MANIFESTO


O que em filosofia política se chama «ideário», em poesia só pode chamar-se «escola».

Se podemos falar de uma «renascença portuguesa» é porque Portugal existe.

A identidade de uma pátria alicerça-se num conjunto de específicos, de traços culturais únicos, de um perfil étnico.

A poesia que assume ser a voz de uma nação é um clarim solitário.

Nem queremos saber dos vossos gozos e das vossas dores se não forem Portugal. Enviem para França os chiliques, o boudoir, as cartas perfumadas. Enviem a quem pertença tudo o que é verme neste chão.

Estes que se adiantam, que esporeiam as montadas e erguem o rosto impoluto diante do que ainda não é, chamamos-lhes poetas, vates, profetas, doidos, proscritos – o que quiserem. Por eles falam as pátrias, as eras que a História não guardou.

Do meu lado estão os bardos dos Lusitanos, mesmo que me digam que não existiram.

Toda a poesia, toda a palavra, o gesto sequer, o olhar, que não se erguer do sangue singular desta Pátria dos Portugueses Ibéricos – é lixo e aqui não pertence.

Os poetas são as antenas da raça.


Lord of Erewhon



«Artists are the antennae of the race but the bullet-headed many will never learn to trust their great artists.»

Ezra Pound


Sexta-feira, 12 de Novembro de 2010

SEIS PECADOS IMORTAIS E UM PECADO MORTAL

Haunted House & Sparrow, Pierre Dumas, 2009


§. O vício insólito de cheirar livros antigos. Vício que nos sopra através das páginas amareladas um ar denso que é a própria morte. Não a morte simples; mas uma morte que fala.

§. O silêncio do quarto é uma taça de fogo. Rangem debaixo das minhas botas as ripas do soalho. Um cântico de angústia erguido alto na noite. Que desertos? Que praias solitárias? Que clareiras? Que ermos desolados, no meio e depois das florestas esquecidas? Quando o coração cai na taça acende-se nas páginas uma brancura excruciante. Não dormir, é procurar ou esperar?

§. Acocorado no escuro a ver passar comboios. Serpentes luminosas, coleantes na treva, tão irreais, são o que vos resta de ser nómadas. Por um instante perscruto as vossas vidas atrás do claror vítreo. Quem sereis? Para onde vos dirigis? Chegareis, um dia? Por um instante um par de olhos pisados observou-vos de dentro do ventre da noite. Ter-vos-eis apercebido, aí, tão incautos, velozes, dentro do ventre da luz?

§. Os cascos dos navios desfeitos sobre a duna. Os gladíolos destilados pela filigrana tépida do poente. Em meu redor as aranhas tecem. Reino, qual fantasma de um Príncipe. A percorrer estas valas de escombros. A receber o afecto do nada. A vestir as cores da noite qual animal mimético. Para ser invisível? Para me ocultar do mundo como um segredo antigo? Ah, fechem a porta, este é o lugar que escolhi para morrer, e por isso é sagrado.

§. Há uma dignidade limite que alguns poetas têm em comum com os terroristas. Atiram-se de cabeça contra um muro (que pode ser uma civilização ou a noite) e rebentam com um estouro – mas fazem-no pelo crepúsculo, por madrugadas desertas, ocultos pela sombra, pelo silêncio. A sua dignidade é essa; não esperam que alguém os chore. A maior justiça é a que sabe ser uma espada. Ser implacável para com as minhas fraquezas – é toda a luz que preciso.

§. Ao longo da muralha a respirar o sal, a ver a massa negra das ondas gemebundas e os pneus, latas, tábuas, caóticos no lodo. Ó instante de fascínios, malefícios, delírios. Ninguém a quem me queixar, nem do quê – é próprio de um romântico gostar de ruínas… e sê-las. Errarei árido e frio, deserto e pálido. Pertenço às casa abandonadas.

§. Sou a criança revolta, que só sabe amar como os suicidas, como quem se atira para dentro de um abismo.


Lord of Erewhon

1 Comment:

thepoisonousi@thehospital.com said...

Eu sabia que irias publicá-los aqui... ;)


Um forte abraço, ó menino d'alma pura!

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