Deseja-se que seja. Mais verdadeiramente: deseja-se o ser.
2. Numa certa poesia diz-se que a intensidade derivada da acção poética é correlata duma intensificação vivencial. Que o poema é fazedor. Que nomear algo (o amor, a infinitude, uma lembrança de sangue e júbilo, um rosto sem fim imaginado, etc) num acto poético será determiná-lo a manifestar-se na vida, a crescer e firmar-se nos dias. A aparecer.
3. Noutra poesia, é como se o mundo estivesse lá-fora e entrasse no cá-dentro, instigando processos de expressão que se definem progressivamente, nomeando o mundo e cada coisa nele.
Deseja-se o poema como voz do mundo existente, uma membrana sensível que no todo envolvente reage oferecendo-lhe voz, expressão, e transformação.
4. Nestoutra poesia, os nomes são setas de armar, fachos de luz que dirigem a acção do poema no mundo.
Na poesia primeira são alvos em chama, um mundo que se gera acolhendo a poesia no mesmo movimento em que esta mesma se cria.
Na poesia segunda, é a poesia que se realiza no atravessamento de mundos não-poéticos; na poesia primeira, são os mundos poéticos que atravessam a vida, realizando esta em formas de rima e ritmo.
5. Tudo isto é rigorosamente moral.
6. E são ambas poesias o mesmo, ou unidade do mesmo; e todas as outras, existentes ou evanescentes, estão igualmente inclusas, e as inexistentes também. Que se diga então: nenhuma delas é anterior ou posterior a nenhuma outra. Sempre presentes e uma quando aparecem, sempre inexistentes e nenhuma quando não.
7. Diria que a poesia é a característica de inactualidade do tempo. A poesia inexiste no seu próprio dizer: é sempre outra coisa que está em jogo, como diz o povo. E é precisamente nessa inexistência, nesse ser que nunca se dá e continuamente se escapa, que a poesia insiste em nós desde os fins dos tempos e dos lugares como uma fome sem nome.
8. Noutra perspectiva: históricamente, a poesia segunda antecedeu a primeira. Decorre daqui que o mundo aconteceu no humano, e só depois este no mundo; e aqui somos forçados a constatar que a inversa também é verdadeira: não há mundo sem palavra , sem relação, sem garganta ou coração e entranhas que lhe dêem forma e significado.
9. Na poesia segunda, a palavra não precisa de ocorrer fora da linguagem. Na primeira, a linguagem não pode ocorrer fora do mundo. E nessa negação de si que reside em ambas, está o ponto em que ambas se cruzam e refulgem.
10. As outras poesias estão em ocorrência, fora deste texto, assim como nele.
11. A escrita poética é um efeito da poesia, não a sua acção própria, e muito menos a sua finalidade. Melhor dizendo, os poemas são as pegadas da caminhada, mas não o seu sentido.
12. Amanhã o poema voltou, o leitor só terá que aguardar ontem.
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