MANIFESTO


O que em filosofia política se chama «ideário», em poesia só pode chamar-se «escola».

Se podemos falar de uma «renascença portuguesa» é porque Portugal existe.

A identidade de uma pátria alicerça-se num conjunto de específicos, de traços culturais únicos, de um perfil étnico.

A poesia que assume ser a voz de uma nação é um clarim solitário.

Nem queremos saber dos vossos gozos e das vossas dores se não forem Portugal. Enviem para França os chiliques, o boudoir, as cartas perfumadas. Enviem a quem pertença tudo o que é verme neste chão.

Estes que se adiantam, que esporeiam as montadas e erguem o rosto impoluto diante do que ainda não é, chamamos-lhes poetas, vates, profetas, doidos, proscritos – o que quiserem. Por eles falam as pátrias, as eras que a História não guardou.

Do meu lado estão os bardos dos Lusitanos, mesmo que me digam que não existiram.

Toda a poesia, toda a palavra, o gesto sequer, o olhar, que não se erguer do sangue singular desta Pátria dos Portugueses Ibéricos – é lixo e aqui não pertence.

Os poetas são as antenas da raça.


Lord of Erewhon



«Artists are the antennae of the race but the bullet-headed many will never learn to trust their great artists.»

Ezra Pound


Segunda-feira, 2 de Maio de 2011

A NOITE E O RISO, Breves Notas Para Uma Poesia Qualquer



1. Deseja-se o poema como um acontecimento, como obra que irrompa por dentro e por fora. Um difuso acontecer cheio de tempo e transformação.
Deseja-se que seja. Mais verdadeiramente: deseja-se o ser.

2. Numa certa poesia diz-se que a intensidade derivada da acção poética é correlata duma intensificação vivencial. Que o poema é fazedor. Que nomear algo (o amor, a infinitude, uma lembrança de sangue e júbilo, um rosto sem fim imaginado, etc) num acto poético será determiná-lo a manifestar-se na vida, a crescer e firmar-se nos dias. A aparecer.

3. Noutra poesia, é como se o mundo estivesse lá-fora e entrasse no cá-dentro, instigando processos de expressão que se definem progressivamente, nomeando o mundo e cada coisa nele.
Deseja-se o poema como voz do mundo existente, uma membrana sensível que no todo envolvente reage oferecendo-lhe voz, expressão, e transformação.

4. Nestoutra poesia, os nomes são setas de armar, fachos de luz que dirigem a acção do poema no mundo.
Na poesia primeira são alvos em chama, um mundo que se gera acolhendo a poesia no mesmo movimento em que esta mesma se cria.
Na poesia segunda, é a poesia que se realiza no atravessamento de mundos não-poéticos; na poesia primeira, são os mundos poéticos que atravessam a vida, realizando esta em formas de rima e ritmo.

5. Tudo isto é rigorosamente moral.

6. E são ambas poesias o mesmo, ou unidade do mesmo; e todas as outras, existentes ou evanescentes, estão igualmente inclusas, e as inexistentes também. Que se diga então: nenhuma delas é anterior ou posterior a nenhuma outra. Sempre presentes e uma quando aparecem, sempre inexistentes e nenhuma quando não.

7. Diria que a poesia é a característica de inactualidade do tempo. A poesia inexiste no seu próprio dizer: é sempre outra coisa que está em jogo, como diz o povo. E é precisamente nessa inexistência, nesse ser que nunca se dá e continuamente se escapa, que a poesia insiste em nós desde os fins dos tempos e dos lugares como uma fome sem nome.

8. Noutra perspectiva: históricamente, a poesia segunda antecedeu a primeira. Decorre daqui que o mundo aconteceu no humano, e só depois este no mundo; e aqui somos forçados a constatar que a inversa também é verdadeira: não há mundo sem palavra , sem relação, sem garganta ou coração e entranhas que lhe dêem forma e significado.

9. Na poesia segunda, a palavra não precisa de ocorrer fora da linguagem. Na primeira, a linguagem não pode ocorrer fora do mundo. E nessa negação de si que reside em ambas, está o ponto em que ambas se cruzam e refulgem.

10. As outras poesias estão em ocorrência, fora deste texto, assim como nele.

11. A escrita poética é um efeito da poesia, não a sua acção própria, e muito menos a sua finalidade. Melhor dizendo, os poemas são as pegadas da caminhada, mas não o seu sentido.

12. Amanhã o poema voltou, o leitor só terá que aguardar ontem.

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