
Remember, Wolf, 2007
A meus braços, Ana Laura, o céu e o mar, os espelhos da tua devoção, a dedicação à doença e à miséria, o teu semblante delicado e etéreo, a placidez com que aceitavas o destino e a sorte, a mim, Ana Laura, o azul sabor do desgosto.
A meus braços, Glória, a lavoura e a colheita, os sacrifícios da tua perpétua gestação, augusto o seio que alimentou a nossa raça, que o meu ofício tenebroso temo e tremo de ofuscar o teu templo interior, essa ignota claridade que a nossa treva habita, a mim, Glória, a tua singular visão telúrica.
A meus braços, Moisés, a sabedoria e a sombra, as páginas da tua sóbria existência, a crença na humanidade e na fraternidade, a astúcia com que declinavas a fama e a celebridade, porque é do português mover-se a insatisfação, o teu nome em cada verso meu revolto, infinda dialéctica, a mim, Moisés, o prazer de te ouvir escrever.
A meus braços, Artemísia, a música e a dança, os movimentos da tua agitada meditação, a xamânica entrega ao corpo e ao silêncio, o intenso marulhar que a minha fantasia enfeitiça, imensidão e praia, chama eterna, enigma, aurora e assombro, a mim, Artemísia, o teu beijo na minha fronte seca, aroma de jasmim.
A meus braços, Maria Manuela, a loucura e a poesia, as tuas preces consagradas à escuridão, o tudo querer e nada desejar, o teu sofrimento redivivo no meu, ofício transladatório, a desilusão e a dor, alucinação, as mortes e os dias, a mim, Maria Manuela, o sentido que toda a palavra encerra.
E a mim, 'sfíngica ascendência, o sol e a terra, a lua e o mar, o pó sobre a pedra, a seiva, o sangue, a nossa história celebremos, ancestrais, com alma grande e voluntariosa, que a vida é breve, jamais a memória.
Nodula de Nomada




















