The Pond-Moonlight, Edward Steichen, 1904
O rio corre dentro de mim, porque há um poder da palavra e porque toda a reformulação literária da existência é um pranto no tempo. O rio corre e passa, e passa a correr dentro de mim e depois são as palavras como água a vestir-me da miragem da eternidade. Confundem-se as lágrimas da terra com a palavra lágrima e todo o meu pranto abandona a dor, para ser este caudal na página.
Tenho um rio dentro de mim, este que corre a meus pés, pelo mesmo encantamento mágico que faz chuva no entardecer eterno da minha alma. O rio detém-se um pouco, porque um entardecer eterno é um quadro idílico, um instante imóvel, paradoxo erguido no tear da linguagem. Na sua pantalha negra e rápida o rio começa a pensar, torna-se vago, troca de lugar com a noite meditabunda.
As águas de baixo, as águas de cima, tudo confundido, o antes do Génesis, do mundo e da alma. Importa tanto aos passantes distinguir a chuva de cima da chuva de baixo, meter ordem no mundo, não esquecer o guarda chuva e ser pontual nos encontros, principalmente quando as mesas dos cafés se tornam a promessa de uma porta aberta quando a cidade apaga as luzes. Mas o poeta é uma criatura sem abrigo, devorado pelo dilúvio, com a beleza de um rio estendido debaixo da chuva a fechar todos os caminhos.
Aqui sento-me na mesa que não há, com um guarda chuva de palavras, no júbilo cruel de não estar nunca onde me esperam. O rio corre dentro de mim, e agora chove mais, assim que pára de chover.
Lord of Erewhon
4 Comments:
Que belas palavras!
É sem dúvida perfeito e belo. :)
Beijinho*
Obrigado, Juliana e Antígona... ;)
Beijinhos.
Um dos meus preferidos de tua autoria.
Forte abraço!
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