No tempo dos grandes mestres da Renascença ainda a arte era tutelada pelas grandes famílias que dominavam reinos inteiros, rivalizando umas com as outras. Mas o monopólio maior era detido ferreamente pela Igreja Católica, por toda a Europa, aliás: muitos artistas, os mais apetecidos pela fama e pela correspondência com o gosto dominante, produziam sob as directrizes do clero, quer ilustrando cenas de temática religiosa, num imaginário bíblico apertadamente coordenado pelas iconografias diocesanas. No século XIX, com as classes burguesas entretanto estabelecidas nos espaços onde o desenvolvimento comercial tinha um peso assinalável, abriram-se outras frentes de natureza sócio-cultural e as artes como que se deixaram contratar por novos grupos económicos.
Respondiam ao usufruto de mercados diferentes na forma, na relação, mas quase de todo alheios aos vários quotidianos, reincidindo na procura de figurações religiosas, cada vez mais híbridas pelo entrechoque do gosto e da formação por parte dos clientes. Apesar da dinâmica dos mercados, a ornamentação dos palácios e grandes moradias acontecia segundo aquele critério, mesmo prestando os seus bons ofícios a sociedades tendencialmente laicas. A arrogância intelectual chegava a submeter os ateliers de tapeçaria à imitação, em lã e em grandes dimensões, da pintura a óleo, então hegemónica. A tapeçaria evocava castelos de outrora, poder, diferença, luxúria morna dos apetites visuais. E o preço subia a quantias fabulosas, pois as verdadeiras obras primas desta arte, consumiam paletas de trinta, quarenta tons, partiam de um projecto próprio. Ao contrário, a imitação em grande escala de vulgares pinturas a óleo, implicava o uso de milhares de cores e tons, tintagens pobres em qualidade e duração, meticulosos ardis na tecelagem carregada de interrupções na trama.
Tudo se despojava de antigos e históricos adereços para reaquacionar, no fundo, os problemas básicos de sempre, mudando o lixo em volta. «Elementar, meu caro Watson». Elementar sim, mas não para esquecer milhares de anos de aprendizagens, o fundo e a forma de centenas de civilizações – as regras egípcias, a idealidade anatómica e proporcional dos gregos, a arquitectura dos senhores de Roma.
Num século assim, ruidoso desde o início, com a maior parte dos artistas entregues ao seu devaneio, empobrecidos e revolucionários, a sucessiva reivindicação de independência no trabalho criador acabou por gerar uma espécie de caos nos movimentos surgidos, a árdua emergência de deuses carnais, a vertiginosa gestação de figuras tutelares, mitológicas, génios convencidos de si. Mas isso envolvia já um conjunto de novas dependências, bons ofícios para outros patrões.
A ideia de emancipação, de fuga a um mecenato dirigista, aliás em decadência e em substituição por enquadramentos de mercado, atirou os operadores plásticos para pesquisas tão fascinantes quanto a manipulação pobre dos menos manipuladores. Os rumos alteravam e dividiam profundamente as raízes da velha estabilidade: muitos autores, apesar da incompreensão envolvente, faziam escolhas radicais, distorcidas, rompendo com quase todos os referentes deduzidos de lugares e pessoas, paisagens e almoços sobre a relva. Era como um alto muro na planície, rachado por esse raio divino que costuma alterar o mundo sem explicações. Aqui, além dos novos modos de formar, de rupturas ainda inacessíveis e muita irracionalidade, persistiam, numa das metades do muro, os artistas que conservavam a essência dos velhos mecanismos, mesmo aqueles que, na sua complexidade e custos, se deixavam orlar pela ferrugem, sugerindo riqueza, conferindo duração a alguns estilos de vida, a alguns tipos de beleza, resistindo ao desgaste do quotidiano, salas, vidros suspensos, raparigas mais soltas mas que ainda dedilhavam pianos e soletravam uma língua estrangeira – o francês fora de França. Todos sabemos que houve sempre autores nos dois lados do muro fracturado e envelhecido, divididos pela linha expressionista e cada vez mais incerta.
O fascínio do século XX, nestas áreas, foi imenso. Contudo, e aquém da utopia, entre impressionistas, cubistas, expressionistas, minimalistas, muitos outros simultaneamente, a memória das grandes obras comprometeu grupos de artistas, não para se entregarem à imitação delas mas para saberem, a fundo, o sentido da vida na própria oficina, como terá acontecido com o povo da Ilha da Páscoa. Falando desta difícil oficina, houve gente que se deteve a pensar no vazio e no ruído, passos em volta. Rauschenberg juntou o lixo à beleza clássica, criou grandes instalações parietais acusando a indiferença e mostrando o mundo. Não era portanto nem um problema de modernidade nem de coisas a mais ou a menos: uma arte que prima por não viver de dogmas ou de ideologias paralisantes, não pode fazer-se de e na indiferença.
1 Comment:
Rauschenberg está na minha lista dos melhores artistas de todos os tempos.
Abraço.
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