MANIFESTO


O que em filosofia política se chama «ideário», em poesia só pode chamar-se «escola».

Se podemos falar de uma «renascença portuguesa» é porque Portugal existe.

A identidade de uma pátria alicerça-se num conjunto de específicos, de traços culturais únicos, de um perfil étnico.

A poesia que assume ser a voz de uma nação é um clarim solitário.

Nem queremos saber dos vossos gozos e das vossas dores se não forem Portugal. Enviem para França os chiliques, o boudoir, as cartas perfumadas. Enviem a quem pertença tudo o que é verme neste chão.

Estes que se adiantam, que esporeiam as montadas e erguem o rosto impoluto diante do que ainda não é, chamamos-lhes poetas, vates, profetas, doidos, proscritos – o que quiserem. Por eles falam as pátrias, as eras que a História não guardou.

Do meu lado estão os bardos dos Lusitanos, mesmo que me digam que não existiram.

Toda a poesia, toda a palavra, o gesto sequer, o olhar, que não se erguer do sangue singular desta Pátria dos Portugueses Ibéricos – é lixo e aqui não pertence.

Os poetas são as antenas da raça.


Lord of Erewhon



«Artists are the antennae of the race but the bullet-headed many will never learn to trust their great artists.»

Ezra Pound


Sábado, 18 de Setembro de 2010

TARDE DE CHUVA


The Pond-Moonlight, Edward Steichen, 1904


O rio corre dentro de mim, porque há um poder da palavra e porque toda a reformulação literária da existência é um pranto no tempo. O rio corre e passa, e passa a correr dentro de mim e depois são as palavras como água a vestir-me da miragem da eternidade. Confundem-se as lágrimas da terra com a palavra lágrima e todo o meu pranto abandona a dor, para ser este caudal na página.
Tenho um rio dentro de mim, este que corre a meus pés, pelo mesmo encantamento mágico que faz chuva no entardecer eterno da minha alma. O rio detém-se um pouco, porque um entardecer eterno é um quadro idílico, um instante imóvel, paradoxo erguido no tear da linguagem. Na sua pantalha negra e rápida o rio começa a pensar, torna-se vago, troca de lugar com a noite meditabunda.
As águas de baixo, as águas de cima, tudo confundido, o antes do Génesis, do mundo e da alma. Importa tanto aos passantes distinguir a chuva de cima da chuva de baixo, meter ordem no mundo, não esquecer o guarda chuva e ser pontual nos encontros, principalmente quando as mesas dos cafés se tornam a promessa de uma porta aberta quando a cidade apaga as luzes. Mas o poeta é uma criatura sem abrigo, devorado pelo dilúvio, com a beleza de um rio estendido debaixo da chuva a fechar todos os caminhos.
Aqui sento-me na mesa que não há, com um guarda chuva de palavras, no júbilo cruel de não estar nunca onde me esperam. O rio corre dentro de mim, e agora chove mais, assim que pára de chover.


Lord of Erewhon

4 Comments:

Juliana Von Muhlen said...

Que belas palavras!

Antígona said...

É sem dúvida perfeito e belo. :)

Beijinho*

Lord of Erewhon said...

Obrigado, Juliana e Antígona... ;)
Beijinhos.

thepoisonousi@thehospital.com said...

Um dos meus preferidos de tua autoria.

Forte abraço!

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