MANIFESTO


O que em filosofia política se chama «ideário», em poesia só pode chamar-se «escola».

Se podemos falar de uma «renascença portuguesa» é porque Portugal existe.

A identidade de uma pátria alicerça-se num conjunto de específicos, de traços culturais únicos, de um perfil étnico.

A poesia que assume ser a voz de uma nação é um clarim solitário.

Nem queremos saber dos vossos gozos e das vossas dores se não forem Portugal. Enviem para França os chiliques, o boudoir, as cartas perfumadas. Enviem a quem pertença tudo o que é verme neste chão.

Estes que se adiantam, que esporeiam as montadas e erguem o rosto impoluto diante do que ainda não é, chamamos-lhes poetas, vates, profetas, doidos, proscritos – o que quiserem. Por eles falam as pátrias, as eras que a História não guardou.

Do meu lado estão os bardos dos Lusitanos, mesmo que me digam que não existiram.

Toda a poesia, toda a palavra, o gesto sequer, o olhar, que não se erguer do sangue singular desta Pátria dos Portugueses Ibéricos – é lixo e aqui não pertence.

Os poetas são as antenas da raça.


Lord of Erewhon



«Artists are the antennae of the race but the bullet-headed many will never learn to trust their great artists.»

Ezra Pound


Quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009

MEMORIAL


Remember, Wolf, 2007

A meus braços, João, a enxada e o sacho, os instrumentos da tua cava solidão, o amor à terra e à madrugada, o teu sorriso carregado e vigilante, que a nossa pátria são os carvalhos e os ciprestes, a mim, João, a melancolia tacteada.
A meus braços, Ana Laura, o céu e o mar, os espelhos da tua devoção, a dedicação à doença e à miséria, o teu semblante delicado e etéreo, a placidez com que aceitavas o destino e a sorte, a mim, Ana Laura, o azul sabor do desgosto.
A meus braços, Glória, a lavoura e a colheita, os sacrifícios da tua perpétua gestação, augusto o seio que alimentou a nossa raça, que o meu ofício tenebroso temo e tremo de ofuscar o teu templo interior, essa ignota claridade que a nossa treva habita, a mim, Glória, a tua singular visão telúrica.
A meus braços, Moisés, a sabedoria e a sombra, as páginas da tua sóbria existência, a crença na humanidade e na fraternidade, a astúcia com que declinavas a fama e a celebridade, porque é do português mover-se a insatisfação, o teu nome em cada verso meu revolto, infinda dialéctica, a mim, Moisés, o prazer de te ouvir escrever.
A meus braços, Artemísia, a música e a dança, os movimentos da tua agitada meditação, a xamânica entrega ao corpo e ao silêncio, o intenso marulhar que a minha fantasia enfeitiça, imensidão e praia, chama eterna, enigma, aurora e assombro, a mim, Artemísia, o teu beijo na minha fronte seca, aroma de jasmim.
A meus braços, Maria Manuela, a loucura e a poesia, as tuas preces consagradas à escuridão, o tudo querer e nada desejar, o teu sofrimento redivivo no meu, ofício transladatório, a desilusão e a dor, alucinação, as mortes e os dias, a mim, Maria Manuela, o sentido que toda a palavra encerra.
E a mim, 'sfíngica ascendência, o sol e a terra, a lua e o mar, o pó sobre a pedra, a seiva, o sangue, a nossa história celebremos, ancestrais, com alma grande e voluntariosa, que a vida é breve, jamais a memória.


Nodula de Nomada


And There Will Your Heart Be Also, Fields of the Nephilim, 1990

CADERNO DE TELAS, The Burial of Jesus, Gustave Doré




Meu caro amigo,

O Natal passou-se, mais como um dia que se anseia que chegue ao fim, que por aquele formigueiro que nos coça as entranhas por antecipação. Senti-me culpada, amigo, e estou-lhe grata por, aflorando este assunto, me permitir dar corpo às palavras envergonhadas que se esconderam na minha alma. A cada ano que passa, seja pela idade que avança, ou por desalento com o mundo, me entristece mais esta festividade. Não consigo já retirar prazer da apregoada união entre as gentes, quer pela farsa com que se veste o fato de Pai Natal, quer por me sentir partida, incompleta. Entristece-me a mesa recheada, o comer desce a custo...
Tem razão, o meu amigo, falta-me o olhar de criança, mas que fazer com essa criança que descobriu que o Pai Natal não desce em todas as chaminés?! Sorrio, não quero preocupar os que me rodeiam, e olho as horas à espera que elas corram. Não me leve a mal, mas confesso o aborrecimento nos desejos de «Feliz Natal»; há mais dias no ano, e aí, quando nos cumprimentamos apressados, o «Olá, está tudo bem?», é de passagem e não espera resposta.
Voltar a esse olhar de criança, à não-compreensão da criança... como tem razão, meu amigo, agora entendo ser assim que me sinto ultimamente. Uma espécie de estranha em terra estranha, perdida entre gentes que não percebo, mais gélidas que a neve, alheias a tudo que não à própria barriga. Talvez nem sequer lhe possa chamar solidão, pois é algo a que não posso, e não quero, fugir, recuso essa multidão amorfa, não faço parte dela, e ela não faz parte do meu mundo. Vejo agora, mais claramente, que este deserto se impõe como a única existência possível e, talvez, a mais autêntica forma de existência. A autenticidade não foi nunca caminho fácil de percorrer, e acredito, cada vez mais, que não se trata sequer de uma opção, antes a única via que se me afigura.
Caro amigo, embarga-se-me a alma, estou lamechas hoje, não por auto comiseração, antes porque uma vaga de frio se anuncia, não nas ruas, mas no coração das gentes.

Abraço-o.

Sua amiga, Clarissa.



The Burial of Jesus, Gustave Doré, 1866

FACHO E ESTANDARTE


O archote crepita, há luzes mais fortes que outras, há lumes que rugem. O lume é um centro, um eixo, a palavra inaugural, a tenda, o sangue e o caminho. Erguer alto um facho na escuridão, para além da fadiga de um braço, erguê-lo alto é uma afirmação de coragem e esperança.
Há outros modos, outros rezam, ou sopram búzios, como se fossem pares dos deuses, mas a senda do guerreiro é a batalha, ultrapassa castelos e sacrifica-se na ara da terra. O combate não é menos civilização, é o garante da mesma, na defesa das muralhas as bibliotecas ficam paradas, e é a mole anónima das nações que se perfila diante da morte, os herdeiros do primeiro homem que um dia disse não, ou disse sim, com a sua carne mortal a ser um grito do mundo!


O grito de guerra dos Lusitanos!

Obrigado por estarem connosco.
Abraço lusitano!
A Redacção

ANO NOVO

Um 2010 grandioso para todos aqui n'O Bar!


I love rock'n'roll, Mehmet Turgut, 2009


Absolute Beginners, David Bowie, Absolute Beginners, 1986



Chamam-lhe novo. Não interessa
o que lhe chamam, quando é certo
que cada ano diz somente a pressa
de pôr a descoberto
que nada recomeça.

Se, inevitável, o dia
de amanhã há-de ser igual ao de hoje,
qualquer coisa nos foge.
Ou então será excesso de poesia.


Torquato da Luz, Mais um Ano

REINO DE NINGUÉM




Kingdoms of our Own, The Indian and the Coyote, Freedom Exists, Jim Morrison


Lá fora os que vivem descarnados de vida, de janelas fechadas à morte, cambaleiam um dia a dia nos seus olhos cerrados e nas profundezas do seu inconsciente. Amanhã despertarão e trabalharão a terra ainda com sangue que lhes não pertence. Seguem em bando a loucura solitária e no retorno da noite, bem fundo nas suas casas, são eremitas. Quem ousa aventurar-se e escapar-se quando o Astro está a Norte bailará com os fantasmagóricos fogos-fátuos de homens brancos como o Sol e gelados como o abismo, reunido num bar com a congregação parasita mais próxima, vendendo a alma e bebendo-a em cada copo verdejante.


Horned Wolf

JOY DIVISION – She’s Lost Control (1979)

Ao vivo no programa da TV inglesa Something Else, em 15 de Setembro de 1979

ARQUEO/LOGIA


(Da série) Não tem que me contar seja o que for, Jorge Molder, 2006-7


§. A Lua rompe negros fumos, lívida e cheia. Com ruínas escorei a minha alma. A fera oculta-se. O mocho procura lacraus. O homem, o calor da lenha. O discípulo, indícios.

§. O sangue do crepúsculo inunda os céus e acalma o vil e inútil afã das criaturas – a maior ironia da morte é acercar-se do mundo envolta em vestes de princesa. Cada ínfima coisa se agiganta com uma pequena luz própria. Para enfrentar a noite? Para morrer dentro de uma clareira de funéreo brilho?
A vida escreve no tempo o seu canto triste e trágico, para morrer com glória, e depois sobram estes pedaços de chão e muro, que não sabemos ler.

§. Nem vale a pena elogiar a lápide de tudo; o enxame de nada que tecem todos os gestos; a cascata de pó sobre o abismo; mas o tinteiro, a vela, o papel e a dor fizeram-se para o fogo.
Acende-se uma fogueira ao relento e espera-se, assim houvesse um desígnio e admira-se o frio, a implacável dureza do gelo, a canção hiemal da noite. Passa-se as mãos pelo fogo e pensa-se com muita força para dentro, qual espada afiada e pura para dentro, da alma e da carne, pensa-se «Não tenho medo». É quando a treva se acerca do fogo, curiosa do mundo, como uma mãe que acordasse de um coma e se sentasse ao nosso lado.
Fica-se muito quieto, com as mãos em ferida, com uma folha de barro e um escopro ensanguentado.

§. O espectro que rasga os céus é afinal belo, porque enfrenta a ventania com um sudário de púrpura e prata. Mas a rosa não é bela: a rosa fala.
Quieto, o discípulo rasga os céus; estático e extático é belo como a rosa.


Lord of Erewhon

Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

JOY DIVISION – Love Will Tear Us Apart (1979)

Ao vivo na BBC em 1979

Feliz Ano Novo para todos!

A MILENAR PÁTRIA DOS NÓMADAS


Enora, Rita Magalhães, 2009


O Poeta Fernando Pessoa dizia-se personagem de uma «biografia sem factos». Já o way of life do poeta Herberto Helder valeu-lhe o cognome de Poeta Obscuro. Sempre que sai cá para fora algo do HH, o Obscuro, os desilumináveis homens das letras digladiam-se em querelas. Ofício Cantante, última súmula (última?, última até ler...) do HH, o Obscuro, não escapou a elas.

Esta compilação concentra somente a produção poética. Em consonância com esse critério, ficaram de fora várias peças de prosa; por exemplo, os emblemáticos Passos em Volta.

A única referência explícita em verso às cidades onde viveu o HH, o Obscuro, é a bruxelas; assim mesmo, bruxelas, com letra minúscula. A bruxelas herbertiana dexiste como dexiste a singapura do primeiro dos textos do citado emblemático livro. Ambas as cidades representam respectivamente a Capital da Realidade e a Capital do Sonho.

Além de Bruxelas, agora elevada à letra maiúscula por nos referirmos à capital do continente, o HH, o Obscuro, andou por Antuérpia, Angola e América. Não de seguida, como quem encena uma saga que não é senão uma farsa. Antes, sim, sazonalmente. Com os seus regressos a Portugal, para completar a colheita e o saber da viagem com a experiência do voltar.

Atente-se, também, que o HH, o Obscuro, não nasceu em Portugal, o Continental. O seu berço, assim como a sua infância e adolescência, foi na ilha da Madeira. Mais que um homem-ilha, HH, o Obscuro, é o nosso único poeta órfico, o nosso único poeta homérico. A sua poesia é a do ser e a do sempre – a do ser com sede do sempre, no sentido de alguém que só é alguém quando alcança e, ao mesmo tempo, é anulado pelo absoluto.

Ao contrário do poeta Pessoa, cujo proveito provinciano (perceba-se: não se trata de um adjectivo pejorativo) consiste em expressar todas as pessoas do povo português, desde o néscio ao místico, passando pelo próprio viajante aventureiro e indo até ao que sofra de fobia pela condição de forasteiro, o HH, o Obscuro, expressa o espírito humano e espelha o mundo e a natureza, como se todos os tempos o tivessem como porta-voz e todos os países tomassem o seu corpo como porto e dessem à costa na sua alma.

Daí a errância do HH, o Poeta Obscuro; errância inenarrável, anti-diarística até. Daí habitar-lhe a milenar pátria dos nómadas.


Vitor Vicente

PORTUGAL, EM VISÃO EXTRAVAGANTE, XVI


(Da série) Não tem que me contar seja o que for, Jorge Molder, 2006-7


77. Os três Magos procuraram a Estrela; o pensamento português gosta de seguir a Estrela que diariamente se apaga no Ocidente, deixando-nos a esperança de nascer de novo.

80. Entre o verso da Ilíada «Terríveis são os deuses quando nos aparecem às claras» e a misteriosa naturalidade e simplicidade com que um ser divino se mostra como Homem, nascendo entre nós, estende-se a multiplicidade do mundo que, de tempos a tempos, se interroga mais alto, ora para constatar o poder (aparente) das trevas, seja para discernir , através de uns poucos, que o excesso de luz cega o que a não pode fitar. Por isso, em algum grau, há analogia do Encoberto português e a verdadeira natureza do Menino ou Cristo-Jesus.


Eduardo Aroso



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NOTÍCIAS DE VERA CRUZ, Receita de Ano Novo, Carlos Drummond de Andrade



Vídeo: www.venezadebrasileiros.blogspot.com


Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Carlos Drummond de Andrade, publicado no "Jornal do Brasil", dezembro de 1997.

Terça-feira, 29 de Dezembro de 2009

CAI AMPLO O FRIO


Mud, Irving Penn, s/d


Winter, Tori Amos, Little Earthquakes, 1992


Cai amplo o frio e eu durmo na tardança
De adormecer.
Sou, sem lar, nem conforto, nem esperança,
Nem desejo de os ter.
E um choro por meu ser me inunda
A imaginação.
Saudade vaga, anónima, profunda,
Náusea da indecisão.
Frio do Inverno duro, não te tira
Agasalho ou amor.
Dentro em meus ossos teu tremor delira.
Cessa, seja eu quem for!


Fernando Pessoa
,
1931

STEVE VAI – For the Love Of God (1990)


Do DVD Where The Wild Things Are, 2009

CITAÇÕES NOCTÍVAGAS, IX



«O Império desfaz-se
[...] E não se cumprirá...
[...] a alma não tem
A grandeza de outrora.
[...] Falta quem os guie honrosamente.
Falta um Rei que não voltará!»




Não voltará D. Sebastião da bruma... Infelizmente nem alguém à altura dos seus antepassados que nos possa guiar... Lutemos nós pela mudança do nosso fado, e começamos já em cada dia do novo ano e dos seguintes para deixarmos de ser um povo acomodado e voltarmos as ser o bravo povo que nos levou à grandeza de poder falar numa lusofonia espalhada pelo mundo.

Bom Ano de 2010!

DIGITAL WORLD



Digital World, Ruela, 2009


Segunda Nota Explicativa

Se uma palavra toca noutra ou mesmo sem tocar
lhe queda próxima, põem-se as duas
a dedilhar lembranças na ária
da carne azada.

Passa-se isto
na poesia dos poetas e na linguagem
da rua. Os ganhos
são mútuos e ficam mal lembrados

ou julgados inconvenientes se
pouco prosados ultrapassam
a discreta função de fundo
musical na paisagem ambiente.

Ganham em sentidos o que perdem
em concisão. Para que servem os muros
que nos cercam senão para dar ganas
de os saltar?


Júlio Pomar, in Tratado do Dito e Feito

Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

BUROCRACIA


Burocracia, Ruela, 2009


Vídeo seleccionado pela USVtv para o projecto colectivo internacional "Videoicomiso".

USV: Universo simultâneo de videos

USVtv é um site interativo que se constitui como espaço de criação e exibição, que contempla integrar a um público heterogêneo por meio da linguagem visual e sonora. A plataforma se constitui como suporte do projeto Vídeoicomiso e para futuras propostas audiovisuais.

Videoicomiso

Nesta oportunidade apresentamos o projeto Videicomiso que consiste em um espaço de convergência e inter-relação mediante propostas audiovisuais, colaborações teóricas e comentários públicos. Este projeto pretende, por meio da participação individual, conforma uma obra coletiva, na que se reúnem tempos e espaços socioculturais de diferentes pontos geográficos. O Nome “Videoicomiso” provém da palavra “fideicomiso” que determina a importância do território comum, não que a propriedade é virtual e o proprietário cede seus bens a um uso comunitário.

O projeto Videoicomiso tem um tempo de duração de quatro semanas e consta de uma estrutura temática baseada em sete conceitos: comida, comércio, tráfico, imigrantes, vagabundos, praça e burocracia.
No site se apresenta um espaço dedicado a quatro artistas de nacionalidade chilena que residem em três países diferentes: Chile, México e Espanha. Estas artistas vão expor diferentes vídeos baseados em cada um dos temas, os que se manter no site durante as quatro semanas de duração do Videicomiso.
Por outro lado, o site contará com outro espaço, aberto desde a primeira semana, para que todos os usuários de diversas nacionalidades possam ir subindo os vídeos que hajam realizado baseando-se nos temas propostos pela convocatória Videoicomiso.

A NOITE E O RISO, Uma Sessão Lírica




Dead Eyes Open, Cinema Strange, 2002

Domingo, 27 de Dezembro de 2009

PEACE FROG (A RÃ DA PAZ)


The End, The Doors, 1967


There's blood in the streets, it's up to my ankles
There's blood on the streets, it's up to my knee
Blood in the streets in the town of Chicago,
Blood on the rise, it's following me

She came just about the break of day
She came, then she drove away, sunlight in her hair

Blood in the streets runs a river of sadness
Blood in the streets it's up to my thigh
The river runs down the legs of the city,
The women are crying red rivers of weeping

She came in town and then she went away, sunlight in her hair

Indians scattered on dawn's highway,
Bleeding ghosts crowd the young child's fragile eggshell mind
Blood in the streets in the town of New Haven,
Blood stains the roofs and the palm trees of Venice
Blood in my love in the terrible summer,
Bloody red sun of Phantastic L.A.
Blood streams her brain as they chop off her fingers,
Blood will be born in the birth of a nation
Blood is the rose of mysterious union
Blood on the rise, it's following me


Jim Morrison

HUMANO, DEMASIADO HUMANO


Friedrich Nietzsche com 17 anos, Ferdinand Henning, Naumburg, 1862


O Defeito dos Homens Activos

Aos activos falta, habitualmente, a actividade superior: refiro-me à individual. Eles são activos enquanto funcionários, comerciantes, eruditos, isto é, como seres genéricos, mas não enquanto pessoas perfeitamente individualizadas e únicas; neste aspecto, são indolentes. A infelicidade das pessoas activas é a sua actividade ser quase sempre um tanto absurda. Não se pode, por exemplo, perguntar ao banqueiro, que junta dinheiro, qual o objectivo da sua incansável actividade: ela é irracional. Os homens activos rebolam como rebola a pedra, em conformidade com a estupidez da mecânica. Todos os homens se dividem, como em todos os tempos também ainda actualmente, em escravos e livres; pois quem não tiver para si dois terços do seu dia é um escravo, seja ele, de resto, o que quiser: político, comerciante, funcionário, erudito.


Retrocesso Civilizacional

São talvez as prioridades dos nossos tempos que acarretam um retrocesso e uma eventual depreciação da vida contemplativa. Mas há que confessar que a nossa época é pobre em grandes moralistas, que Pascal, Epicteto, Séneca, Plutarco pouco são lidos ainda, que o trabalho e o esforço – outrora, no séquito da grande deusa Saúde – parecem, por vezes, grassar como uma doença. Porque faltam tempo para pensar e sossego no pensar, já não se examina as opiniões diferentes: a gente contenta-se em odiá-las. Dada a enorme aceleração da vida, o espírito e o olhar são acostumados a ver e a julgar parcial ou erradamente, e toda a gente se assemelha aos viajantes que ficam a conhecer um país e um povo, vendo-os do caminho-de-ferro.
Uma atitude independente e cautelosa em matéria de conhecimento é menosprezada quase como uma espécie de tolice, o espírito livre é difamado, nomeadamente, por eruditos que, na sua arte de observar as coisas, sentem a falta da minúcia e do zelo de formigas que lhes são próprios, e bem gostariam de bani-lo para um canto isolado da ciência: quando ele tem a missão, completamente diferente e superior, de comandar, a partir de uma posição solitária, toda a hoste dos homens da ciência e da erudição, e de lhes mostrar os caminhos e os objectivos da cultura. Uma lamentação, como a que acaba de ser cantada, terá provavelmente a sua época e calar-se-á por si própria, um dia, quando se der o regresso em força do génio da meditação.


Friedrich Nietzsche, in Humano, Demasiado Humano

EMPEROR – Gypsy (1994)

Às bardas Valquíria e Antígona



Gypsy, Emperor (original de Mercyful Fate), 1994


This magic winter night I see a light
Again I hear that tune, some sort of croon

Oh no no no, oh my brain

I see them gypsy wagons left in the snow
Oh I must see that lady, I have to know
Gypsy woman let me inside

They say you know the secret, secret of time
So gaze into your crystal and tell me all you see

Gypsy Woman let me know

"Oh my son you were never gone
You are the Devil's child, and so am I"

Gypsy now I know you're not my mother
You are a part of my soul, it's clear for all to see

Oh no no no, oh I am you
Gypsy you're inside of me


Música de Mercyful Fate
Letra de King Diamond

LONGE, NAS ASAS DO ABSURDO


Les Yeux Clos, 1890, Odilon Redon


Sob o manto da memória,
Asa inocente,
Aurora renascida na palavra de ninguém.

Um corpo que se dilata,
Imenso mar de memórias destroçadas
Nas lágrimas do fracasso e da ilusão
Onde rastejam os fogos da miragem
E a recordação é soberana.

Promessas de vassalagem,
Juramentos rasgados entre o sangue
E a lembrança dos corvos,
No céu,
No véu que se estende ao longe,
Nas asas do absurdo
Onde a libertação espera pela verdade.

E um grito morre na bruma,
O adeus supremo
Do adormecido nos braços da areia morta.

OS APONTAMENTOS DA PROFESSORINHA Dar Aulas com o Coração



Descobri a diferença crucial entre os alunos do 3º ciclo e os alunos do Secundário: a crueldade. Ou seja, a malícia com que criticam os professores. Os alunos mais novos têm a tendência para a inocência, isto é, podemos argumentar com eles de certa forma e eles são sinceros connosco... e até os conseguimos convencer quando usamos a argumentação acertada e convincente. Com os alunos mais velhos a coisa já não se passa da mesma forma. O que lhes interessa não é só criticar... é ter razão... quer tenham essa razão ou não. A forma como eles falam connosco é arrogante, é desafiadora, é, de certa forma, provocatória. Provocam-nos e respondem sempre de uma forma que tenta atingir-nos a nível pessoal, e conseguirão, se assim o permitirmos. Por isso me diziam no outro dia que eu não podiam dar aulas com o coração...

No Secundário não podemos levar o coração para a sala de aula... não resulta muito bem... levamos as coisas que eles nos dizem a sério e de forma pessoal e chegamos a casa de rastos... Isto tem-me acontecido inúmeras vezes este ano lectivos e também se passava já no ano passado, (de notar que eu já não dava aulas ao Secundário há (largos) anos). Como acredtio em conversar com os alunos de forma sincera e aberta, eles aproveitam isso para atacar os ponto fracos. O problema passou então a ser que eles achavam que tinham ganho a "guerra" e continuavam a aumentar o tom reivindicatório, já para não falar na forma em como eles falam das notas... Um dia marquei falta de presença a uma aluna por ter pegado no seu telemóvel que eu anteriormente lhe tinha retirado e posto em cima da minha secretária. O comentário, entre dentes, dela foi "Se eu não mantiver o meu 16...". Resumindo, no fundo eu é que estava errada em marcar-lhe a falta e o que lhe importava era que mantivesse o 16 independentemente do resto. Se isso não acontecesse a culpa seria minha e as consequências seriam... as que eu quisesse imaginar...

Para mim esta é a principal diferença entre os alunos mais novos e os alunos mais velhos... Parece-me que, quanto mais tempo estão no sistema de ensino, mais velhacos, mais arrogantes, mais atrevidos e menos bem educados ficam... Serão estes os adultos que estamos a tentar educar? É assim que queremos o mundo? Cheio de gente que só sabe conviver com os outros atancando-os, desafiando-os, destruindo-os se assim acharem necessário?... Não sei se serão estes os adultos que eu quero educar e lançar para a nossa sociedade... E sim, podem dizer-me que parece que não gosto de ser professora, mas é exactamente por gostar que me encontro desiludida com a função que tenho hoje em dia...

Se não posso dar aulas com o coração, como é que as vou dar?... Há outra forma?...

NÃO HÁ NADA A DIZER

Remind Me To see You, Sabin Buraga


Não há nada a dizer. Libertamos o espírito e irrompemos pela treva da madrugada procurando a luz de outras galáxias para girarmos em torno de nós próprios. Nenhum rosto nos ocupa, nenhuma carne nos veste. Somos aqueles que ignoramos a passagem rápida dos humanos que vieram para fazer história. Abrimos frinchas na terra para nos deitarmos na anca da morte, mas nunca nos enfeitamos, estamos ocultos no raio de visão dos homens que falam de nós.


Luís Mendes

MEDICINA E MAGIA NO PORTUGAL ANTIGO, A Medicina (ou a falta dela) em Naus e Caravelas





QUEM QUER PASSAR ALÉM DO BOJADOR
TEM DE PASSAR ALÉM DA DOR



Até ao reinado do nosso desventurado rei D. Manuel I, as empresas de exploração marítima, a que estariam associados capitais judaicos, davam lucro, ou prometiam-no. É de supor que os marinheiros que viajaram com Gil Eannes, Diogo Cão e Bartolomeu Dias tivessem embarcado voluntariamente, atraídos por um salário que compensasse os elevados riscos e os incómodos da aventura das descobertas.
Não foi assim durante muito tempo. Os judeus foram expulsos e os negócios prejudicaram-se. Partiam mais navios e a mão-de-obra escasseava. As naus que sulcavam os mares da epopeia, rumo à Índia ou ao Brasil, cedo passaram a ser tripuladas por gente arrebanhada na ralé de Lisboa. Recrutados à força em ruas e tabernas, ou transplantados da prisão do Limoeiro, ladrões, vadios e mendigos, quantas vezes sem qualquer conhecimento de marinhagem, eram metidos, contra a vontade própria, nas embarcações.
Portugal não foi caso único nesta política de recrutamento. Quem povoou a Austrália, o Canadá e os Estados Unidos da América? Por muito que desagrade aos historiadores oficiais, o número dos que emigraram para fugir às perseguições religiosas na Europa constituiu quase sempre minoria.
As viagens prolongadas por mar criavam problemas de saúde. O escorbuto, devido à falta de vitamina C, é emblemático. Além disso, os forçados marujos, embarcados sem qualquer inspecção médica, levavam as suas doenças para o convés.
A História da Medicina dá realce a Balduino Ronsseus (1564) como pioneiro no tratamento do escorbuto. Contudo, perto de sessenta anos antes, um piloto anónimo ao serviço de Pedro Álvares Cabral, em viagem para a Índia, escreve claramente no seu diário que os alimentos frescos oferecidos pelo rei de Melinde ajudaram a sarar alguns marujos atingidos pela doença.
Os problemas eram muitos, e cedo se deu conta deles. Durante a segunda metade do século XVI começaram a organizar-se, nos navios de longo curso, os cuidados médicos e farmacológicos.
Dizem as más-línguas que as modificações nos preparados farmacêuticos correntes em Portugal no decurso dos séculos XVI e XVII poucas inovações traziam. Seguiam as preparações recomendadas pelas Farmacopeias Londrinas de 1618, 1650 e 1677. Poderão, ainda hoje, fazer a felicidade de alguns adeptos das chamadas Medicinas Tradicionais mas pouco ou em nada contribuíam para o bem estar da gente sã e para a recuperação dos enfermos. Tempos difíceis esses, em que um doente precisava de ter boa saúde para resistir aos cuidados médicos...
Dois séculos mais tarde, Baltasar Chaves, físico de bordo, propunha um conjunto de medidas racionais para limitar a elevada morbilidade dos marinheiros. Os que embarcavam deviam ser sujeitos previamente a inspecção médica. A lotação dos navios devia ser proporcionada às instalações disponíveis, e as reservas de água suficientes. Os mantimentos teriam de ser bem escolhidos e melhor acondicionados. A farmácia de bordo teria de ser adequada e a frequência de escalas programada, de modo a permitir a renovação da provisão de água e de alimentos frescos.
Quem, como eu, passou mais de setenta dias seguidos num navio, sem pisar terra firme, arrepia-se ao imaginar a vida a bordo, nos tempos em que não havia frigoríficos nem radar. Será curioso referir que, nos navios que se dedicavam à pesca do bacalhau à linha, nos mares da Terra Nova e da Groenelândia, em 1970 e 1971, os doentes portadores de afecções cutâneas contagiosas ainda necessitavam de receita minha para poderem tomar banho.


Referências:
Frada, João José Cúcio. História, Medicina e Descobrimentos Portugueses. Revista ICALP, vol.18, Dezembro 1989.
Fotografias: História de Portugal, Publicações Alfa, Lisboa, 1983.

Sábado, 26 de Dezembro de 2009

PÓS-TUDO


Gorby, Alexander Kosolapov, 1989



Augusto de Campos, 1984

MORTE E SUL


Manhã Enevoada, Carlos Macedo, 2006


A Casa tem raízes de carvalho e sementes de azevinho, adivinho, a coroar-lhe a fronte formosa. Ri-se do sol o orvalho matinal. Espírito haja, meu avô! Seja feita a leda vontade da Terra, a tua lida ágil e telúrica e o meu tenso lirismo de pássaros, a ceifa e o canto que primevos nos ligam, quando a mão do vento sustém o peso do nosso fardo, pão e vinho se as palavras escasseiam, amigo, que a fraternidade é a nossa linguagem, as frias noites da montanha e a minha alegria quando sei a imensidão dos campos na minha alma e pura. Como é alta a sabedoria dos castanheiros, o arrepio de lírios que me dobra a espinha, momento em que a poesia acontece e experiencia claridades no obscuro âmago do meu ser. Viremos a página, amigo, que a sombra do cipreste nos abrace e que a seiva materna jamais deixe de fluir em nosso sangue. A Casa o filho regressará, a Casa, que sempre a sepultura acena com a eterna promessa de vida.
Morte e Sul, João, eis a nossa causa, estímulo e dedicação.


Nodula de Nomada


The Southern Deathstyle, Moonspell, Live in Katowice, Poland, 2004

Sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009

O ASTRO NA ÁRVORE SAGRADA


O sikh Baba Virsa Singh fundou no séc. XX na Índia uma nova religião, de nome Gobind Sadan (A Casa de Deus). No dia de Natal celebram todos os profetas, todas as religiões, todos os homens, sem distinção de povo ou raça; nessa cerimónia crentes rezam em muitas línguas, entre eles há muçulmanos, hindus, cristãos, judeus – Maomé nasceu hoje! Krishna nasceu hoje! Abraão nasceu hoje! Jesus nasceu hoje! –, e depois riem, dançam, comem, bebem chá. A fé de Baba Virsa Singh é simples: «Não pratico nenhuma religião em particular, porque Deus fez-me entender que as religiões são fortalezas, e Deus disse-me: Quero que fales acerca do dharma. O dharma é a melhor criação de Deus. O que é o dharma? O amor a tudo.»
Na Ibéria antiga há a presença de um culto solar, a que os Lusitanos não seriam alheios. Em oração eram feitas despedidas ao Sol no ocaso e era-lhe implorado que ressuscitasse... Morte e ressurreição, a mais primordial e simples, a dividir o dia e a noite e a existência humana. Toda a unidade da fé é um Sol, toda, a glória de um nascente sobre a terra e o sonho de um paraíso de sabedoria e paz algures entre os bosques sagrados. Somente os que fazem da luz paredes e telhados e muros e altares esquecem isto.


Abraço lusitano!
A Redacção

O ANTI-RUÍDO


Lenin Coca-Cola, Alexander Kosolapov, 1980



Augusto de Campos, 1964

GRAPHIA D'OUTONO

A Jesus Carlos


Autumn, Wolf, 2007



The Poisonous I

Quinta-feira, 24 de Dezembro de 2009

SILENT NIGHT


Anciã, Gourma-Rharous, Mali, Sebastião Salgado, 1985



Mineiros, Serra Pelada, Brasil, Sebastião Salgado, 1986



Refugiados, Korem, Etiópia, Sebastião Salgado, 1984
.

PORTUGAL, EM VISÃO EXTRAVAGANTE, XV


(Da série) T. V., Jorge Molder, 1996


74. Não se pode dizer que uma república oca (a de 5 de Outubro), depois uma ditadura mal ditada, por último uma democracia paradoxal – ou um paradoxo intitulado democracia portuguesa – tenham sepultado completamente Portugal, como alguns, em estilos diferentes, têm dito. Do mesmo modo que não dizemos que Camões foi sepultado em Lisboa, mas sim o seu corpo, também Portugal não foi sepultado pelas mudanças políticas apontadas. Apenas partes do seu corpus temporal têm sido cremadas por algumas formas de inquisição ainda activas. A turberculose não foi de todo extinta, e quando volta é mais resistente. A serpente – distintivo daquela misteriosa Ordem que, segundo Pessoa, preside ao nosso Destino – muda, naturalmente, a sua pele para continuar a viver mais rejuvenescida. Por isso, o dito popular “estar na pele de alguém” é estar (sentir) bem no âmago da sua alma.

75. A lança e o cavalo substituem-se, ou melhor, têm os seus equivalentes no amor e na imaginação. No amor, estando implícita a defesa, a lança só servirá para proteger e curar os mais fracos e oprimidos. No brilho, visível ou não, desse metal cintilam os sonhos na promessa de se cumprirem. Na imaginação – incansável corcel – conquistaremos as terras e os espaços de Deus para os Homens de Boa-Vontade, todos esses que ainda não foram catalogados pelo saber humano.


Eduardo Aroso



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Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

SALVE!

Ao Vitor Mácula


Grace, Wolf, 2007


Tu, Mater dolorosa, que eu perturbo com prosódias de apneia, concede-me a tua respiração vagarosa e perspicaz e desencadeia-te na minha febre, porque são frias e dilacerantes estas manhãs de Dezembro e a minha voz repousa agora no sonho casto do musgo. Salva-me da felicidade e do cheiro a mijo, luz e lixo, minha egrégia confidente, que tudo em mim é a coreografia do excesso, morte e sul quando a norte avisto a barbárie dos tempos.
Vem, tu que soletras as minhas dúvidas e anseios e legitimas o meu abandono quando entras sem castigar som ou ruído, o nome da pátria celeste que eu debilitada desconheço, vem dar-me de beber a tua escuridão e na tua mão depositarei a rosa do mundo, o meu poema secular e seu entediante spiritus funebri, vem e separa o meu caminho em mil caminhos idênticos, que eu sempre escutei os sinais, à tosca luz da vela ou à sóbria disposição dos candeeiros, e que as funduras da minha alma sejam o altar da tua devoção, porque eu existo e não vivo. Vem, e atende a minha prece.


Nodula de Nomada

POEMINHA FRIO


Le Silence, Odilon Redon, 1911


É frio.

No mais, não sei
o que posso
dizer.
Há o que comer;
há o que beber;
há dias em que,
lá fora,
só o vento
há.

A FALÉSIA


Falésia, Alina Maria Sousa, 2007


No tempo esquecido do sexto rei de Portugal, uma pequena aldeia de pescadores residente junto ao mar veio a intitular-se de Póvoa de Ribeira de Sesimbra, então alargada pelos Descobrimentos e prestigiada pelas embarcações. No presente, ainda que o meu túmulo seja o abissal fio alado do d’Ouro ou a areia seca do Alentejo, o reino que sirvo tem a norte Al-Madan e os seixos ribeirinhos do Seixal, a nordeste a obscura terra das gentes piscatórias e do campo, hoje moderna vila industrial, o Barreiro. A leste, Setúbal, terra do sal e do estanho e a Sul e a oeste o Atlântico, ou Mar Tenebroso. Não sei até que ponto o meu testemunho, porque darei apenas sinal do meu testemunho, pode contribuir para o esclarecimento da história da alma do reino, mas ouvi que o estudo de uma só gota, extraída de um lago, pode esclarecer respectivamente à natureza do mesmo.
Não nasci na Península de Setúbal a primeira vez, mas a segunda, quando um fluído que subia das minhas vísceras abdominais escalava as costas para se alojar no cérebro, e me enchia de uma sede de morrer. Uma sede de mais não ser que vaga passageira, para sempre esmagada contra a costa, com o brilho ténue e fugaz da Lua. A minha imaginação preenchia-se de estranhas realidades que me não pertenciam nem aos homens, com as suas civilizações que pensara firmes e concretas. Provavelmente, também o monstruoso e serfáfico Éros tomava posse do meu sangue, com esse seu capataz da puberdade, ao que fui, já consciente de que o medo da morte não passa de ânsia pelo seu beijo, dirigido à falésia, para o acto malabarista do suicídio. Derrubei-me sobre a pedra, onde sangrei, mas a morte não se aproximou de mim. Ergui-me lúcido e trémulo, incapaz de controlar os espasmos, e falei com o mar, até que, encontrando-me demasiado cansado, o mar tomou as minhas palavras para lhes moldar a forma e o impulso. Untei-me com o meu fluido vital e deixei os anos passarem despercebidos sobre o marcante evento.

Um dia permiti-me retornar ao local preciso. Vigiei durante o período da noite, alternando entre o horror do silêncio e a sua tranquilidade, e, quando, ao raiar, adormecia, um salpico improvável veio despertar-me sem me emprestar ainda a força de me mover. Sonhei a solidão temporal dos vales, das planícies e das grutas profundas, a isolada montanha que se faz ilha, a tempestade e a calmaria. O vento namorava-me a pele aguada numa escuridão nostálgica, para nutrir a terra com prosperidade e saciar a sede da carne por satisfação. O meu corpo desfeito em sangue formava rios e lagos, que o relâmpago mudo fazia mover.
Prolonguei a minha estadia por uma mais noite, cantei e no amanhecer calado que se seguiu, na luz vinda da treva, o meu primeiro beijo, a minha primeira inalação. Da carícia da água que com desapego e intimidade se aproxima e se distancia, dos seus receptivos e envolventes espelhos, de novo o salpico. Com este, uma mulher devolveu-me a atenção. A cuidado, aproximei-me da água. O seu toque despia, não se assemelhava a uma massagem nem a uma carícia, mas roubava a tensão e criava uma ligação. Esta é a sua forma de me conhecer; ainda que nu eu não sinto frio e nela, até o gelo é quente.
De quando em vez, visito a falésia e podemos ser vistos como duas estátuas de um amor poente, sentados a observar o Mar Tenebroso por horas, ou de mãos dadas, voltados um para o outro, libertos em imóvel adoração.


Horned Wolf

Terça-feira, 22 de Dezembro de 2009

A NOSSA INTELIGÊNCIA AS ESTÁ VENDO



A nossa inteligência as está vendo
quando, da luz da sua rodeadas,
criam a brisa pelo movimento
com que entram para o espaço das palavras.
Por ora irem mensura ainda o tempo
de aparecerem zonas sombreadas
conforme vinca músculos o lento
vaivém de luzes que organiza a marcha.
Mas caminham de fora para dentro.
Dentro de brisas diáfanas
onde, enigmático, se esconde esse silêncio
de que surdem figuras entrando nas palavras.


Fernando Echevarría, in Figuras




Fotografia: Wasteland, Ruela, 2007

PRÉMIO DE ENSAIO FILOSÓFICO DA SPF – 2009




Estão abertas as candidaturas para a edição de 2009 do Prémio de Ensaio Filosófico da SPF. Este prémio é uma iniciativa da Sociedade Portuguesa de Filosofia, que conta com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e que tem como objectivo eleger, sob um critério de mérito absoluto, o melhor ensaio, submetido anonimamente a concurso, sobre uma questão considerada relevante numa determinada área da investigação filosófica. Nesta edição, a área seleccionada é a Filosofia da Acção e a questão proposta é a seguinte: Podem as razões subjacentes a uma acção ser as causas (eficientes) dessa acção? O prémio terá um valor de 3.500 euros e o ensaio vencedor será depois publicado na Revista Portuguesa de Filosofia. O regulamento pode ser consultado no sítio da Sociedade Portuguesa de Filosofia, em http://www.spfil.pt/. As candidaturas poderão ser apresentadas até ao dia 31 de Dezembro de 2009.

WASTELAND



WALKING ON ICE

Go! My ghost of dark shadows
Walking on ice. The white embrace
Of nothingness will remember your path
If the pure snow can forget the trace
Of evil blood and the soul's tempest. Go!
May the cold be the castle and the sorrow,
May the cold be. Walking on ice, so thin,
So clear, so dark – and find a place to rest!


Lord of Erewhon



Wasteland, Ruela, 2009

Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009

TOUR


Chateau Wood, Ypres (World War I), Frank Hurley, 1917



Augusto de Campos, 1994

ALMA ROTA DE AÇUCENA

Para a Biazinha


Coimbra, Eye of Horus, 2004


Olha que alma mais rota
Mais cheia de traça
É ela sibila na sombra da praça
Seu rosto aquilino
Caminho do mal
Psique de espectro, farrapo
Trapo de açucena
O seu mau-olhado é mais que um enfisema
É a alma mais baça que eu já vi praçar
Ah, dá-me um pouco de vinho
Sim, talvez antes um whisky
Que penso, logo desisto
E a beleza é uma quimera, um quisto
Dilata toda a merda que existe
Ah, se ela soubesse
Que quando ela praça
Coimbra inteirinha se enche de traça
Há lá coisa pública sem seu bolor


The Poisonous I



Se Por Acaso (Me Vires Por Aí), J. P. Simões & Luanda Cozetti, 2006

LUVA DE CHUVA

Dedicado ao The Poisonous I

We Are the Strange, M. dot Strange, 2007


Não há lugar para mim, onde o azul me cerca
De dia pintado, de noite lembrado, e o azul
Me cega, no teu grito cantado, em dança
Roubado, ao Deus que o Inverno enterra.

E os meus dedos azuis (pétalas)
Caiem sobre todos os palpitantes amantes,
Que sorriem, distantes, num sonho de ti,
Em que dançava cego envolta do calor, e queimava-me,
Em peles estrangeiras a neve lembrar,
De como já o corpo foi alma. Dentro do meu peito,
Tudo canta, por não haver leito:

Eis que é espada de coveiro, pá de mago,
A voz que vê, no corvo ofuscado,
Chuva que cai, queda, e escuta
Desfeita, quieta, as aves soltas,
Memórias de terra.


Horned Wolf

QUIETUDE


Ikon, Emil Schildt, 2002


Chovem saudades:
sobre o piano da sala
um porta-retrato se cala.

Domingo, 20 de Dezembro de 2009

EM TRÂNSITO

Para Tia Sam


Haymaking, Sára Saudková, 2002


Enquanto a vida fica à margem
– de passagem, a paisagem
passa o tempo da viagem.

O CANTO DA SEREIA


Danaë, Gustav Klimt, 1907


O suave canto do rouxinol
É somente um esgar retorcido
A par do tom que exaltas.
Exímia a melodia que é contigo,
Tua vida e teu querer,
Teu poder de ser,
Tua mania, tua vontade.
Sinfonia leda que me embala
E resguarda das teias da verdade.
Que adormeço no teu cantar,
Adormeço e avanço tão cega,
Que me cegas da alma o pensar.

ERA UM REI DO SOL ORNAMENTADO EM FOLHAS...

Bom Yule para todos!


Reflets Dans L'Eau, Rita Magalhães, 2006


Era um Rei do Sol ornamentado em folhas,
Um Rei milenar que dava a vida pelo solo que guardava.
Não um rei como outros de terras distantes,
Mas um soberano ancestral de Luz.

Era uma Rainha da Lua ornamentada de flores,
Uma Rainha milenar que gerava no seu ventre Vida,
Não uma rainha como outras de terras distantes.
Mas uma Senhora ancestral da Escuridão.

Era a Unidade tal como a conheceram,
Ele o Dragão, o galhado caçador.
Ela a Virgem, a Mãe, a Anciã.
Ambos portadores da chave da Vida.

No Outono, o Rei deitou-se para lá das colinas.
O solo cobriu-se de mantos brancos e a chuva caía cristalina.
A Rainha dera à luz a Criança da Profecia,
E então o Senhor da Vida renasceu.

O Sol, levantou-se novamente, nada pertence à Escuridão.
Aquele Cofre ornamentado, era do Todo Universal e
_________________________/transcendente.
A Senhora agora grande Mãe, pegou no seu tesouro,
Embalando-o nos braços vestidos de azevinho.

O Sol voltou a ser Dourado,
Nas montanhas e nos campos,
Iluminou a Terra,
Iluminou os céus,
Iluminou as águas,
Iluminou os fogos!

CICLO DA VIDA


Cow – Balerina, Jan Saudek, 2004


Nasceu plena de vida. Aos dez anos ficava feliz ao ver o pai chegar do trabalho. Aos vinte anos colocou uma mochila nas costas e saiu pelo mundo, combatendo as injustiças, puta da vida. Aos trinta, era uma jovem mulher cheia de vida. Aos quarenta anos, louca da vida, separou-se do marido. Sabia que ainda lhe restava da vida muitos anos. Calculou quanto gastaria até o fim dos seus dias e guardou o excesso num cofre. Continuou se fazendo e aceitando promessas e, aos cinquenta, cansada da vida de trabalhar muito e ganhar pouco, aposentou-se, aos sessenta.

JESUS


Le due madri, Giovanni Segantini, 1889


Comiam todos o caldo, recolhidos e calados, quando o menino disse:
– Sei um ninho!
A Mãe levantou para ele os olhos negros, a interrogar. O Pai, esse, perdido no alheamento costumado, nem ouviu. Mas o pequeno, ou para responder à Mãe, ou para acordar o Pai, repetiu:
– Sei um ninho!
O velho ergueu finalmente as pálpebras pesadas e ficou atento, também..
A criança, então, um tudo-nada excitada, contou. Contou que à tarde, na altura em que regressava a casa com a ovelha, vira sair um pintassilgo de dentro de um grande cedro. E tanto olhara, tanto afiara os olhos para a espessura da rama, que descobriu o manhuço negro, lá no alto, numa galha.
A Mãe bebia as palavras do filho, a beijá-lo todo com a luz da alma. O Pai regressou ao caldo.
Mas o menino continuou. Disse que então prendera a cordeira a uma giesta e trepara pela árvore acima.
De novo o Pai levantou as pálpebras cansadas, e ficou tal e qual a Mãe, inquieto, com a respiração suspensa, a ouvir.
E o pequeno ia subindo. O cedro era enorme, muito grosso e muito alto. E o corpito, colado a ele, trepava devagar, metade de cada vez. Firmava primeiro os braços; e só então as pernas avançavam até onde podiam. Aí paravam, fincadas na casca rija.
A subida levou tempo. Foi até preciso descansar três vezes pelo caminho, nos tocos duros dos ramos. Por fim, o resto teve de ser a pulso, porque eram já vergônteas as pernadas da ponta.
Transidos, nem o Pai nem a Mãe diziam nada. Deixavam, apavorados, mudos, que o pequeno chegasse ao cimo, à crista, e pusesse os olhos inocentes no ovo pintado. O ninho tinha um só ovo.
Aqui, o menino fez parar o coração dos pais. Inteiramente esquecido da altura a que estava, procedera como se viver ali, perto do céu, fosse viver na terra, sem precisão dos braços cautelosos agarrados a nada. E ambos viram num relance o pequeno rolar, cair do alto, da ponta do cedro, no chão duro e mortal de Nazaré.
Mas a criança, apesar de mostrar, sem querer, que de todos se alheara no abismo sobre o qual pairava, não caiu. Acontecera outra coisa. Depois de pegar no ovo, de contente, dera-lhe um beijo. E, ao simples calor da sua boca, a casca estalara ao meio e nascera lá de dentro um pintassilgo depenadinho.
E o menino contava esta maravilha com a sua inocência costumada, como quando repetia a história de José do Egipto, que ouvira ler a um vizinho.
Por fim, pôs amorosamente o passarinho entre a penugem da cama, e desceu. E agora, um nada comprometido, mas cheio da sua felicidade, sabia um ninho.
A ceia acabou num silêncio carregado. Só depois, à volta do lume quente do cepo de oliveira em brasido, é que os pais disseram um ao outro algumas palavras enigmáticas, que o pequeno não entendeu. Mas para quê entender palavras assim? Queria era guardar dentro de si a imagem daquele passarinho depenado e pequenino. Isso, e ao mesmo tempo olhar cheio de deslumbramento os dedos da Mãe, que, alvos de neve, fiavam linho.
E tanto se encheu da imagem do pintassilgo, tanto olhou a roca, o fuso, e aqueles dedos destros e maravilhosos, que daí a pouco deixou cair a cabeça tonta de sono no regaço virgem da Mãe.


Miguel Torga, in “Bichos”, 1940

 

RENASCIMENTO LUSITANO | O BAR DO OSSIAN