De vez em quando, não há mesmo tempo dentro da cabeça e os sentimentos que a invadem também precisam de alguma protecção. Por isso apesar do meu coração estar noutro dos sítios, hoje prefiro falar de alguma coisa que não seja dele e aqui chegamos ao tema deste post "retrasado":
Federação Ibérica.
Eu não quero!
Muito se tem falado deste assunto nestes últimos tempos, tendo pessoas que admiro tanto, como António Lobo Antunes, se pronunciado a favor desta ideia, tendo, obviamente, a sua teia de razões. Não me pretendo arvorar em defensor da pátria mas o cansaço da nossa "impossibilidade" de país, cansa-me.
É um facto que a nossa classe política e decisória é, na sua maioria, medíocre e desperançada. Exemplos abundam, infestam as águas. Como é possível, por exemplo, concorrer a um cargo de deputado Europeu em simultaneidade com um cargo autárquico (Elisa Ferreira, Porto)? Esta papice custa e o povo, anestesiado, não deixará de castigar a pouca vergonha e o mísero tacto. Como é possível que o CDS Nuno Melo vá ser enfiado em Bruxelas, quando é uma voz inteligente e carismática no parlamento? Outros exemplos haveria, mas apetece avançar. Estamos conversados e conformados, mas será Portugal só quem manda e quem esquece?
O meu historiador preferido (A. H. de Oliveira Marques) diz que Portugal é um acidente geográfico. Que não existe, na Europa do seu tempo, não do nosso, um país com independência física perante um colosso (Espanha) como este nosso canto. Isso não me deprime, anima-me. À boca pequena da História fala-se de razões. Conde D. Henrique de Borgonha, "ligações templárias", rouba o Porto(gal) a Espanha. D. Dinis, um século depois, concretiza o pinhal (madeira para as caravelas), parece um livro de Dan Brown, mas não é especulação pior ainda, para verificar de onde vem o trauma da nossa impossibilidade: da nossa radical origem. Porque somos país então? Por interesse visionário, por perseverança, porque Espanha deixa?
A Federação Ibérica é fruto do ressentimento que todos temos contra o nosso país e que não conseguimos resolver de modo algum. É o capitular, a desistência e ao assumir que o nosso país nunca, historicamente, teve muito sentido. É o gasóleo mais barato em Espanha, é o viver melhor, é a prestação e é a relva mais verde no quintal do nosso vizinho. Às vezes parece-me que as pessoas que o dizem nunca foram à Espanha, melhor às "Espanhas" que os reis católicos forçaram juntas e que assobiam ao hino e não o acompanham em Bilbao. Portugal, até no exercício político de ser uma província Ibérica, nunca seria a Catalunha. Não por nos faltar identidade, mas por ela divergir, e como, dos nossos vizinhos geográficos. Já encontrei mais semelhanças com Gregos do que com Espanhóis.
Não levem para o caminho errado, adoro Espanha, porque é Espanha e pelo seu tamanho consegue, muitas vezes, ser mais nação que nós. Porque talvez ninguém questione tanto o seu direito a ser nação e a ser, manta de retalhos ou país, o direito a ser. É mau e terrível deixar o ressentimento falar. Sim, este é o país Cronos, devorador dos seus filhos, mas mesmo assim um país com voz própria e atitudes, mesmo deploráveis, que eu nunca encontrei em parte alguma do mundo. Lembra-me a África do magnífico livro de Obama "Dreams from my Father", a propósito de uma refeição na casa de uma historiadora no Quénia: "Olhem para a refeição de peixe que comemos (...) muita gente vos dirá que os Luo são um povo que só comia peixe, bem é verdade mas só os que viviam ao pé do lago (...) antes de assentarem, eram pastores como os Masai. (...) os Quenianos orgulham-se do seu chá mas adquirimos este hábito dos Ingleses. Os nossos antepassados não beberiam tal coisa. E os molhos usados no peixe vêm da Índia ou da Indonésia. Vêem? Nesta refeição não encontrarão o autêntico que os jovens negros americanos buscam em África – embora a refeição seja genuinamente Africana."
É nesta autenticidade, neste invisível cheiro a terra de país, nesta mistura pós produzida numa nação que nos temos, hoje e sempre, de concentrar. Porque não estamos aqui por acaso, porque não gostamos do país só pelas suas qualidades mas que temos de aprender a lidar com força com as suas contingências e horrores, tal como fazemos, ou devíamos fazer com as pessoas. Porque não podemos deixar o ressentimento falar mais alto que nós. Porque usar um crachá de Portugal não é usar uma suástica (e mesmo que o fosse, a suástica era um símbolo de paz e movimento até ser invertido por homens, os nazis, que não tinham noção de nação mas sim de um mundo robótico e perversamente feito à imagem da sua fraqueza, eram políticos, não viviam nas ruas). Porque faz sentido termos chegado aqui e não podermos desistir e nos vendermos ao gasóleo mais barato, à ideia de uma Califórnia espanhola, à ideia de que os homens de cultura serão em Espanha melhor tratados.
Portugal pode ser um país de asnos mas será sempre um país. Leiam o final da "Ilustre Casa de Ramires", que o Eça sabe melhor que todos nós.
Fernando Ribeiro,
8 Comments:
Depois digam que o cabelo comprido rouba as ideias... e que a malta só pensa no Satã! (-_+)
Lord of Erewhon
Muito bem dito, tudo, um viva ao Fernando Ribeiro.
Gostava de ter a confiança do Fernando neste país, mas confesso que às vezes fraquejo...
Hail!
(Eu disse «Hail».)
Abraço, Fernando.
Exceto por uns três anos, uso cabelo comprido desde que me entendo por gente. E, também, jamais me associaria a um clube de espanhóis.
Um abraço!
Parabéns pelo texto. Já lhe fiz a devida referência na NOVA ÁGUIA:
http://novaaguia.blogspot.com/2009/06/ha-por-aqui-algum-iberista.html
Abraço MIL
Portugal!
Deixo-te o... meu aplauso! De pé!!!
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