MANIFESTO


O que em filosofia política se chama «ideário», em poesia só pode chamar-se «escola».

Se podemos falar de uma «renascença portuguesa» é porque Portugal existe.

A identidade de uma pátria alicerça-se num conjunto de específicos, de traços culturais únicos, de um perfil étnico.

A poesia que assume ser a voz de uma nação é um clarim solitário.

Nem queremos saber dos vossos gozos e das vossas dores se não forem Portugal. Enviem para França os chiliques, o boudoir, as cartas perfumadas. Enviem a quem pertença tudo o que é verme neste chão.

Estes que se adiantam, que esporeiam as montadas e erguem o rosto impoluto diante do que ainda não é, chamamos-lhes poetas, vates, profetas, doidos, proscritos – o que quiserem. Por eles falam as pátrias, as eras que a História não guardou.

Do meu lado estão os bardos dos Lusitanos, mesmo que me digam que não existiram.

Toda a poesia, toda a palavra, o gesto sequer, o olhar, que não se erguer do sangue singular desta Pátria dos Portugueses Ibéricos – é lixo e aqui não pertence.

Os poetas são as antenas da raça.


Lord of Erewhon



«Artists are the antennae of the race but the bullet-headed many will never learn to trust their great artists.»

Ezra Pound


Quinta-feira, 28 de Abril de 2011

O PESADELO


Lucifer Falls series, Plate V, Jeff Bark, 2010


O poeta acordou nu
sem saber o que era sonho
e o que era realidade.

Em lugar da virgem, putas;
em lugar das flores, pó!

Correu por quarteirões cinzentos
entre luzes, carros e sujeira;
viajou até o espaço sideral.

Em lugar do sabiá, buzinas.

Girou milhares de vezes
ao redor do seu próprio eixo;
sorriu um sorriso idiota.

Chega! – gritou indignado.
Decidiu que era tudo um sonho
e beliscou forte seu braço esquerdo.


Fabrício Fortes

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