§. O silêncio do quarto é uma taça de fogo. Rangem debaixo das minhas botas as ripas do soalho. Um cântico de angústia erguido alto na noite. Que desertos? Que praias solitárias? Que clareiras? Que ermos desolados, no meio e depois das florestas esquecidas? Quando o coração cai na taça acende-se nas páginas uma brancura excruciante. Não dormir, é procurar ou esperar?
§. Acocorado no escuro a ver passar comboios. Serpentes luminosas, coleantes na treva, tão irreais, são o que vos resta de ser nómadas. Por um instante perscruto as vossas vidas atrás do claror vítreo. Quem sereis? Para onde vos dirigis? Chegareis, um dia? Por um instante um par de olhos pisados observou-vos de dentro do ventre da noite. Ter-vos-eis apercebido, aí, tão incautos, velozes, dentro do ventre da luz?
§. Os cascos dos navios desfeitos sobre a duna. Os gladíolos destilados pela filigrana tépida do poente. Em meu redor as aranhas tecem. Reino, qual fantasma de um Príncipe. A percorrer estas valas de escombros. A receber o afecto do nada. A vestir as cores da noite qual animal mimético. Para ser invisível? Para me ocultar do mundo como um segredo antigo? Ah, fechem a porta, este é o lugar que escolhi para morrer, e por isso é sagrado.
§. Há uma dignidade limite que alguns poetas têm em comum com os terroristas. Atiram-se de cabeça contra um muro (que pode ser uma civilização ou a noite) e rebentam com um estouro – mas fazem-no pelo crepúsculo, por madrugadas desertas, ocultos pela sombra, pelo silêncio. A sua dignidade é essa; não esperam que alguém os chore. A maior justiça é a que sabe ser uma espada. Ser implacável para com as minhas fraquezas – é toda a luz que preciso.
§. Ao longo da muralha a respirar o sal, a ver a massa negra das ondas gemebundas e os pneus, latas, tábuas, caóticos no lodo. Ó instante de fascínios, malefícios, delírios. Ninguém a quem me queixar, nem do quê – é próprio de um romântico gostar de ruínas… e sê-las. Errarei árido e frio, deserto e pálido. Pertenço às casa abandonadas.
§. Sou a criança revolta, que só sabe amar como os suicidas, como quem se atira para dentro de um abismo.
1 Comment:
Eu sabia que irias publicá-los aqui... ;)
Um forte abraço, ó menino d'alma pura!
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