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Gosto que me olhem nos olhos.
Gosto, espero o olhar dos outros com atenção, confiança, entrega. Quantas vezes o espero do pardal irrequieto que pousa na cana atrás da roseira, antes de levantar voo, antes da briga com o outro que chega, antes dos chiados na fuga. Por isso me encanta o pisco, o pisco escuro de peito ruivo que abre umas asas de fogo, lindo, pousado no beirado baixo, no muro, na pedra ali ao lado, seguro, fazendo vénias, quem sabe à espera que o humano lhe deixe algum petisco, alguma sobra do gato. Gosto assim de olhar por entre a chuva mansa que desce sobre as folhas das rosas, ouvindo o melro além, a gaivota perdida do mar, o açor parado no alto a fixar a presa, o chilrear dos pássaros novos, a vida dos bichos que não estão presos na terra, como nós.
E gosto de histórias. Aquelas histórias de sempre, fruto dos sonhos de criança, devaneios de adultos, pousados nas memórias de outrora, inverosímeis mas coloridas de espanto. E eis que surge José Mauro de Vasconcelos em «Meu Pé de Laranja-Lima:
Uma voz falou vindo de não sei onde, perto do meu coração.
— Eu acho que sua irmã tem toda a razão.
— Sempre todo mundo tem toda a razão. Eu é que não tenho nunca.
— Não é verdade. Se você me olhasse bem, você acabava descobrindo.
Eu levantei assustado e olhei a arvorezinha. Era estranho porque sempre eu conversava com tudo, mas pensava que era o meu passarinho de dentro que se encarregava de arranjar fala.
— Mas você fala mesmo?
— Não está me ouvindo?
E deu uma risada baixinha. Quase saí aos berros pelo quintal. Mas a curiosidade me prendia ali.
— Por onde você fala?
— Árvore fala por todo canto. Pelas folhas, pelos galhos, pelas raízes. Quer ver? Encoste seu ouvido aqui no meu tronco que você escuta meu coração bater.
Fiquei meio indeciso, mas vendo o seu tamanho, perdi o medo. Encostei o ouvido e uma coisa longe fazia tique... tique...
— Viu?
— Me diga uma coisa. Todo mundo sabe que você fala?
— Não. Só você.
E a eternidade inteira aqui, em «Rosinha Minha Canoa»:
— Estou velha, Zé Orocó. Velha e pesada... Não quero ficar, como outras canoas, jogadas sobre a areia, servindo de cocho para os animais...é demais de triste.
— Mas Rosinha...como é que vou passar sem você?
— Eu já disse que na aldeia de Santa Isabel, Idearrure quer vender uma canoa igualzinha a mim. Do jeito que você gosta...
Zé Orocó quase engoliu o orvalho dos seus olhos.
— Uma tarde, quando o pôr-do-sol for descendo como a arara vermelha de que tanto você gosta, me leve para a praia branca, me suspenda e, sem ninguém ver, me queime. Depois se afaste um pouco, porque não quero que você me veja desaparecer. Só o céu e a noite que estarão chegando. E o vento da noite vai levar minhas cinzas para onde ninguém vai saber, para alimentar a terra e fazer novas árvores.
— Pare com isso, Rosinha!
— Você vai-me prometer, promete?
— Prometo, mas eu vou sofrer pra burro.
— Tudo passa.
E ainda olhos nos olhos, o olhar manso dos bichos oferece-nos a sabedoria do mundo e nós nem damos conta. Porque nos sentimos superiores e não somos, numa intolerância de séculos, porque crescemos e os reduzimos a escravos, esquecendo o óbvio, que, se não houver lugar para os servos, deixará de haver senhores.
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