendo cerco, os seus corpos inclinavam-se para a frente, prontos para o ataque, as cabeças pendentes, lembrando hienas a farejar a presa.
De boca pendente, os olhos esgazeados, o Gato dir-se-ia que tinha perdido o juízo. O corpo tremia-lhe numa grande agitação e ora me encarava, ora se virava para os outros, indeciso, pronto a explodir, mas sem encontrar alvo para a sua fúria.
- Qual puta, qual caraças! - gritou um. - Puta nenhuma! Então os gajos que lá que estavam não diziam que ele, por ser bonitinho, ganhavam mais com os panascas, do que nas docas? Por isso não gosta que se toque nessas coisas. É como há bocado, zanga-se! Eh, Gato! Zangas-te logo, hein?
Desatinado, atirou-se ao que falara, mas nem um passo deu, os outros a agarrá-lo por todos os lados, caçoando daquele estrebuchar em vão. E verem-no indefeso acirrava-lhes a crueldade:
- Diz! Era puta? Pôs-te por conta?
Um outro, roçando-lhe a mão pela face numa carícia:
- Ou andaste por lá a levar no cu?
Ao meu lado, o Sr. Filintino pedia calma, dizia que bastava, acabasse com aquilo, mas ninguém lhe dava ouvidos, era como se por instinto tivessem de continuar até que acontesse o irremediável.
- Ganhou-lhes gosto! E ensinou este. Por isso é que todos os dias se vão ambos ao passeio! - chacoteou um, ao mesmo tempo que com uma expressão de nojo me atirava a ponta do cigarro.
- Vira ti, viro eu!
Outro veio aos empurrões até chegar perto de mim, estacou, e enfurecido, o seu dedo a tocar-me o nariz:
- Esse vi-o eu, a enrabar ovelhas! Vi, sim senhor! E o Gato de sentintela!
- Cala-te, palerma! Qual ovelhas? Não sejas besta! - respontou o filho da Justina. - O que ele queria era enrabar eram os miúdos da escola! Pergunta à minha mãe!
A algazarra, os gestos obscenos e os risos da chacota, aquelas feições de loucos a dar mostras que dum momento para o outro me poderiam estraçalhar. Senti-me rebaixado e indefeso, sem fôlego, o corpo a esmorecer, mas ninguém parecia prestar atenção na minha aflição. Ora se voltavam para mim e para o Gato, ora se ameaçavam uns para os outros, para logo continuarem às gargalhadas e aos encontrões.
Gritaram ao rapaz para que se calasse. Besta era ele e a a mãe não era para ali chamada, que essa era ainda mais puta do que as putas de Portugal, da Holanda e do resto do mundo todas juntas. Senão não se tinha deixado montar por um preto, nem ia parir semelhante mamarracho.
Francisco empalideceu, firmou-se. De punhos fechados, olhava para um lado, olhava para o outro à espera do adversário e pronto para o ataque, mas ninguém lhe ligou importância. Alguns puseram-se a imitá-lo, fazendo trejeitos, fingindo uma luta de boxe, e foi como se o ar começasse a desanuviar.
Houve risos, um afrouxamento. Pressentindo o descuido dos que ainda o seguravam, o Gato libertou-se com um safanão e logo à sua volta se fez um vazio.
Primeiro julguei que não se contivesse, que aparecesse de navalha ou quebrasse uma garrafa e se atirasse aos que estivessem mais perto. Em vez disso, pareceu-se deter-se um instante a tomar fôlego e depois, sem pressa, olhando em frente, avançou para a porta, os outros a abrir caminho, supresos, descrentes do que viam.
Saí também e na rua pus-me ao seu lado, a acompanhá-lo em silêncio, porque as palavras que me ocorriam, as desculpas, nenhuma delas parecia fazer sentido. Mas foi ele que parou, encarando-me sereno, como se nada o tivesse ferido nem humilhado. E a sua voz, inesperadamente calma, assustou-me mais do que se gritasse ou insultasse:
- Mande-me os retratos. E nunca mais me fale. Nem me apareça. Se o volto a encontrar, degolo-o como a um cão tinhoso.
Fulminado e incapaz de reagir ou explicar, vi-o ir rua adiante no seu passo arrastado.
Não sei quanto tempo fiquei ali, nem recordo como fui para casa. Lembro-me apenas que me deitei vestido, sobre a cama, mas tão grande era a opressão no peito que me tive de me sentar. E os olhos encheram-se de lágrimas, num pranto que era de vergonha, de cobardia, de penas e pecados, do remorso que dá o que não tem indulto, da solidão que nos sufoca quando descemos ao fundo de nós próprios.
J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa, Quetzal, Lisboa, Julho de 2010
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