MANIFESTO


O que em filosofia política se chama «ideário», em poesia só pode chamar-se «escola».

Se podemos falar de uma «renascença portuguesa» é porque Portugal existe.

A identidade de uma pátria alicerça-se num conjunto de específicos, de traços culturais únicos, de um perfil étnico.

A poesia que assume ser a voz de uma nação é um clarim solitário.

Nem queremos saber dos vossos gozos e das vossas dores se não forem Portugal. Enviem para França os chiliques, o boudoir, as cartas perfumadas. Enviem a quem pertença tudo o que é verme neste chão.

Estes que se adiantam, que esporeiam as montadas e erguem o rosto impoluto diante do que ainda não é, chamamos-lhes poetas, vates, profetas, doidos, proscritos – o que quiserem. Por eles falam as pátrias, as eras que a História não guardou.

Do meu lado estão os bardos dos Lusitanos, mesmo que me digam que não existiram.

Toda a poesia, toda a palavra, o gesto sequer, o olhar, que não se erguer do sangue singular desta Pátria dos Portugueses Ibéricos – é lixo e aqui não pertence.

Os poetas são as antenas da raça.


Lord of Erewhon



«Artists are the antennae of the race but the bullet-headed many will never learn to trust their great artists.»

Ezra Pound


Sábado, 24 de Abril de 2010

ANTARQUISTA, Camarada Ieve



Gosto de pensar no universo como um daqueles palácios de arte que comportam inúmeros palcos teatrais. Existem atores em número suficiente para encenar as mais variadas tramas e nunca deixar os palcos desocupados – embora em todas as plateias apenas eu ocupe as cadeiras. Permaneço ali sentado independente do que esteja sendo encenado. Comédia ou tragédia: sempre me divirto!
Há atores que não creem na existência de qualquer espectador. Preferem acreditar no vazio das cadeiras. Talvez sustentem tal atitude para que se sintam mais seguros! Outros dizem não amar o observador e sua presença – consideram-na desnecessária. Cumprem seus papéis pensando no próprio deleite, carências, exigências do ego. Raramente se sentem tranquilos o bastante para vibrarem de alegria enquanto decoram e proclamam. Sinto pontinha de dó, mas sigamos adiante.
Geralmente considero mais talentosos aqueles que se entregam ao público com o mesmo ímpeto da leitura do roteiro. Independente disso, porém, permaneço ali sentado enquanto encenam ininterruptamente, e a minha única preocupação é me divertir. Não deixo de me divertir mesmo quando me deparo com os inúmeros atores que se sentem donos exclusivos do palco. Tal atitude é até engraçada! Divirto-me como aqueles que observam o ridículo de as pulgas tenderem a impor o seu tempo ao cão. Situações de ridícula infantilidade usualmente são bem divertidas! Rio-me enquanto as pulgas mordem o corpo que julgam de sua propriedade – e exigem sempre mais sangue!
Fico imaginando, embora conheça a resposta desde o início de qualquer tempo, até que ponto o cão acha as pulgas divertidas. Aqueles seres minúsculos discutindo metafísica sobre a sua corcunda! Acredito que as tolere, e talvez as ame como a coceira que a princípio dá distração e depois desespero, até o momento em que insuportável se torne o incômodo. Então, num simples mover de pata ou mandíbula, livra-se dos infelizes insetos. E as siphonapteras contavam que aquele mundo cheio de pêlos fosse ostensivamente seu! É divertido... filosofia de arthropoda... mas é claro que o cão também acredita que a mão que o alimenta, e, às vezes, o ajuda a se livrar dos insetos com o uso de algum veneno, por direito lhe pertence.
Tal mão tem ainda menos escrúpulo de se livrar dos pequenos elementos... até do cão... ou de outros atores... palco... é hilário!
Pena que as peças não possam durar eternamente como se poderia supor – ou se protela. Mas, no fim das contas, nada se perde, não é? Aproveita-se tudo noutro teatro – escreve-se outros roteiros. Tudo se acaba apenas quando me entedio. Sinto sono, estendo o braço, apago as luzes. Demoro um bocado, no entanto, a fazê-lo – simples assim! –, pois a possibilidade infinita de novas formas me fascina! Quase que acertaria aquele que me comparasse com o genuíno artista: sempre a buscar novas formas... A matéria de cada ciclo oferece diversidade inúmera! Infinitude muito maior do que poderia supor o tempo das pulgas.
Creio não estar entediado... agora... ainda. Até por que ainda consigo dar risadas de coisas tão irrisórias! Como quando insetos, cão, mão que alimenta a todos, e por aí vai, encenam seus papéis de ladainhas sobre eu lhes faltar com amor.
Ahahaha! O que poderia saber o carrapato sobre o amor? É até bonitinho o seu conceito sobre o amor, mas não queira ele aquecer todo o universo, iluminar ou escurecer cada e todos os pormenores de uma só estrela, clamando amor enquanto suga sangue, ladra contra ladrões, inventa venenos contra parasitas.
Um dos menores aspectos do Meu Conceito de amor já seria por demais incompreensível para o alcance do raciocínio dos elementos supracitados, em suas atuais formas, e proveria todos os seres daquilo que eles precisam para serem bem-sucedidos. Nesse ínterim, cabe a pergunta: por que clamar por minha interferência todas as vezes que desejam maior volume de sangue?
Obviamente, quando a peça encenada não me agrada, interfiro! Sinto uma vontade que brota entre uma e outra estrela, e o vento sopra reagindo sobre os pêlos do mundo onde se exigiu a intervenção, sobre as formas que poderiam originar venenos, sobre o vento menor que sobe a saia da “dona” da mão que alimenta os seus menores camaradas. Mas tal intervenção se dá raramente... apenas quando, com suas próprias ideias retrógradas, elementos erguem intransponíveis muros a impedirem o acesso à plateia e ao palco, encerrarem o artista em seus próprios conceitos e barrarem sua probabilidade de conquistar novas formas, atalharem o encenar dos roteiros que eles mesmos escreveram, peças para as quais o menor aspecto do meu amor provêm de todo o necessário. E é fácil substituir, depois que o vento sopra, o que falta acolá do que excede ali, e manter o equilíbrio das formas! Simples como soprar verbos e sustenidos.
Mas clamem! Também essa peça chega aos meus ouvidos, Eu Sou, e amo aquele que me faz carícias... querem sugar seu sangue cada vez mais e por todo o sempre? Não percebem a infinitude à sua espera? Que bonitinho! Seja quem tu és! O que quiserem ser! Divirtam-se!
(Continua...)


Daniel Ricardo Barbosa

4 Comments:

Daniel Ricardo Barbosa said...

Certa vez publiquei num site uma crônica em que vestia o corpo ou as roupas de um serial-killer. Recebi várias mensagens, inclusive de parentes, pedindo peloamordedeus que não comprasse uma metralhadora e não atirasse nos espectadores de um cinema... acharam que eu realmente estava pensando em dar vazão às minhas revoltas da adolescência da mesma maneira que o fazem certos sociopatas... :)))
Desde então, incluo a nota em certos textos que publico:
o CAMARADA IEVE acima é apenas uma "brincadeira literária" sem pretensões ou intenções além de... me divertir!
Abraços!!!

Vitor Vicente said...

Welcome...

Abraço lusitano!

O BAR DO OSSIAN said...

Bem-vindo a O Bar do Ossian.

Abraço lusitano!

Ruela said...

Bem-vindo ;)


Abraço.

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