MANIFESTO


O que em filosofia política se chama «ideário», em poesia só pode chamar-se «escola».

Se podemos falar de uma «renascença portuguesa» é porque Portugal existe.

A identidade de uma pátria alicerça-se num conjunto de específicos, de traços culturais únicos, de um perfil étnico.

A poesia que assume ser a voz de uma nação é um clarim solitário.

Nem queremos saber dos vossos gozos e das vossas dores se não forem Portugal. Enviem para França os chiliques, o boudoir, as cartas perfumadas. Enviem a quem pertença tudo o que é verme neste chão.

Estes que se adiantam, que esporeiam as montadas e erguem o rosto impoluto diante do que ainda não é, chamamos-lhes poetas, vates, profetas, doidos, proscritos – o que quiserem. Por eles falam as pátrias, as eras que a História não guardou.

Do meu lado estão os bardos dos Lusitanos, mesmo que me digam que não existiram.

Toda a poesia, toda a palavra, o gesto sequer, o olhar, que não se erguer do sangue singular desta Pátria dos Portugueses Ibéricos – é lixo e aqui não pertence.

Os poetas são as antenas da raça.


Lord of Erewhon



«Artists are the antennae of the race but the bullet-headed many will never learn to trust their great artists.»

Ezra Pound


Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2010

FOGO IMORREDOURO


O Bar do Ossian deseja a todos os seus leitores e colaboradores um pleno e auspicioso 2011! Por alguma razão estaremos aqui, e a taverna tem sido hospitaleira... Sempre se ouviram uivos do vento, mas continuamos a cuidar do fogo.

Abraço lusitano!
A Redacção

Quinta-feira, 30 de Dezembro de 2010

MANHÃ DE NEVOEIRO

Poema dedicado ao Ruela


Bosque, Ruela, 2010


esta é a manhã das invisíveis coisas
enraízadas na humidade e
no frio,
das paisagens de pedras brancas
e lírios,
dos barcos quietos, ancorados
em jorros de névoa.

ouves? são passos que gritam
sobre o leve respirar dos anjos,
são sussurros de sangue, sob o solo.

sentes? é o corpo que arde, muito devagar,
por entre brancas pétalas,
e muito devagar tudo se reacende, tudo se eterniza
uma ilha, uma casa, um rio, uma árvore antiga
numa nostalgia de horizontes perdidos.


Publicado no blog "ínsua" e na edição nº 6 da revista Abismo Humano.

Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010

AY QUE BONITO ES VOLAR, VOLAR Y DEJAR SE CAER...


La Iguana, Lila Downs


La Bruja, Eugenia León & Lila Downs

Terça-feira, 28 de Dezembro de 2010

THE DESERT ROSE


Desert Rose, Sting ao vivo em Berlim, 2010


Englishman In New York, Roxanne, Sting ao vivo em Berlim, 2010

ABSINTHE, 8ª DOSE


António de Oliveira Salazar passeia com Maria Antónia, uma das suas «pupilas», sobrinha de Maria de Jesus Freire, sua governanta, início dos anos 50, fotografia atribuída a Rosa Casaco (agente da PIDE, que chefiou a brigada que assassinou o General Humberto Delgado)


Após o célebre discurso de Oliveira Salazar, a 13 de Março de 1961, «Para Angola, e em força!», realizou-se uma grande manifestação de apoio ao regime, salvo erro no Terreiro do Paço (este relato é uma memória de outro; o meu pai ouviu-o do meu avô e contou-mo, não lhe pedi mais pormenores e reconto-o tal como o lembro desde a infância). A manifestação apoiava não só o Estado Novo, mas também a intervenção militar em Angola e terá tido momentos apoteóticos de histerismo patriótico.
Alguns militantes comunistas presentes, expontaneamente, começaram a circular por dentro da multidão, e a abordar os mais entusiásticos patriotas com uma folha manuscrita, uma pretensa lista de voluntários para combater em Angola! Julgo que foram detectados pela polícia (começava a haver uns «heróis» a abandonar a manifestação), e detidos. Este episódio, em tudo uma singular parábola moral, foi a minha primeira lição de política, e o principal responsável por me ter interessado prematuramente pela leitura de Karl Marx.

Não conheci o meu avô paterno, tuberculizou nos calabouços da PIDE – era comunista e ateu – e soltaram-no para vir morrer a casa. Tudo o que sei dele é pela memória de terceiros (o meu pai, os meus tios e tias; a minha avó nunca falava do marido); sei que era um homem alto, que tocava vários instrumentos e escrevia música, que teve uma banda de jazz, que uma vez deu uns chapadões num padre por lhe querer baptizar os filhos (o meu avô não baptizou os filhos), que era um homem culto (nos anos 50 um terço de uma biblioteca municipal, para onde a minha avó vendeu os seus livros, ainda era a biblioteca pessoal do meu avô), calado, valente. Sei que não tinha medo.

Vá, avô, beba mais um, começa a estar frio, e a si nem o Natal o aquece.



Previamente publicado no blogue Crónicas da Peste.

Segunda-feira, 27 de Dezembro de 2010

TARDE NO MAR


Harpers Bazzar, Gosta Peterson, December 1966


A tarde é de oiro rútilo: esbraseia.
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,

Pousa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue o seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia,
Desenha mãos sangrentas de assassino!

Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar...

E, sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes...


Florbela Espanca

Domingo, 26 de Dezembro de 2010

ARRANHA CÉUS


Skyscrapers of Shinjuku and Mount Fuji, Morio, 2009


Um casarão vive vasto na minha mãe
E a minha terra vai só, na ponta do Universo
Que ela vê no limiar de dentro:
Povoa-nos aquilo em que está.

A memória não é o que guardamos do que foi
Mas o que estremece na realidade imediata.

Meu Portugal é um comboio, que as suas
Montanhas olham para a janela,
E as pedras das matas, o chão dos pinheiros.

Para o ver, tento reconhecer ai
O que aparece nos instantes.

Depois, o inicio dos olhos é uma raiva
Que busca a visita da música irredutível
Minha presença no mundo.

Ai, que acabaram os saudosismos!,
Que torrente é esta de chuvadas,
De futuro que inunda e transcende o passado?
Que consigo traz a actualidade de tudo o que nunca foi?
Lembrar do avesso, não saber a harmonia, e só vibra-la.
Que futuro é este que nos cria o passado
Electricidade estática que empresta a montanha
O pinheiro e a pedra?

Chega de jornais, abriremos espaços brancos em que pensar.

A neve promete mais céu, o cântico escuro
Gente ao longe. Será que alguém nos mundos
Conseguiu escapar do meu Portugal,
Ou ser dos mundos?

Não há estrondo maior, do que o de alguém
A fechar os olhos, e a minha terra
Tem a idade da música, os seus homens
A idade do destino, aqui as eras
São consumidas pelos sonhos, até o nada canta
E vem até às portas pedir esmola.
Não vos minto! O Inverno é como uma mensagem
Que recebemos de noite, os escuros camponeses
Beiras de coisas, todos os povos da terra
Tropeiam com eles, uma multidão de séculos
Para sempre vindouros, somos novos
Da idade do sofrimento, gente que sonha a espera
Na noite do incêndio porque o fogo é o que
Da terra, mais está perto da não-terra.

Mensagem dos abismos, montanha vibra,
Massa branca, ansiedade dos apelos, alívio com a medida
Da eternidade. Um dia acreditareis mesmo
Que as nuvens só nascem por detrás das estrerlas
E sereis magos.

O silêncio das fragas morre ao longe
No coro, e a montanha avança para mim
Procurando escalar-me e abrir a mão ao céu
No meu topo.

De que vale fugir, meu povo, se o nada
Aprendeu a ter esperança? E a música irreal
Se lembra, com paz e plenitude, de nós?

O comboio pára em apeadeiros vários
Mas pelo silêncio sabemos que a estação
É a mesma, e fica exactamente a meio
Da noite.

O meu casarão é assim, esses silêncios abandonados.
A Lua branca bóia um lago escuro, electrizando
Com coágulos brancos de gelatina, a minha mãe,
Só, há séculos no casarão dos vinte anos órfãos,
Secreta imobilidade da pureza da neve:
Sabemos que não somos cães porque aqui os cães
Se enforcam entre as árvores e as coleiras,
E passam. Mas nós viremos do Futuro
Como se fossemos o Japão, mesmo que nada em nós
Lembre o Japão.


Horned Wolf

A PANTALHA DO MUNDO, Aniki Bóbó





Dois garotos, o Carlitos (Horácio Silva) e o Eduardinho (António Santos), gostam da mesma rapariga, a Teresinha (Fernanda Matos). Eduardinho é audacioso, brigão, atrevido; Carlitos é de caracter tímido, bom, sossegado. A rivalidade vai-se acentuando e, um dia, para agradar à sua apaixonada, Carlitos rouba uma boneca. Teresinha sente-se inclinada para ele até que um dia, numa brincadeira, Eduardinho escorrega por um talude e cai ao lado de um comboio que passa. Todos pensam que Carlitos o empurrou e todos afastam-se dele, enquanto Eduardinho sofre numa cama de hospital. Carlitos pensa em fugir num barco ancorado no cais de Massarelos, mas tudo se esclarece por intervenção do dono da "Loja das Tentações" que vira o acidente e que, no final, tira todas as suspeitas de cima do jovem Carlitos. E os garotos lá puderam de novo jogar aos polícias e ladrões, ao jogo do Aniki-Bóbó...





Este mês não venho somente falar de um filme. Venho sim, falar de um DVD que a Zon Lusomundo editou recentemente. O seu título é "Aniki Bóbó". Sim, pela primeira vez, a primeira longa metragem ficional de Manoel de Oliveira é editada em Portugal. Mal aceite pelo público aquando a sua estreia (18 de Dezembro de 1942), hoje em dia este filme é considerado uma obra-prima, tanto pelo público como pela crítica. Por isso mesmo, a Zon Lusomundo apresenta-nos uma versão totalmente restaurada e remasterizada em alta definição. Temos então o prazer de visualizar o filme, atrevo-me a dizer, como nunca antes foi visualizado.





Mas as surpresas deste DVD ainda não terminaram... Nos extras, para além de uma extensa galeria de fotografias, de uma conversa com Manoel de Oliveira, Horácio Silva (Carlitos) e Fernanda Matos (Teresinha), temos também a oportunidade de visualizar outra obra-prima do mais internacional realizador português; falo de "Douro Faina Fluvial". Este DVD inclui as três versões deste documentário realizado em 1931: a versão muda (a original e que se julgou perdida), a versão com música de Luiz Freitas Branco (de 1934) e a versão de 1994 (versão remontada por Manoel de Oliveira), com a música "Litanie du Feu et de la Mer" de Emmanuel Nunes. Por fim, mais um documentário: "Famalicão" realizado em 1940. Considerado pelo próprio Manoel de Oliveira como "um filme menor do ponto de vista cinematográfico", trata-se na realidade de um documentário bastante interessante sobre a cidade de Famalicão.
Com tudo isto, penso que este é um DVD obrigatório em qualquer videoteca que se preze.



Título: Aniki Bóbó
Realização: Manoel de Oliveira
Produção: António Lopes Ribeiro
Intérpretes: Horácio Silva, António Santos, Fernanda Matos, Nascimento Fernandes, Vital dos Santos, António Palma.
Ano: 1942
Edição em DVD: Zon Lusomundo

Vídeo e imagens: Zon Lusomundo


Sábado, 25 de Dezembro de 2010

NATAL


Hope, Emil Schildt, 2003


Velho Menino-Deus que me vens ver
Quando o ano passou e as dores passaram:
Sim, pedi-te o brinquedo, e queria-o ter,
Mas quando as minhas dores o desejaram...

Agora, outras quimeras me tentaram
Em reinos onde tu não tens poder...
Outras mãos mentirosas me acenaram
A chamar, a mostrar e a prometer...

Vem, apesar de tudo, se queres vir.
Vem com neve nos ombros, a sorrir
A quem nunca doiraste a solidão...

Mas o brinquedo... quebra-o no caminho.
O que eu chorei por ele! Era de arminho
E batia-lhe dentro um coração...


Miguel Torga

Sexta-feira, 24 de Dezembro de 2010

SOL INVICTUS


O Bar do Ossian deseja a todos os seus leitores e colaboradores, cristãos, pagãos, judeus, luciferinos, muçulmanos, budistas e ateus, um Feliz Natal. Que o Sol nos continue a guiar a todos nesta noite escura!


Abraço lusitano!
A Redacção


Disco de prata romano representando Sol Invictus, encontrado em Pessinus, Séc. III, British Museum

NATAL

Feliz Natal, Carlos Sousa, 2005



É Noite de Natal, e estou sozinho na casa de um amigo, que foi para a fazenda. Mais tarde talvez saia. Mas vou me deixando ficar sozinho, numa confortável melancolia, na casa quieta e cômoda. Dou alguns telefonemas, abraço à distância alguns amigos. Essas poucas vozes, de homem e de mulher, que respondem alegremente à minha, são quentes, e me fazem bem. “Feliz Natal, muitas felicidades”; dizemos essas coisas simples com afetuoso calor; dizemos e creio que sentimos, e como sentimos, merecemos. Feliz Natal!

Desembrulho a garrafa que um amigo teve a lembrança de me mandar ontem; vou lá dentro, abro a geladeira, preparo um uísque, e venho me sentar no jardinzinho, perto das folhagens úmidas. Sinto-me bem, oferecendo-me este copo, na casa silenciosa, nessa noite de rua quieta. Este jardinzinho tem o encanto sábio e agreste da dona da casa que o formou. É um pequeno espaço folhudo e florido de cores, que parece respirar; tem a vida misteriosa das moitas perdidas, um gosto de roça, uma alegria meio caipira de verdes, vermelhos e amarelos.

Penso, sem saudade nem mágoa, no ano que passou. Há nele uma sombra dolorosa; evoco-a neste momento, sozinho, com uma espécie de religiosa emoção. Há também, no fundo da paisagem escura e desarrumada desse ano, uma clara mancha de sol. Bebo silenciosamente a essas imagens da morte e da vida; dentro de mim elas são irmãs. Penso em outras pessoas. Sinto uma grande ternura pelas pessoas; sou um homem sozinho, numa noite quieta, junto de folhagens úmidas, bebendo gravemente em honra de muitas pessoas.

De repente um carro começa a buzinar com força, junto ao meu portão. Talvez seja algum amigo que venha me desejar Feliz Natal ou convidar para ir a algum lugar. Hesito ainda um instante; ninguém pode pensar que eu esteja em casa a esta hora. Mas a buzina é insistente. Levanto-me com certo alvoroço, olho a rua, e sorrio: é um caminhão de lixo. Está tão carregado, que nem se pode fechar; tão carregado como se trouxesse todo o lixo do ano que passou, todo o lixo da vida que se vai vivendo. Bonito presente de Natal!

O motorista buzina ainda algumas vezes, olhando uma janela do sobrado vizinho. Lembro-me de ter visto naquela janela uma jovem mulata de vermelho, sempre a cantarolar e espiar a rua. É certamente a ela quem procura o motorista retardatário; mas a janela permanece fechada e escura. Ele movimenta com violência seu grande carro negro e sujo; parte com ruído, estremecendo a rua.

Volto à minha paz, e ao meu uísque. Mas a frustração do lixeiro, e a minha também, quebraram o encanto solitário da noite de Natal. Fecho a casa e saio devagar, vou humildemente filar uma fatia de presunto de alegria na casa de uma família amiga.


Rubem Braga, Dezembro, 1951.

Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010

ÁLCOOL

O, Leszek Kobusinski, 2008


Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longamente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas de auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Descem-me a alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo –
Luto, estrebucho... Em vão! Silvo pra além...

Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de ouro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eternizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que eu ando delirante –
Manhã tão forte que me anoiteceu.


Mário de Sá-Carneiro

Quarta-feira, 22 de Dezembro de 2010

PORTUGUÊS E VAGAMUNDO, Aforismos para uma Hermenêutica da Paisagem




“Yo soy todas esas creaturas en su totalidad, y fuera de mi no hay nada.”
Upanishad, Upnekhat, I, 122


Vemos a cidade de destino à luz da cidade de origem. Na verdade, enquanto nos detemos a observar o destino, estamos a ser olhados nos olhos pela origem.

A origem primordial, remota – numa palavra, ponto de partida – é pai de toda e qualquer paisagem. O resto fica por conta e risco da preguiça.

Não existe outro contexto para ter em conta as coisas senão em comparação. O mesmo vale para D*us e para a Criação.

Sentir amor à primeira vista por um país significa deslumbre. O deslumbre é o despudor da beleza.

Viver em tendas não significa viver entre baratas e micróbios. A lei de Moisés apenas lembra que não existe melhor material para construir casas do que pedras polidas.


Vitor Vicente

O SILÊNCIO DAS PALAVRAS, O Retrato da(s) Mónica(s)




Num silêncio mais prolongado do que o habitual, falhando assim um compromisso assumido em termos de datas, chega-se este tempo festivo para enfim cumprir, antes da tolerância de ponto neste país de aposentados – de uma ou outra forma – este espaço intermédio de sedução de entardecer que mal vai sobejar para a escrita. Na noite maior do ano, houve tempo para encontrar Sophia, abrir os Contos Exemplares e encontrar Mónica.

«Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da «Liga Internacional das Mulheres Inúteis», ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.

Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.»

Este conto é necessariamente exemplar e Mónica também. Isto porque as Mónicas acabaram, só existem as freiras, eu acho. Mas o conto continua exemplar porque entretanto se recuperaram nomes antigos e nobres, Sancha, Constança, Joana, Francisca, Margarida.

A Constança, por exemplo, é chiquíssima, usa sapatos Louboutin, vestidos Prada e carteiras Louis Vuitton, óculos talvez Ray Ban (não estou bem certa da marca) e presta os seus serviços de secretária de primeira classe algures num ministério. Não tem nada de inútil, trabalha muitíssimo, sem horário, entra pela noite adentro para que tudo esteja devidamente organizado sobre a mesa do chefe, quando ele chega na manhã seguinte. É imprescindível o seu apoio, incontornável a sua dedicação ao bem do país. Em casa, organizada e compreensiva, não haver crianças foi decisão mútua do casal. Poliglota, conhece também as línguas clássicas, é culta em música e adora dançar tango, frequenta as milongas mais sofisticadas de Buenos Aires, tem amigos como ninguém, com os quais janta no Gambrinus, no Tavares ou n’Os Arcos, a discutir arte ou a última Ópera em S. Carlos. Ou a fabulosa representação do Fantasma da Ópera, na Broadway. Ou o esplendor de Petra. É única. Sem ela o eixo da Terra vacilava.

A Francisca mora numa travessa de Alfama, é dona de uma tasca onde se come divinamente e toda a gente a conhece por D. Chica. A Francisca tem um grande orgulho no seu nome que ninguém sabe, antes do tempo de Natal que lhe traz sempre as saudades da infância na santa terrinha lá para os lados de Manteigas, onde a serra se cobre de branco por longos meses e o frio penetra por entre as pedras que formam a parede musgosa da casa antiga dos avós que nunca conheceu. Confraterniza com os amigos e clientes, depois da hora do fecho, prolonga a ceia com petiscos bem portugueses, aquelas filhós de abóbora embrulhadas em canela, as castanhas assadas e o vinho tinto que se derrama pela goela e traz as palavras à boca, a história daquela graça que lhe puseram e ela guarda só para os grandes momentos, com as lágrimas nos olhos. Já casou uma filha que vende no mercado de Santa Clara e levou ainda a baptizar na Igreja de S. Vicente de Fora, ao tempo em que a Feira da Ladra era só às terças-feiras. Mas foi passar o Natal na casa dos sogros, afinal a D. Chica tem os netos com ela todos os dias, é justo que visitem a outra avó, na Charneca do Lumiar. Continua a ser uma mulher de garra, a D. Chica: segura o desemprego dos homens da casa, do filho e do genro, dá de comer a todos, filhos e netos, afinal o restaurante dá para tudo. Ela continua a desabafar com os carapaus pequeninos que amanha e frita em cada manhã, com os ovos que tem de cozer para os fregueses para quem a tasca da Chica é também a sua casa. Os que choram com ela na noite que deveria ser de Consoada em família. Solidária, simples, resignada, D. Chica mantém junto de si esta Família que é a sua, não por laços de sangue, mas de solidão partilhada. Sem ela o Mundo desabava.

AUTO-ESTRADA

Para a Babalith


Vintage Woman (Steampunk Version), Itkupilli, 2009

Na praia do Rosário descobríamos
Que o mais forte de nós era não a urgência
De desatarmos as cordas que prendiam
Os barcos ao cais
Para aparecermos nos jornais
Mas o esquecimento das pedras e dos fósseis
Que urbaniza o nosso fundo
Devastado de Inverno.

Acendíamos, pelo entulho, um fogo,
Com o prodígio angustioso da nossa
Condição, dizíamos “eu”, para nos ligarmos
A uma iluminação de estar vivo,
De ser-ser, eternos porque de nós mesmos:
De nós mesmos porém para o silêncio
Sem fim.

A seguir, deslocavas a tua cilindrada
Ás ruínas, que sabias que eu amava,
E amavas saber-lhes os sítios
Que tudo o que não era de ninguém
Fosse teu, e sentir disso a aura
Dos ventos, das noites, do hoje.

Falavas e enganavas-te
Com graça tamanha que eu estivesse convencido
Que estavas certa, acima da gramática, ou da razão,
Porque a graça que te habitava, estas coisas
Vinha também habitar e sedutoramente mentir.

Olhavas-me muito fundo e procuravas em mim
Um lugar que não existisses, forçando esse lugar
A reconhecer que existisses. “André,
Nada te limita, mas tudo o que aos outros limitará
A ti mesmo te apresentará, como uma mancha que alastra
Como esta noite de vento e estrelas”.

E eu devolvo-te por isso a minha compreensão
Dos crisântemos de cores caídas para os olhos
Do Outono solar e triste, as linhas férreas, saber que
Tudo isso é hoje as casas brancas se sobreporem
Apinhando-se umas às outras, com medo tanto
Do deserto, que se tornam nisso mesmo que temem:
Um deserto. Cobrir tão totalmente a planície
Que a perdendo de vista, se totalmente esquecessem
Na planície.

Oh, eu, que te conheço a estranheza, como quem diz
Te conhecer a história, sei que gostavas de causar à família
Uma aflição da qual fosses indiferente, que impuseste sempre
A tua estranheza de viver, para que nada da vida possa
Ser estranho à vida, e te tentaste um par de vezes
Suicídio, mas eles não sabiam, que a tua filosofia fora sempre
Maior que a minha, mais axiomática e antiga,
Breve e evidente: raiavas sobre o mundo e destruías-lhe
Todos os máximos, todos os mínimos, e ele tornava-se
Finalmente mundo: iluminação, desamparo de Outono,
Um baile de campos, do destino para o deserto
Da estrada, o absoluto da destruição acima da pequena
E insegura compensação, sonho, acto, gesto, espectro
De uma azinheira, chuvas, terras escuras,
Porque a minha poesia procura evadir-se, e a tua despir-se.

Aqui, os espectros de um e de outro homem, ou da azinheira
Escorrem pelos fios de Sol que a estrada sobe pelo céu
Azul e vasto onde o Verão não cessa, mas a gelar
Tu desces, e tudo se faz festa.


Horned Wolf

Terça-feira, 21 de Dezembro de 2010

ARRE, QUE TANTO É MUITO POUCO!


Rudolf's Sister, David McCracken, 2010


Arre, que tanto é muito pouco!
Arre, que tanta besta é muito pouca gente!
Arre, que o Portugal que se vê é só isto!
Deixem ver o Portugal que não deixam ver!
Deixem que se veja, que esse é que é Portugal!
Ponto.

Agora começa o Manifesto:
Arre!
Arre!
Oiçam bem:
ARRRRRE!


Álvaro de Campos

Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2010

INCONSTÂNCIA


Hommage to Klimpt, Emil Schildt, 2003


Adentro em tardes selvagens
Que me levam ao ponto
Onde vejo sempre o mesmo...

Vagando por entre sonhos
Que não me deixam acordar
Diante de olhos que nunca irão me acolher

Seus sons são como musas cantantes
Aos meus ouvidos cansados

As vozes carregam lembranças
Das quais não quero lembrar

Esqueço-te por segundos intermináveis
De sensações que me rompem ao abismo
Entrego-te os beijos, passado e solidão

E meus lábios secam pela ausência
De tuas formas suaves,
Não as sinto mais, nem mesmo em segredo...

A TALHA DA CAL


A Talha da Cal, Chanel, 2010



Pelas nove da manhã, Évora é uma noite de viagem
Uma estação com peso, crânio e membros.
Os seus olhos ensopados de sangue e de água ardente
Lastimosos, dão passos curtos, como um Sol Intímo
Dourando o ar. O orvalho fresco da manhã
Quer que a planície seja um vento. Mal a olha,
O cansaço submerge-o em ideias de pesadelo.
As praças continuam longe, a cidade, branca,
Os seus olhos de luto. A cidade toda é uma alucinação
Das árvores da avenida, ou talvez da luz no empedrado
Das ruas, ou do sangue em que se cruzam as fachadas
Dos prédios. Os templos são velhos e as manchas negras
O alto. As Torres da Sé disparam o céu em lapsos.

A tarde é calma, com o Outono moribundo
Sobre a massa da montanha, erguida em frente
De uma casa ao Sol. Há pátios, reflexos
De brancura, globos albinos, candeeiros pálidos
A nudez da memória, uma noite grande,
De paz. Um abraço de ternura, que se perdeu,
Entrou no seu quarto solitário, abriu na noite
A janela, a massa da montanha ainda banhava
A grande e solene aldeia suspendida sobre a Lua.


Horned Wolf

Domingo, 19 de Dezembro de 2010

A EMERGÊNCIA DEMASIADO FÁCIL DAS PERSONAGENS SECUNDÁRIAS...


Dahlia..., Emil Schildt, 2002


A emergência demasiado fácil das personalidades secundárias; a excessiva estimulação da revelação, por cada indivíduo, da sua individualidade específica, que, salvo quando é grande, nada interessa a ninguém que se revele; a adopção de um código de sociabilidade pelo qual o que vale em cada indivíduo é o que tem de diferente dos outros, e não o que tem de comum com eles — fenómenos são estes que caracterizam bem a doença extrema da época.
Certas coisas, que contribuíram para este agravamento do já mórbido estado psíquico criado pelo cristianismo, antes se intensificarão no futuro, que esboçarão, sequer, um aparecimento. A enorme concorrência comercial, a complicação de internacionalismos, a crescente necessitação de corpos de operários especialistas, que desenvolvem um orgulho rigidamente incompatível com a sua posição nas sociedades, e que, por serem operários, vão suscitar esse orgulho doentio em outros, de mais baixos misteres — tudo isto contribui para que se mantenha, íntegra e indesfeita, a decadência, já normal, da época. Conseguimos esse desiderato de alienado — a normalização da anormalidade. Obtivemos, com isso, a vantagem de tornar a vida mais agitadamente interessante a um bom número de pessoas que em uma sociedade bem ordenada, não existiriam, propriamente falando, individualmente. Mas essa vantagem individual, e por isso transitória, pagamo-la com a fixação, paralela, da incapacidade de criar, com a normalização, conexa, da impotência de grandes ideias, a inapetência para grandes fins.
Nós realizamos, modernamente, o sentido preciso daquela frase de Voltaire, onde diz que, se os mundos são habitados, a terra é o manicómio do Universo Somos, com efeito, um manicómio, quer sejam ou não habitados os outros planetas. Vivemos uma vida que já perdeu de todo a noção da normalidade, e onde a rigidez vive por uma concessão da doença.
Vivemos em doença crónica, em anemia febricitante O nosso destino é o de não morrer por nos termos adaptado ao estado de (perpétuos) moribundos.
Que pode ter com uma época destas um espírito da raça dos construtores, uma alma filha das grandes verdades do paganismo? Nada, salvo a repulsa espontânea, o desprezo reflectido. Somos, assim, nós que somos os únicos a discordar da decadência, compelidos a tomar uma atitude que é, de sua natureza, decadente também. Uma atitude de indiferença é uma atitude decadente, e nós somos obrigados a uma atitude de indiferença pela incapacidade de nos adaptarmos a um meio como este.
Não nos adaptamos, porque os sãos se não adaptam a meio mórbido. Não nos adaptando, somos mórbidos. Neste paradoxo, nós, os pagãos, vivemos. Não temos outra esperança, nem outro remédio.
Aceito como tal esta atitude nossa, mas não aceito o modo como a aceita Ricardo Reis. Quero que sejamos indiferentes para com uma época que nada pode querer de nós, e sobre a qual em nada podemos agir. Mas não quero que se cante essa indiferença como coisa boa de per si. É isso que faz Ricardo Reis. Por esse ponto, longe de tornar-se indiferente às correntes da época, integra-se em uma delas, que é a decadente. Essa indiferença, é já uma adaptação ao meio. É já uma concessão.


Fernando Pessoa, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho, Ed. Ática, Lisboa, 1996, p. 299.

Sábado, 18 de Dezembro de 2010

DIVAS JUDIAS, Anónima, O sofá de Simone



Hey, That's No Way To Say Goodbye, Leonard Cohen, Londres, 2009

No princípio, era o sofá de Simone.
Depois – de resto, bem depressa – transformas-te o meu quarto num quarto alado, como se querem todos os quartos de hotel de todos os pontos do mundo.
Se bem que nós nunca precisámos de tapetes persas, nem de nada que se pareça – pois temos o condão de converter pensões em Pérsias ou noutros principados que se perderam no tempo.
Porque a nossa história é tão antiga quanto a areia. A nossa história está escrita nas estrelas. A nossa história está escrita nas escrituras. Praga, Jerusalém e o teu corpo são escalas da estrada para chegar à eternidade.


Vitor Vicente

Sexta-feira, 17 de Dezembro de 2010

PREFÁCIO A QUINTO IMPÉRIO




A esperança do Quinto Império, tal qual em Portugal a sonhamos e concebemos, não se ajusta, por natureza, ao que a tradição figura como o sentido da interpretação dada por Daniel ao sonho de Nebucadnezar.
Nessa figuração tradicional, é este o seguimento dos impérios: o Primeiro é o da Babilónia, o Segundo o Medo-Persa, o Terceiro o da Grécia e o Quarto o de Roma, ficando o Quinto, como sempre, duvidoso. Nesse esquema, porém, que é de impérios materiais, o último é plausivelmente entendido como sendo o Império de Inglaterra. Desse modo se interpreta naquele país; e creio que nesse nível, se interpreta bem.
Não é assim no esquema português. Este, sendo espiritual, em vez de partir, como naquela tradição, do Império material de Babilónia, parte, antes, com a civilização em que vivemos, do império espiritual da Grécia, origem do que espiritualmente somos. E, sendo esse o Primeiro Império, o Segundo é o de Roma, o Terceiro o da Cristandade, e o Quarto o da Europa — isto é, da Europa laica de depois da Renascença. Aqui o Quinto Império terá que ser outro que o inglês, porque terá que ser de outra ordem. Nós o atribuímos a Portugal, para quem o esperamos.

_______________________*

A chave está dada, clara e obscuramente, na primeira quadra do Terceiro Corpo das Profecias do Bandarra, entendendo-se que Bandarra é um nome colectivo, pelo qual se designa, não só o vidente de Trancoso, mas todos quantos viram, por seu exemplo, à mesma Luz. Este Terceiro Corpo não é, nem poderia ser do Bandarra de Trancoso. Dizemos, contudo, que é do Bandarra.
A quadra é assim:

Em vós que haveis de ser Quinto
Depois de morto o Segundo,
Minhas profecias fundo
Nestas letras que VOS Pinto.

A palavra VOS, no quarto verso, tem a variante AQUI em alguns textos. Mas, de qualquer dos modos, a interpretação vem a ser igual.
Considerando, pelo lema da Tripeça, que todas as profecias têm três tempos distintos, esta será interpretada em relação a três tempos de Portugal, segundo as “letras” são “pintadas”. Se as letras são as da palavra VOS, indicam, como se mandou que se soubesse, Vis, Otium, Scientia. E se as letras são as da palavra AQUI, indicam, segundo a mesma ordem, Arma, Quies, Intellectus, que logo se vê serem termos sinónimos dos outros.
Temos pois que a Nação Portuguesa percorre, em seu caminho imperial, três tempos — o primeiro caracterizado pela Forca (Vis) ou as Armas (Arma), o segundo pelo Ócio (Otium) ou o Sossego (Quies), e o terceiro pela Ciência (Scientia) ou a Inteligência (Intellectus). E os tempos e os modos estão indicados nos primeiros dois versos da quadra:

Em vós que haveis de ser Quinto
Depois de morto o Segundo...

No primeiro tempo — a Força ou Armas — trata-se de el-rei D. Manuel o Primeiro, que é o quinto rei da dinastia de Avis, e sucede a D. João o Segundo, depois deste morto. Foi então o auge do nosso período de Força ou Armas, isto é, de poder temporal.
No segundo tempo — Ócio ou Sossego — trata-se de el-rei D. João o Quinto, que sucede a D. Pedro o Segundo, depois de este morto. Foi então o auge do nosso período de esterilidade rica, do nosso repouso do poder — o ócio ou sossego da profecia.
No terceiro tempo — Ciência ou Inteligência — trata-se do Quinto Império, que sucederá ao Segundo, que é o de Roma, depois de este morto.
Quanto ao que quer dizer esta Roma, a cujo fim ou morte se seguirá o Império Português, ou Quinto Império, ou o que seja a Ciência ou Inteligência que definirá a este — não direi se o sei ou o não sei, se o presumo ou o não presumo. Saber seria de mais; presumir seria de menos. Quem puder compreender que compreenda.

As profecias são de duas ordens — as que, como a de Daniel e esta do falso Bandarra, têm em si uma grande luz; e as que, como as do vero Bandarra e as do livro presente, têm em si uma grande treva. Aquelas são o fio do labirinto, estas o mesmo labirinto. Umas e outras, porém, entre si se complementam. Por umas as outras se esclarecem, tanto quanto pode ser, porque a luz afasta as trevas, mas sem as trevas se não veria a luz. Tão certo é o que se diz em certo passo secreto — que a melhor luz que temos neste mundo não é mais que treva visível...


Fernando Pessoa

REFLEXÕES, O Voto de Lázaro




Os portugueses não padecem de esquizofrenia, nem política nem outra, são apenas um povo demasiado velho, sempre sem dinheiro e que tem que contentar-se com a televisão que lhe dão, a cada refeição, como a gado numa manjedoura. A democracia continua frágil, qualquer fenómeno telúrico, milagre celestial ou ressurreição súbita pode vir a derrotá-la. No fundo, trata-se de um distúrbio alimentar histórico, com sintomas conhecidos…


Marcantonio Bragadin

Quinta-feira, 16 de Dezembro de 2010

LENDAS E FOLCLORE LUSITANOS, A Senhora das Neves



Serra D'Arga, Francisco Sampaio, 2009


A água daquela serra
Por copos de vidro desce;
Nem a água mata a sede
Nem o meu amor me esquece.

Abaixo da Serra d'Arga
Onde fica minha aldeia,
Na linda terra de Dem
Onde o meu amor passeia.

Abaixa-te Alto do Tapado,
Que eu quero ver Castanheira,
Quero ver o meu amor
Lá nos campos da Lapeira.

Artur R. Coutinho


Previamente a haver conhecido as elevações graníticas da Serra D’Arga, quando ainda não sabia como as coisas que se sabem sem olhar o perfume do solo magmático, existia um sobreiro já então velho, que se encostava à gravidade de modo a abrir suavemente e com a observação paciente do tempo, um alargamento vazio no interior, uma, pois, toca de homem. Os cabelos do sobreiro são do meu hóspede, eu a carraça que aguarda a lonjura das estações desabar e permitir Deus todo: destruir, pelo corpo, os pecados do mundo. Para isso, uma prática não pouco simples, e que teci nas reflexões ainda civilizadas da minha juventude carecida de vibrante alegria. Assaltava-me uma imensa beleza, fazia-me escorrer água para todas as coisas, em que as bebia e não mais delas me distinguia. Depois, essa saudade melancólica e soturna das horas entre as horas, quero dizer, o desassossego das coisas serem tanto que não se bastam, a minha vontade estava doente, a sua doença era, o carnívoro e terrível anfíbio da consciência. O antídoto, a repetição. O método, a moral, em que na repetição do costume o devora para si mesma a natureza. A minha teologia cristã não era mais, assim considerando, que uma jornada redentora ao estado pagão. A segunda tecelagem das minhas contemplações viria mostrar-me-mundo do que padece a sede e que fungo rói a vontade: essa lubricidade de haver noites e dias e dormir-se e sonhar, e acordar e sonhar, repartindo a já efémera consciência num alastrante cancro de difícil contorno. Fiquei assim: De noite, Deus é Luz e pensar-se dia, como no coração selvagem da treva, o Anjo é a civilização. Mas a noite é eterna e cobre a luz e o dia, da mesma forma cobre a alma do homem toda a civilização. Uma terceira consideração foi pragmática para, recolhido na serra, luminescer: o pensamento (o pensamento, não, mero, o eco), reduzia-se a aparecer emergido do silêncio, então era a linguagem mais rica e repleta de significâncias a que mais abstracta se posasse. Disto, procurei de minha disciplina escutar o que me dizia a serra e o que da serra se via, e ainda falá-lo. O emprego era a sede, beber pouco, comer pouco, mantendo essa necessidade acesa, essa fraqueza que obriga a força a movimentar-se, carne e osso. E pelos delírios daqui fumegados lia o livro da natureza (virgem cujo ventre só se pode penetrar dele saindo, e nunca entrando) e, nos espaços vazios, escrevia o que só ela entenderia e os homens outros só sofreriam.

Eis o dia em que isto se não veio a propagar e, como os sonos regulares do homem, repartiu, tal eventualidade, o raio do saber, o Éden viu que estava nu. Era Verão intenso de Agosto, a garganta podia ser encontrada, com a desidratação, espinhosa, aguda. O monge decidiu-se à fonte. A água, que aplacasse todas as iras, no momento da saciedade pujante o tempo é que acaba, e quando nada é tempo tudo é Deus e os lugares as coisas do seu corpo, o paraíso, não se ter perdido para dentro das consciências sem fim. Alongou-se, dilatando-se, até onde se viam as povoações portuguesas ou espanholas, e voltou a comprimir-se de encontro ao cascalho do cansado sobreiro. O brilho que cobria a translucidez das coisas não dizia sobre as coisas. Estas, engoliam a cintilância e estarreciam no ser. Nada, cego, cegado por dois punhos no escuro. Não era capaz de ler na natureza os filamentos da consciência de se existir com ela. Tornara-se a terra plutónica em Deus. Nela não mais, para penúria do monge, a Virgem, d’Ele Mãe. Estrondosa e ribombante mudez, luz sem cor, arrependido ante a visão do corpo divino atirou os olhos à fonte de onde bebera quebrando a penitência. Derramou o olhar, não fosse matá-lo. Agora, calor maldito, dos rios de neve que lhe caiam dos veios vazios das covas esvaziadas onde antes pousara teimosamente e incauta a vista, vislumbrava pela primeira vez o velho sobreiro, isto é, a Mãe de Deus, finalmente solta da Terra. Mulher comprida e fendida como se parisse o vácuo constantemente, manchada de carmesim duro e transparente. A pele lisa contorcia-se contra si mesma, em laivos de nevão, e os cabelos eram como cristais felizes e eléctricos. A expressão branca era negra como um fosso sem fundo, os olhos aquilo que nunca alguém lembrara e que tudo lembra, com anjos afogados para sempre, imortais como a queda do universo para cima. Ah, agora, estaria sempre fresco. A garganta do monge era um rio e o seu estômago um oásis.


Horned Wolf

Quarta-feira, 15 de Dezembro de 2010

GENDERS HAVE DIED

Only One Gender Left


Final Mother, Babalith, 2010


Cocoon, Babalith, 2010


Call of Nature, Babalith, 2010


Politicians and Priests Have Been Mastered


Blue Woman and the Third Eye, Babalith, 2010


A Sacerdotisa, Babalith, 2010

Terça-feira, 14 de Dezembro de 2010

TO MEGA THERION


Via Nocturna, Therion, ao vivo na Roménia, 2006

Draconian Trilogy; Morning Star, Therion, do dvd The Miskolc Experience, 2009

BLOOD BABALITH FOR YOUR SMILE


Blood, Babalith, 2010


Babalith, Babalith, 2010


Aqua Celestina, Babalith, 2010


Adam and Eve, Babalith, 2010


A Bullet for your Smile, Babalith, 2010

DAS MÁTRIAS FUTURAS


Follow the Map, Mono, 2009

Gostava que cantasses, mãe
Debaixo da rocha, e na falta que nos faz
Os que partiram estarem.

Gostava que cantasses, mãe
No cruel abandono dos bosques
Onde pernoita o horror
E soltasses de ti
Uma ‘sperança, um fulgor,
Uma luz contínua e escorrida
Que acreditasse o amor.

Gostava que cantasses, mãe
Nas lágrimas, dos macacos-narigudos
Morcegos-raposa e folhas de palmeira,
No rio, que chilreia,
Na cidade com dor-de-peito,
E no solitário que dorme
Sem leito.

Gostava que cantasses, mãe
As palavras de consolo,
De toda a fatalidade, inexorável
Ou me soltasses do mundo
Como o que sou, um projecto
Irrealizável, e que passou.

Gostava que cantasses, mãe
Existir eu, e em mim nem tu
Nem ninguém.


André Consciência

Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2010

NIYAZ – The Hunt (2007)

A NOITE E O RISO, Uma Sessão Dupla



para o Ruela


Theme for thought, Virgin Prunes, 1982


Rhetoric, Virgin Prunes, 1982

Domingo, 12 de Dezembro de 2010

BILLIE HOLIDAY – My Man (1948)

ELEGIAS ROMANAS


Aurélia, the Winner, Jan Saudek, 2003


XVI

Zwei gefährliche Schlangen, vom Chore der Dichter
[gescholten,
Grausend nennt sie die Welt Jahre die Tausende schon,
Python dich und dich Lernäischer Drache! Doch seid ihr
Durch die rüstige Hand tätiger Götter gefällt.
Ihr zerstöret nicht mehr mit feurigem Atem und Geifer
Herde, Wiesen und Wald goldene Saaten nicht mehr.
Doch Welch ein feindlicher Gott hat uns im Zorne die neue
Ungeheure Geburt giftigen Schlammes gesandt?
Überall schleicht er sich ein, und in den lieblichsten Gärtche
Lauert tückisch der Wurm, packt den Genießenden an.
Sei mir hesperischer Drache gegrüßt, du zeigtest dich mutig,
Du verteidigtest kühn goldener Äpfel Besitz!
Aber dieser verteidiget nichts – und wo er sich findet
Sind die Gärten, die Frucht keener Verteidigung wert.
Heimlich krümmet er sic him Busche, besudelt die Quellen,
Geifert, wandelt in Gift Amors belebenden Tau.
Oh wie gl+ucklich warst du Lucrez! Du konntest der Liebe
Ganz entsagen und dich jeglichem Körper vertraun.
Selig warst du Properz! Dir holte der Sklave die Dirnen
Vom Aventinus herab, aus dem Tarpeischen Hain.
Und wenn Cynthia dich aus jenen Umarmungen schreckte
ntreu fand sie dich zwar; aber sie fand dich gesund.
Jetzt wer hütet sich nicht langweilige Treue zu brechen!
Wen die Liebe nicht halt, h+alt die Besorglichkeit auf.
Und auch da, wer weiß! Gewagt ist jegliche Freude
Nirgend legt man das Haupt ruhig dem Weib in den Schoß.
aSicher ist nicht das Ehbett mehr, nicht sicher der Ehbruch;
Gatte, Gattin und Freund eins ist im andern verletzt.
O! der goldenen Zeit! da Júpiter noch, vom Olympus,
Sich zur Semele bald, bald zu Callisto begab.
Ihm lag selber daran die Schwelle des heiligen Tempels
Rein zu finden den er liebend und mächtig betrat.
O! wie hätte Juno getobt, wenn im Streite der Liebe
Gegen sie der Gemahl giftige Waffen gekehrt.
Doch wir sind nicht so ganz wir alte Heiden verlassen,
Immer schwebet ein Gott über der Erde noch hin,
Eilig und geschäftig, ihr kennt ihn alle verehrt ihn!
Ihn den Boten des Zeus, Hermes den heilenden Gott.
Fielen des Vaters Tempel zu Grund, bezeichnen die Säulen
Paarweis kaum noch den Platz alter verehrender Pracht,
Wird des Sohnes Tempel doch stehn und ewige Zeiten
Wechselt der Bittende stets dort mit dem Dankenden ab.
Eins nur fleh ich im stillen, an euch ihr Grazien wend ich
Dieses heiße Gebet tief aus dem Busen herauf.
Schützet immer mein kleines, mein artiges Gärtchen,
[entfernet
Jegliches Übel von mir, reichet mir Amor die Hand,
Oh so gebet mir stets, sobald ich dem Schelmen vertraue,
Ohne Sorgen und Furcht ohne Gefahr den Genuß.


XVI

Duas perigosas serpentes, censuradas pelo coro dos poetas,
Medonhas, chama-lhes o mundo há milhares de anos –
A ti, Piton, e a ti, Dragão de Lerna. Fostes porém
Abatidas pela rigorosa mão dos deuses determinados.
Já não destruís rebanhos, campos, florestas
E searas doiradas com escuma e sopro ardente.
Então que deus hostil nos enviou na sua ira
O novo fruto do venenoso lodo?
Por toda a parte se insinua, e no mais ameno jardim
Nos aguarda o verme pérfido e apanha o despreocupado.
Saúdo-te, Dragão da Hespéria, corajoso te mostraste,
Com audácia defendeste a posse das maçãs doiradas!
Este dragão porém nada defende – e onde ele estiver,
Jardins e frutos não merecem defesa.
Em segredo se agacha no arbusto, suja as fontes,
Escuma e envenena o refrescante orvalho do Amor.
Oh, como eras feliz, Lucrécio! Podias rejeitar por inteiro
[o amor
E confiares-te a qualquer corpo.
Desditoso eras tu, Propécio! A ti levava o escravo a meretriz,
Vinda do Aventino, do bosque da Tarpeia.
E quando Cíntia te surpreendia nos teus abraços,

Infiel te encontrava, sim, mas encontrava-te são.
Agora quem não evita quebrar a maçadora fidelidade!
Aquele que não tem o amor, detém a preocupação.
E também aí, quem sabe! Ousado é qualquer prazer,
Nunca repousamos tranquilamente a cabeça no seio
[de uma mulher.
Segura já não é a cama do casal, não é seguro o adultério;
Esposo, esposa e o amante cada um pelo outro prejudicado.
Oh, os tempos áureos, quando do Olimpo Júpiter ainda
Visitava ora Sémele, ora Calisto.
Mas queria encontrar puro o limiar do sagrado templo
Onde entrava, amante e poderoso.
Oh, como Juno se enfurecia, se na disputa do amor
O esposo tivesse dirigido contra ela venenosas armas.
Porém nós, velhos pagãos, não fomos completamente
Abandonados: ainda um deus paira sobre a terra,
Apressado e solícito – todos o conheceis, todos o venerais
A ele, o mensageiro de Zeus, Hermes, o deus curador.
Se o templo do pai se arruinou, e os pilares, dois a dois,
Mal indicam o antigo lugar de esplendor e veneração,
Permanecerá o templo do filho, e eternamente
Acolherá tanto o pedinte como o agradecido.
Imploro apenas isto em silêncio – a vós, Graças, dirijo
Esta ardente prece do fundo do meu peito:
Protegei sempre o meu pequeno e gracioso jardim, afastai
De mim qualquer mal, e quando o Amor me estender a mão
E eu confiar no velhaco, oh dai-me então
Sem preocupação nem receio e sem perigo o prazer.


Goethe, Erotica Romana, tradução de Manuel Malzbender, 1ª edição Setembro de 2005

Sábado, 11 de Dezembro de 2010

DOCAS, GAIA


Olhares para Gaia, Alfredo Vilela, 2008


Docas. Barcos podres
Atados uns aos outros.

Barricas flutuando.
Náusea. Nevoeiro.

Gritos longínquos.
Nem sei se gritos.

Uns mastros rangendo.


Lord of Erewhon

Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010

ONDE ESTOU


Sem Título, José Sérgio Holanda, 2010


Gosto de respirar, deitado na minha cama, enquanto todos dormem. Só com os momentos que ultrapassaram a morte e fazem parte do silêncio. Imagino que brinco nas névoas da serra, e que me empoleiro nas árvores despidas. Que morri, e que ninguém o testemunhou. Existe só o lago quente no gelo, o vento mudo, e a vida toda que eu já vivi, mas sem continuação, porque sem fim. Pelas janelas embaciadas das casas de pedra, fico a sonhar vultos que se encontram para celebrar o amor que tenho em mim e que não morre. Que chegara finalmente o dia, em que deixavam de haver dias. O meu peito jorra todo em neve que derrete e levanto-me para escrever na certeza segura de que ninguém me alcança através destes vidros.


Horned Wolf

Quinta-feira, 9 de Dezembro de 2010

PORTUGUÊS E VAGAMUNDO, Animais de Arquipélago




«A paisagem é um ponto de vista.»
Herberto Helder in Photomaton & Vox


Era de noite e estava em Estocolmo. Em vias de estar embriagado. A cerveja caseira era soberba. Mais uma e já me via a beber do Báltico como de uma poção. Bastava que assim me pedisse uma das muitas sereias de perna longa.
Mas eu nem me sentia tentado a partir, nem recebia apelos para procurar melhores sortes. Contentava-me em ver o vai e vem de comboios que sobrevoavam, rentes como helicópteros, os canais e, ao fim de contas, a própria cidade.
Estocolmo era então afim a Antuérpia. Ainda que eu, na época, nunca tivesse estado na Bélgica e o pouco que tinha viajado pela Europa era o pouco que tinha percorrido de Paris.
Estocolmo era afim, sim, à Flandres fabril (ou febril?) de Herberto Helder.
Na altura, não entendia que me apenas era permitido conhecer epidermicamente as cidades. Que não há outro habitat para os animais de arquipélago senão as infindáveis areias da errância.
Hoje, sei que a minha melancolia é milenar e épica. Povoada, profetizada. E que o sopro da vida é o búzio do deserto.


Vitor Vicente

THE STRANGER IN ME IS THE ONE WHO RECOGNIZES



The stranger in me is the one who recognizes, Ayin Babalith, 2010

Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2010

A PESTE VESTE ARMANI


A Praga, Arnold Böcklin, 1898


Não têm fim, o ar calcinado, os detritos, a escória, as avenidas sempre iluminadas, da peste e da fome. Os edifícios, demasiado altos para o olhar, pétreos, metálicos, monstruosos, ciclopes cegos que vigiam a nossa morte anunciada, demasiado sem vida, demasiado sem morte, cruzes e lápides megalómanas que tanto ignoram os passantes como os glorificam, na sua vileza, na sua podridão, no seu desespero, canino e ululante, esparso na noite, qual sirene apocalíptica. Não tem fim a longa fila, sinuosa, serpenteante, dos que pedem sem saber o que pedem, mas sabem que lhes nasceu uma mancha negra no corpo, ou verde, ou cor de cenoura de hipermercado, esta longa fila de leprosos tecnológicos, com sexos radioactivos, com cérebros devorados pelo cancro.
Em breve abrirão os portões e a multidão acéfala encontrará a felicidade perdida momentaneamente achada, sob a forma de avançados compostos electrónicos, o desejo cibernético ao alcance de um cartão de crédito, a inteira posse de um corpo imaginário, ou real, convertido a uma série de algarismos, de procedimentos, de protocolos capitalistas da posse. Vende-se. Agora com desconto. Agora com ofertas. Agora com direito a uma viagem. A um lugar paradisíaco onde se pode ter sexo com uma criança pelo preço de um hambúrguer. Onde a droga não é crime. Onde o crime também é possível, por um simples câmbio super-sigiloso, veloz, eficaz. Aqui, vende-se… e compra-se. Compra-se a alma dos teus antepassados por um diamante. Os segredos de pichiché da bisavó do vizinho por uma pepita de ouro e troca-se, uns seios mais jovens, uns dedos mais esguios, filmes de alcova da criada, pelos teus, ou a morte em directo com cursos rápidos de assassínio por mestres renomados. Tudo no anonimato, tudo sem teres de revelar a tua cara de bicho, tudo só e apenas a troco do teu dinheiro.
Pulsa com um coração de lixo a cidade satânica, as suas artérias estão sempre cheias de sangue, de pus, de fel, de baba. Barramos torradas com a gordura sabe-se lá de quê, de quem, lambemos os lábios à janela, felizes de não estarmos lá fora, na rua, embrulhados num cobertor, embrulhados na merda, e sorrimos… e ouvimos os mil gritos de sofrimento que rasgam todos os megafones, todas as máquinas-falantes, todos os satélites e telefones, todas as rádios e telégrafos de navios à beira do naufrágio e de aviões no vórtice da queda… e depois pensamos… ainda não é a minha vez e esta noite espero uma visita… e comprei um perfume… e acendi uma vela na sala… e ouço aquela velha música de que gosto tanto.


Klatuu Niktos

Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010

ARCHOTES AO ALTO


Dança e júbilo. Nasceu mais um Lusitano na tribo de Ossian, o Martim. A ele, a valentia da estirpe e o favor dos deuses. Archotes ao alto!

O grito de guerra dos lusitanos!

Abraço lusitano!
A Redacção


P. S. Aproveitamos ainda para anunciar o novo membro da Redacção, o Vitor Vicente, a quem acolhemos neste dia de festejos.

Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2010

VRUM, TAU, BANG!! CRÓNICAS DA PISTOLEIRA SANGUINÁRIA, Tempo de Antena



Alguns Bons Hábitos de Panurgo

Depois, quanto aos reitores da universidade e teólogos, perseguia-os de outros modos; quando encontrava algum no caminho, nunca deixava de lhes fazer alguma brincadeira feia: ora metendo-lhes um cagalhão nas pregas do barrete ou pendurando-lhes rabos de papel ou tiras de farrapos nas costas ou qualquer outra partida. Um dia que todos os teólogos deviam reunir-se na Sorbona para examinar os artigos de fé, ele compôs uma bela torta à bolonhesa, toda feita de alho, de galbanum, de assa foetida, de castoreum e de cagalhões bem quentes, temperou-a com pus de abcessos cancerosos e, de manhãzinha, borrou e ungiu tão teologalmente todo o anfiteatro da Sorbona, que nem o diabo resistiria.

Gargântua e Pantagruel, II, 16, François Rabelais, 1532, citação de História do Feio, Humberto Eco, 2007


Como Panurgo Se Cagou Todo

À medida que se aproximava, Frei João sentia não sei que odor, diferente da pólvora de canhão. Por isso, puxou Panurgo para a frente e viu que a sua camisa estava toda cheia de merda e suja de fresco. A força retentora do nervo que aperta o músculo chamado esfíncter (isto é, o buraco do cu) fora relaxada pela veemência do medo que ele tivera nas suas visões fantasmagóricas, além do ribombar daquelas canhoneadas, que é mais pavoroso no porão do que na ponte. Porque um dos sintomas e acidentes do medo consiste em, por causa dele, habitualmente se abrir o aloquete do local onde, no devido tempo, está contida a matéria fecal.

Gargântua e Pantagruel, IV, 67, François Rabelais, 1532, citação de História do Feio, Humberto Eco, 2007


O Peido de Pantagruel

Mal deu um peido, a terra tremeu por nove léguas em redor, e dela, juntamente com a poluição do ar, nasceram imediatamente mais de cinquenta e três mil homenzinhos, todos anões e falsificados; e de uma correia que logo depois lhe surgiu, outras tantas pequenas mulheres, como já pudestes ver nas feiras, daquelas que não crescem mais que o comprimento de uma cauda de vaca ou todas em grossura como os nabos de Limoges.
- Como - disse Panurgo -, tendes os peidos assim tão prolíficos? Por Deus, que belos morrões de homens e que belos estopins de mulheres: é preciso casá-los uns com os outros e oxalá que deles não nasçam moscardos.

Gargântua e Pantagruel, II 27, François Pantagruel, 1532, citação de História do Feio, Humberto Eco, 2007

Domingo, 5 de Dezembro de 2010

A POETISA INDUSTRIAL E A PINTURA AFRICANA, Bancos de Sangue



Maasai Moran and Cows at Manyatta, Ng'ang'a Ndeveni, 2005

Daphnia (Crustacean), Nikon MicroscupyU, 2007


I

A grafite de uma gata negra na parede
Lembra-me ter existido uma nação
Da Gata Negra na Parede.

Os impostos ao escolhido sector do estado
Pelo povo segundo seu bom grado,
E uma guro, que foi criança índigo,
A presidente.

Olhem, que Babalith chegou,
A Portugal.

O capitalismo foi aqui imoral
E o patriotismo, de água e sal.

A percentagem de órgãos doados
Abaixo dos 30%, as mais ricas pagavam mais
De seguro pelo seu coração mecânico.
As outras, 25%
Pela bateria contra o pânico.

Os bancos, foram intrujectados
Para a função pública.
Viva Sá Carneiro, viva a República.




Big Earnings, Moses Wanyuki, 2008


Hydra and Sea Monkey, Mr. Law, 2008


II

Em Portugal, as pessoas mal tinham órgãos
E tudo se intricava, como música em coral,
Ou sexos num floral.

Eu espéculo isto tudo, não sei onde os países
Ganham ou perdem fronteira, chove sempre
E como dizia a poetisa, no Inverno permanente
Foram as luzes da indústria que taparam
O Sol quente.

Quando estou cansada, peço boleia ao nada
E sigo, saltitante, pela estrada.

Em Portugal tudo acabou bem,
Vejo, e não vejo ninguém.


Babalith

 

RENASCIMENTO LUSITANO | O BAR DO OSSIAN