MANIFESTO


O que em filosofia política se chama «ideário», em poesia só pode chamar-se «escola».

Se podemos falar de uma «renascença portuguesa» é porque Portugal existe.

A identidade de uma pátria alicerça-se num conjunto de específicos, de traços culturais únicos, de um perfil étnico.

A poesia que assume ser a voz de uma nação é um clarim solitário.

Nem queremos saber dos vossos gozos e das vossas dores se não forem Portugal. Enviem para França os chiliques, o boudoir, as cartas perfumadas. Enviem a quem pertença tudo o que é verme neste chão.

Estes que se adiantam, que esporeiam as montadas e erguem o rosto impoluto diante do que ainda não é, chamamos-lhes poetas, vates, profetas, doidos, proscritos – o que quiserem. Por eles falam as pátrias, as eras que a História não guardou.

Do meu lado estão os bardos dos Lusitanos, mesmo que me digam que não existiram.

Toda a poesia, toda a palavra, o gesto sequer, o olhar, que não se erguer do sangue singular desta Pátria dos Portugueses Ibéricos – é lixo e aqui não pertence.

Os poetas são as antenas da raça.


Lord of Erewhon



«Artists are the antennae of the race but the bullet-headed many will never learn to trust their great artists.»

Ezra Pound


Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

BAR ABERTO

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O Bar do Ossian
expressa a todos os seus colaboradores, farruscos e menos farruscos, meninos e anciãos, lolitas e balzaquianas, Lusitanos, Godos, Árabes, Celtas, Judeus, adoradores de homens, de anjos, de deuses, de gajas boas e gajos bons, ateus e crentes, republicanos e monárquicos, fanáticos da Direita e fanáticos da Esquerda, amantes de pastéis de bacalhau e deglutidores de Vodka, vivos, mortos e mortos-vivos, quietos e agitados, de cá e de lá, poetas, romancistas, músicos e pintores, profetas, sacerdotes, bruxos e filósofos – UM LUMINOSO 2009!!

Que o ar, a luz, o mar e o chão nos inspirem e protejam. Longa vida para todos nós e para as nossas pátrias!

Obrigado por estarem n'O Bar connosco.
Abraço lusitano!
A Redacção


Imagem: gif, Ruela, 2008

BOCA DE CENA, A Vida é um Grande Cabaret



Ana Lúcia Palminha, Cabaret, Maria Matos,
encenação de Diogo Infante, 2008


Cabaret estreou pela primeira vez na Broadway, em 20 de Novembro de 1966. A primeira versão deste musical partiu do livro do inglês Christopher Isherwood, denominado Adeus a Berlim, denunciando toda a espectacularidade inerente à decadência de uma Berlim no início dos anos 30 que, já empoleirada na forca erguida pela mão do governo nazi, se tenta evadir – ao mesmo tempo que responde cinicamente aos incontáveis sinais apocalípticos que começam a emergir como resultado da aglutinação de pequenos “teatros” obscenos individuais, sufocando, pela calada, toda a sociedade alemã –, na magia do cabaret, tornando-se assim um exemplo da importância tremenda que a arte pode assumir como delatora de uma sociedade dividida pelas suas próprias contradições políticas, morais e sociais.
Funcionando como que num transístor de todos os podres transmutados e travestidos num palco burlesco, usando-se da sátira, do cinismo e da metáfora para os denunciar e, desta feita, condenando-os à verdadeira pequenez e idiotice que os continuam a fazer nascer e emergir, este cabaret é um espectáculo dentro do espectáculo com o mesmo nome, fazendo-nos pensar acerca da pertinência e contemporaneidade da sua temática nos nossos dias.
É então sobre este mote que se desenrola o musical Cabaret, que Diogo Infante tão audaciosamente nos trouxe ao palco do teatro Maria Matos.
Willkommen, bienvenus, welcome…! Fremde, etranger, stranger, Gluklich zu sehen, je suis enchante, Happy to see you, bleibe, reste, stay! Willkommen, bienvenue, welcome…! Im Cabaret, au Cabaret, to Cabaret!

É ao sabor destas boas vindas do Mestre de Cerimónias (Henrique Feist) que somos recebidos e convidados a mergulhar na história de Sally Bowles (representada por Ana Lúcia Palminha e Sara Campina, substituta), inglesa que trabalha como cantora e bailarina no Kit Kat Klub em Berlim e Cliff Bradshaw (Pedro Laginha), um promissor escritor americano que se apaixona pelo espírito libertino e pelo talento desmesurado de Sally.
Ambos são confrontados com as consequências da ascensão do regime e com o anunciado desfecho trágico que há muito Berlim auspiciava.


A não perder, no teatro Maria Matos, a excelente encenação de Diogo Infante: Cabaret, de 10 de Setembro a 15 de Fevereiro, Quarta a Sábado às 21.30, Domingos às 17h.

De que vale a pena Ficar só e sentado no seu quarto, Venha ouvir a música tocar! A vida é um grande Cabaret,
Venha ao Cabaret!


Antígona

NOTÍCIAS DE VERA CRUZ, Ave Maria e Bachianas por Jorge Aragão


Para coroar o último dia do ano com o som da esperança a abençoar o próximo ano, Ave Maria de um jeitinho bem brasileiro... por Jorge Aragão: 30 anos de carreira e reconhecido primeiramente como compositor que, segundo sua página na internet, é gravado por 9 entre 10 estrelas da música brasileira, principalmente do samba.

Feliz Ano Novo! Amém!



Ave Maria (J. S. Bach-Charles Gounod, 1859) e Bachianas (Ária Cantilena Nº1, 1938, Heitor Villa-Lobos), Jorge Aragão

RENASCIMENTO LUSITANO (PAIDEUMA), Modelo: Prosa



Combat de Giaour et Hassan, Eugène Delacroix, 1826


JUNTO AO CHRYSUS

[…]
De repente o grito de «Allah!» retumbou de além do Chrysus: seguiu-se um estridor de poucas frechas, e num instante os atalaias do campo viram alvejar fitas de escuma que se estendiam através do rio para a margem esquerda. Eram os esculcas que o cruzavam a nado, tendo empregado na dianteira dos godos os seus primeiros tiros.
Uma nuvem de setas respondeu ao sibilar das dos esculcas arábes; algumas das fitas de escuma ondearam, derivaram pela corrente e desvaneceram-se no dorso escuro e cintilante das águas. O Chrysus recolhia os primeiros despojos de um terrível combate.
Na principal atalaia dos muçulmanos soou então uma trombeta; centenares delas responderam por todos os ângulos do campo a este convocar para a morte. Os esquadrões uniam-se com a rapidez do relâmpago e, abandonando o recinto das tendas, arrojavam-se para as margens do rio.
Os godos, porém, tinham a vantagem de caminharem ordenados e, por isso, haviam topado com a corrente antes que os seus contrários começassem a atravessar a planície fronteira. As frechas caíam sobre os árabes, que se aproximavam, como saraiva espessa; largas e sólidas jangadas, trazidas em carros puxados por mulas possantes da Lusitânia, baqueavam sobre a água e, desdobrando-se com engenhosa arte, cresciam até entestar com a margem oposta. Então, os melhores cavaleiros godos, curvando-se para diante, com o franquisque erguido, corriam para as pontes, vergadas debaixo do peso dos cavalos e dos homens cobertos de armaduras, e vinham bater em cheio nos corredores árabes, que, no meio das trevas, não podiam esquivar-se aos golpes do ferro inimigo. Já, nas bocas de algumas dessas estradas movediças, os cadáveres amontoados começavam a embargar os passos dos vivos; mas por outras, onde os árabes ainda mal ordenados e menos numerosos não tinham podido resistir ao ímpeto dos godos, golfavam torrentes de guerreiros, que, marchando unidos para uma e outra parte, acometiam de lado os árabes, os quais, feridos pela frente e pelas costas, vacilavam e retrocediam. Debalde a voz retumbante de Táriq sobrelevava por cima dos gritos de furor e de agonia de muçulmanos e cristãos. O número dez vezes maior dos godos tornava impossível a resistência, e a passagem do exército de Roderico para a margem esquerda do Chrysus só Deus a poderia impedir.
[…]


Alexandre Herculano, in Eurico o Presbítero, Livraria Bertrand, Lisboa, 1979, pp. 90, 91.




DERRUBADOS OS PORTÕES DA MORTE

[…]
Biddy Early foi uma «sábia» famosa, e a árvore grande de Raheen um ulmeiro majestoso, junto ao qual muitas pravidades e algumas boas graças sucederam a diversas pessoas. Poucos sabem tanta coisa dos «outros» como Mrs. Sheridan, e se alguém a convencesse a revelar os seus conhecimentos e a praticar as curas que com «eles» aprendeu, seria também ela uma «mulher sábia», demandada talvez por peregrinos dos condados vizinhos. É, contudo, muito circunspecta, e foi necessário ganhar a sua confiança para vê-la expandir-se, com algum receio, não obstante, da ira dos «outros», e contar-nos, a mim e a uma amiga, os prodígios que lhes observara. Limitara-se, até aí, a contar-nos histórias que ouvira a terceiros, mas desta vez começou:
«Um dia, viva eu em Cloughauish, afogaram-se dois rapazinhos no rio. Um contava oito anos e o outro onze. E eu saíra pelos campos, enquanto as gentes procuravam os corpos no rio, e vi um homem vir subindo o campo de mãos dadas com os dois rapazinhos e levando-os não sei para onde. E viu o homem que eu me detinha e os observava, e disse: «Tem cuidado, não tentes tirar-mos (pois ele sabia que eu tinha poder para isso), pois tu mesma tens uma filha em casa, e se mos tirares nunca mais a verás a cruzar a porta.» E um dos meninos furtou-se-lhe e deitou a correr na minha direcção, mas pôs-se o outro de gritar-lhe: «Ó Pat, não me deixes sozinho!» Tornou atrás o menino e o homem levou-os consigo. Vi depois outro homem, e muito alto era este, e muito corcovado, que assim me olhava, com a geba mais alta que a cabeça; e trazia com ele dois cães, e vi logo aonde os levava e ao que ia com eles. E quando ouvi dizer que os corpos estavam sendo expostos, acorri à casa onde estavam para mirá-los, e não eram certamente os corpos dos rapazes os que ali jaziam, mas os dois cães que haviam sido postos em seu lugar. Conheci-os por uma espécie de listas que havia neles, quais as que há nas coberturas dos enxergões. E bem sabia eu que os rapazes não podiam estar ali, após ter visto que os levavam. E foi por esses dias que perdi o olho, de algo que lhe sobreveio, e nunca mais me assistiu a vista dele.»
Os «outros» são muitas vezes descritos como envergando roupas às riscas, como é o pêlo dos cães às riscas.
As histórias da gente do campo sobre os homens e as mulheres levados pelos «outros» derramam uma luz claríssima sobre as muitas coisas dos velhos poemas e fábulas celtas e, quando mais histórias forem recolhidas e comparadas, provável é que modifiquemos algumas das nossa teorias sobre a mitologia celta. Os antigos poetas e efabuladores celtas dispuseram de esplêndidos símbolos e analogias, agora defuntos, mas as mesmas coisas sobre que escreveram são as de que os homens e mulheres do campo falam junto à lareira.
[…]


Lady Gregory & W. B. Yeats (1898), in As Tribos de Danu, Escritos sobre a tradição e a mitologia irlandesa, W. B. Yeats, Usus Editora, Lisboa, 1995, pp. 162, 163. Prefácio, selecção, tradução, notas e glossário de Francisco Luís Perreira.




LITERATURA ÁRABE, 02

O espelho do carrasco

– Disseste que és poeta?

De onde vens? A tua pele é macia...
Carrasco, ouves-me?
A sua cabeça é para ti,
leva-o, e dá-me a pele, mas tem cuidado, não lhe toques,
a pele é-me muito apetitosa, muito cara...

será o meu tapete a tua pele
será o mais belo veludo,

disseste que és poeta?


Adónis (Adûnis)
Tradução: André Simões

مِرآةُ السياف


- هل قلتَ إنّكَ شاعرٌ؟

من أين جئتَ؟ أُحِسّ جلدَكَ ناعماً...

سيّافُ تسمعُني؟

وهبتكَ رأسَه،

خذهُ، وهاتِ الجلْدَ واحذَرْ أنْ يُمسّ
الجلدُ أشهى لي وأغلى...

سيكونُ جلدُك لي بساطاً
سيكونُ أجملَ مخملِ،

هل قلتَ إنّكَ شاعرٌ؟



Poupo-lhes os tradicionais lugares-comuns sobre a dificuldade da tradução, sobretudo quando poética, mais ainda quando feita por alguém como eu, perfeito incompetente e ignorante nas artes da poesia. Recordo que estas traduções servem-me apenas para ir desenvolvendo os meus conhecimentos de Árabe. O poema aqui apresentado, como todos os que tenho trazido, é uma tradução quase literal, se não contar com um ou outro ajuste menor, de forma a tentar reproduzir o ritmo do texto original. Assim, e porque a poesia é também som, apresento uma transcrição fonética, recorrendo à mais corrente forma de o fazer, e que é reproduzida aqui. Não indico sílabas tónicas, pois o Árabe não aplica o conceito da mesma forma que a generalidade das línguas indo-europeias: a prosódia árabe clássica (retomada no Árabe padrão moderno) baseia-se na quantidade, não na intensidade. Respeitarei o tipo de leitura mais comum,, a usada por exemplo na recitação do Alcorão, omitindo as vogais casuais em fim de período. Os infaustos utilizadores de Windows poderão ter dificuldades para visualizar alguns dos caracteres.

mir'âtu s-sayyâf

hal qalta 'innaka šâʿir?

min 'ayna ji'ta? 'uḥissu jildaka naʿim...
sayyâfu tasmaʿunî?
wa-hibatuka ra'isahu,
ḫuḏhu, wa-hâti l-jilda wa-ḥḏar 'an yumassa
al-jildu 'ašhâ wa-'aġlâ...

sayakûnu jilduka lî bisâṭ
sayakûnu 'ajmala muḫmal,

hal qalta 'innaka šâʿir?

RENOVATIO

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Renovatio, Ruela, 2008


Rage Hard, Frankie Goes to Hollywood, 1986

NOVO LIVRO DO NOSSO COLABORADOR ROCHA DE SOUSA

.
Editado pelo Círculo de Leitores, já se encontra nas livrarias o romance A Casa, de Rocha de Sousa, começando em Janeiro próximo os lançamentos formais nas livrarias.


A Casa, Rocha de Sousa, 2008, Círculo de Leitores



Rocha de Sousa nasceu em 1938 na cidade de Silves, pintor e crítico de arte, escritor e professor universitário, pertence a uma geração que viu de perto os horrores da Guerra Colonial (cumpriu o serviço militar em Angola de 1961 a 1963, de que nos deu relato na obra Angola 61 – Uma Crónica de Guerra, editora Contexto, 1999), e tem um visão multifacetada e complexa sobre o país e a sociedade portuguesa.

Em breve O Bar do Ossian apresentará recensão da obra, mas deseja, desde já, o favor dos deuses no sucesso deste novo título e longa vida e um 2009 inspirador ao autor.


Mais sobre o autor – e algumas das suas telas – aqui.

ANDARILHO, 2 (Anotações de Um Desterrado)


O Rio Douro, Dórdio Gomes, 1935


ERROS meus, má fortuna, amor ardente* me precipitaram nesta cava do tempo, depois do rio de névoa eterna, esqueci o sabor do leite e do mel, o odor da chuva, a prata bailarina da brisa e o retorno das cegonhas na estação dos cardos, a canícula abraçou o gelo dos cumes, congelada e igual, como uma torre fantasma no delírio dos sonhos, uma haste de frio e lume, e a minha palavra desceu à sombra. Deitei-me no chão, entre os mortos, e os vermes encheram-me a boca de terra, o sudário pesado da morte que me cala, fosse um segredo, transformou-me, primeiro na obra da carne, para que não lhe resistisse a alma, vencida, então, para a erguer no Outono seguinte ao ouro. Não me lamentem, as aves e os regatos, as mulheres e os santos.

* Um verso de Luiz Vaz de Camões.


Jesus Carlos

Terça-feira, 30 de Dezembro de 2008

ESPERANDO AS BÁRBARAS


The Main Attraction, Terry Rodgers, 2004


Barbie, Tippie ou como você chame,
Janet, Condolezza, Lynndie,
não é mais que uma boneca.
Não como Konstantin,
que amava os homens e por eles caiu
nos bordéis de Alexandria
anunciando homens
como os de vocês.

Vocês são demais.

Anseiam romances
enquanto seus homens explodem cabeças
de porco no mundo velho.

Vocês sabem tudo sobre sexo
e lêem revistas pornográficas em banheiros iluminados,
controlando hormônios.

Vocês são hiper.

Jovens americanas, como vocês, mas do Sul,
também ousadas, desde dez anos vendem o corpo
para comer. Os abutres comem delas.

Vocês ensinam as mulheres a serem liberadas
Usando as mais modernas técnicas
para conseguir prazer.

Todas as mulheres do mundo aguardam o ritmo
que a superestrela virgem ditará,
apertada em corpetes e botas militares.

Vocês são o rosto das mulheres do mundo.
Que será de nós sem as barbies?


Marília Kubota
A autora diz do poema...

CADERNO DE TELAS, The Bluee Fairy Whispers to Pinocchio, Paula Rego



Não havia recanto no lugarejo onde não ecoassem as tropelias do pequeno Gepetto. Passava o dia em correrias, como se perseguido por uma multidão de diabretes, em gritos estridentes e ditos sonantes para qualquer um que com ele se cruzasse. Arrancava sorrisos ao mais carrancudo dos homens, não havia como resistir à carita de anjo em corpo de mafarrico. E lá ia cativando todos, entre ralhetes emaranhados, sobrolhos que não se deixam franzir e piscar de olhos coniventes, o petiz ia passando feliz pela sua meninice.
Com a mãe, a história era outra. A pobre senhora não sabia o que mais fazer, se olhar para o lado, fingindo nada ver, ou armar cara má e descompor o rapaz. O melhor pedaço do dia era a noite, quando cansado, o corpo franzino cedia ao sono e a casa mergulhava numa estranha e ansiada acalmia. Sossegava então, embrulhada num xaile, recostada na velha cadeira de balouço, sem nada fazer senão ouvir o cantarolar dos grilos no escuro da noite.
Do outro lado da cortina, no colchão de palha de milho encostado a um canto, Gepetto cavalga por terras distantes, em fantásticos animais ainda por inventar. Nos sonhos, o terreno da sua fantasia, voa no dorso de aves colossais, mergulha em mares profundos e plana, de braços abertos ao céu, por vales coloridos a rasar a copa das árvores.
Seria pelo rosto da mãe, contrafeito todo o dia, o sono chegou mais agitado. Sentia o corpo estranho, a ranger, em movimentos desarticulados; parecia não lhe pertencer. Foi então que percebeu… um terrível encantamento tinha-o tomado, estava aprisionado num corpo de madeira.
Pernas, braços, dedos, nariz… tudo soava ao truz-truz de quem bate à porta.
Pau! Era feito de pau!
Era castigo, estava condenado. Nunca mais poderia rebolar monte abaixo entre as ervas macias, sentir o cheiro da chuva nas roupas encardidas, comer as colheradas de mel tiradas à socapa…
Gepetto estava tão triste, que levou a mão ao rosto para limpar as lágrimas prestes a estourar. Mas… nada; os olhos secos, pintados entre nós de madeira, não soltavam a mais pequena aguadilha.
Correu para a mãe, em pânico, envergonhado pelo castigo que pressentia merecer.
Ela sossegou-o com palavras doces sopradas ao ouvido.
Está tudo bem, meu anjo, foi só um sonho mau.


The Blue Fairy Whispers to Pinocchio, Paula Rego, 1996

ÁGUIAS *, Um Inédito de Agostinho da Silva


The Heart Has Its Reasons, Odilon Redon, 1887


Ide, portugueses, ide! Afrontai as tempestades, os ventos sibilantes.
Segue-vos num olhar de ansiedade e de ternura a Alma Portuguesa; assim Ela outrora olhava os seus nautas destemidos que cortando o mar descobriram a Índia e o Brasil.
Tombastes, águias lusitanas!
É o Adamastor do ar, fremente de raiva e de desespero que vos corta a passagem.
Mas as caravelas do Gama não temeram os rugidos do gigante que se torcia em paroxismos de furor, não recearam as suas profecias horrendas, porque sabiam que a Cruz de Cristo que lhe esmaltava as velas e lutava com temporais no tope dos mastros os protegia.
Heróis, avante!, que Nun’Álvares ergue-se do seu tumulto e vai orar por vós na magnificência rendilhada da Batalha; avante! que D. Henrique no cimo dos rochedos de Sagres olha-vos, como dantes, para procurar nas curvas do horizonte as asas brancas da nau de Gil Eanes.
Duarte Pacheco e Afonso de Albuquerque, Bartolomeu Dias e Gonçalo Velho vêm vibrar em vós a Alma de Portugal, a Alma que palpitou em Cochim, em Ormuz, no Cabo da Boa Esperança.
Camões apara a pena, a velha pena das iluminuras dos «Lusíadas» –, o livro de Horas da Pátria Portuguesa; e em letras de ouro escreve a «Epopeia do Ar».
Das campinas verdes do Minho aos campos quentes do Algarve, das serranias da Beira aos fios de água da Veneza lusitana um frémito de patriotismo percorre o povo português e eleva-se aos ares azuis, os ares que agora sulcais, a voz de Portugal.
– Salve, Heróis! Obrigado, gigantes!


2 Junho 1922 [datação manuscrita]



* «Águias», O Comércio do Porto, Porto, Ano LXVIII, n.º 129, 2 de Junho de 1922, p. 1 (Victor Alberto, pseudónimo de Agostinho da Silva).

Fonte: blogue Nova Águia.

E-MAIL DO INVESTIGADOR JOAQUIM FERNANDES A INFORMAR DA SUA MAIS RECENTE OBRA

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Amigos,

Simplesmente chocante como nos habituámos a desprezar a inteligência ao longo da nossa História!
Numa época em que a nossa auto-estima nacional anda pelas ruas da amargura, tomo a liberdade de lhes reenviar uma súmula de uma obra que identifica os motivos das nossa amarguras e constrangimentos. Recomenda-se a sua leitura, urgente e obrigatória, a todos os cidadãos, sem limite de idade ou ideologia. Não receiem corar de vergonha.
Trata-se de "O Grande Livro dos Portugueses Esquecidos", um inventário do "Portugal lá fora", singular e surpreendente, que revela um rosário de vidas excitantes e exemplares de Portugueses que não tiveram lugar no seu próprio país por intolerâncias de vária ordem.
É em simultâneo um diagnóstico das causas dos nossos atrasos seculares e uma homenagem a tantos ilustres compatriotas que a nossa memória colectiva não reconhece.
Passem palavra. Incendeiem as consciências.

Saudações,
Joaquim Fernandes



O Grande Livro dos Portugueses Esquecidos, Joaquim Fernandes, Círculo de Leitores, 2008


Sabia que na corte de Catarina, a Grande, existia um médico português? Próximo da czarina, Ribeiro Sanches serviu a soberana russa sendo considerado um dos grandes percursores da reforma pombalina. Em Londres ardeu em praça pública Cavaleiro de Oliveira, escritor e diplomata que não se quis calar editando polémicos escritos. Encarcerado na Junqueira morreu aquele a que os alemães chamaram de "Newton português" – Bento de Moura, físico e inventor. Herói da independência do Brasil, Andrade da Silva descobriu o terceiro elemento químico, o lítio.

Talentosos, lutadores e por vezes ignorados em vida, contam-se os atribulados percursos de vida de homens e mulheres que, dentro ou fora do país, deixaram um inquestionável contributo.

Esquecidos, mas de extraordinárias vidas, é na verdade uma aventura a descoberta destes portugueses pelo mundo...


Crítica (Tiago Cavaco, Revista Ler):

«É revelador que O Grande Livro dos Portugueses Esquecidos seja também e em grande medida uma colecção dos mais nobres traidores da Pátria. Traição aqui como a mais sublime devoção possível a um país. Boa parte desses valorosos concidadãos foi em vida apelidada de Judas pela sua própria terra. O mínimo que se espera é postumamente fazer justiça às suas memórias. [...]
Deveria ser um manual escolar.»


Do Prefácio (Carlos Fiolhais):

«Cientistas, escritores, matemáticos e inventores que deixaram um importante contributo em áreas como a química, a lógica, a física, a medicina. Resgatando muitas dessas figuras ao esquecimento, o historiador Joaquim Fernandes concretizou uma inédita pesquisa sobre os homens e mulheres que deixaram uma inquestionável marca na História. [...]
A identidade nacional faz-se a partir da memória, mas a memória portuguesa é estranhamente selectiva. O historiador Joaquim Fernandes, neste seu livro bem documentado sobre os "portugueses esquecidos", vem lembrar-nos muitos nomes que, apesar de o merecerem, não têm conseguido passar no crivo da nossa memória colectiva. As razões serão as mais variadas. Mas talvez a mais comum seja o facto de grande parte desses notáveis se terem ausentado do seu país natal (ou permanecido ausentes do país natal de seus pais). Muitos deles perseguidos na sua própria terra foram para longe e ficaram longe na nossa memória. Outros ficaram por cá, desafiando condições difíceis, mas foi como se tivessem ido para longe. Também foram injustamente ignorados.»


Da Introdução
:

«Invocamos neste inventário – que não poderia ser definitivo, antes ilustrativo – o tríptico em que assenta o afrontamento e a incompreensão da sociedade portuguesa perante muitos criadores e pensadores da diversidade científica e cultural, das heterodoxias ideológicas e religiosas: errância, ignorância, intolerância, definem, a nosso ver, os nódulos conflituais que resulta(ra)m do cruzamento entre as minorias mais inconformistas e o corpo maioritário da nação.
Pretende-se com esta divulgação histórica recuperar a memória de um longo cortejo de portugueses cuja obra, vilipendiada ou cerceada por obstáculos ideológicos vários, se diluiu nas ruínas de uma injusta amnésia colectiva. De uma forma didáctica, este espaço visa ajudar à formação de uma opinião leitora mais crítica que propicie novos espaços para a tolerância, incentive o reforço da nossa auto-estima comum e incorpore um conhecimento mais justo dos préstimos da cultura científica portuguesa para a constituição do saber universal.»


Sobre o autor:

Joaquim Fernandes, historiador, professor e investigador na Universidade Fernando Pessoa, co-fundador do Centro Transdisciplinar de Estudos da Consciência. Especialista no estudo do imaginário português, fascinado pelo mistério, o insólito e o sobrenatural, começou a sua carreira de autor por publicar «Ovnis em Portugal» (1978), seguindo-se os títulos «Intervenção Extraterrestre em Fátima» (1982), «As Aparições de Fátima e o Fenómeno Ovni» (1995), «Fátima, nos Bastidores do Segredo» (2001), «Heterodoxias para o Século XXI: novas fronteiras da Ciência» (2001), «Silenciados e Silenciosos» (2005) e «O Cavaleiro da Ilha do Corvo» (2007).

POESIA, AMOR E LIBERDADE *


ana ab: figurino para poema de Cesariny


Poema Pintura Colagem Colagem

Para que as estrelas não ataquem os barcos à deriva
A floresta escondeu-se atrás do Pássaro
O sol pôs um ovo de ouro no horizonte e
Abriu asas de águia sobre o mar
E entre a terra e o céu gira um cometa
É a lua frita como um ovo estrelado
As pedras têm orelhas pra comer a hora exacta
E tu tens um amigo no Vampiro, embora penses o contrário


Mário Cesariny, in Primavera Autónoma das Estradas


* É o que desejo para todos no ano de 2009.

Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008

CONVENTO DE MAFRA


Referência Histórica

Mandado construir por D. João V, o Real Convento de Mafra é o mais importante monumento do barroco português. O conjunto arquitectónico desenvolve-se simetricamente a partir de um eixo central, a basílica, ponto principal de uma longa fachada ladeada por dois torreões, localizando-se na sua zona posterior o recinto conventual da Ordem de São Francisco da Província da Arrábida. A direcção da obra coube a João Frederico Ludovice, ourives alemão, com formação de arquitectura em Itália. As obras iniciaram-se em 1717. A 22 de Outubro de 1730, dia do 41º aniversário do rei, procedeu-se à sagração da basílica. O Palácio-Convento possui uma das mais importantes bibliotecas portuguesas, constituída por cerca de 40 000 livros, e numerosas obras artísticas encomendadas pelo monarca no país, em França, Flandres (de onde procedem os dois carrilhões de 92 sinos) e Itália. Durante o reinado de D. José criou-se a Escola de Escultura de Mafra, dirigida pelo italiano Alessandro Giusti, e por onde passou Machado de Castro.



No reinado de D. João VI, o Palácio foi habitado durante todo o ano de 1807. A maior parte do tempo, todavia, o Palácio-Convento foi visitado apenas esporadicamente e o mesmo se passou depois de regressada a corte a Portugal. Daqui partiu para o exílio o último rei português, D. Manuel II, a 5 de Outubro de 1910, depois de proclamada a República.



Biblioteca

A maior parte dos livros foi encomendada por D. João V e versam temas diversos como Direito Civil e Eclesiástico, Medicina ou Física Experimental.
Existem cerca de 38.000 exemplares. Para a sua conservação contribuem os morcegos que aqui habitam, os quais não permitem que as traças destruam as obras.



Basílica

Aqui se encontra a melhor colecção de estátuas italianas existentes em Portugal no segundo quartel do século XVIII. Possui um conjunto sonoro de seis órgãos , únicos no mundo, para os quais existem partituras que só aqui podem ser executadas.
Os Carrilhões, encomendados por D. JoãoV , são consideradaos como ops melhores do mundo. Tocam valsas e contradanças. Têm em conjunto 92 sinos e pesam cerca de 217 toneladas
No total, a Basílica possui 11 capelas com 450 esculturas de mármore, 45 tribunas e é servida por 18 portas.
Todas as cerimónias da Basílica eram acompanhadas de canto Gregoriano. D. JoãoV, apreciador da mesma arte, reunia-se com frequência com os frades, chegando a cantar com eles no coro da Basílica.



Curiosidades

Ratos gigantes e túneis

Muitas são as lendas acerca do Palácio de Mafra. A mais popular é a da existência de ratazanas enormes capazes de comer pessoas. Embora os subterrâneos do Palácio tenham sido explorados e não tenham dado mostras de ser habitados por ratazanas invulgares para aquela zona de esgotos.
Um túnel que ligaria o Convento de Mafra à Ericeira e por onde teria escapado o rei D. Manuel II ao exílio também pertence ao imaginário. Embora exista, o túnel não passa da Vila de Mafra, tendo sido construído para escoar os esgotos do Palácio.

A Caranguejola

D. Maria Pia, visitava frequentemente o Palácio de Mafra, tendo mandado construir um elevador com acesso do rés-do-chão ao terceiro piso. Considerado o primeiro em Portugal, podia transportar até dez pessoas e ao qual comummente se apelidava de “ caranguejola”.



Os Carrilhões

Têm em conjunto 92 sinos e pesam cerca de 217 toneladas.Foram encomendados por D. João V e são considerados entre os melhores do mundo. Tocam valsas e contradanças. A forte ligação do palácio à música mantém-se até hoje.


Morcegos

A existência de morcegos na Biblioteca chama a atenção dos visitantes, tanto mais que estes contribuem para a conservação dos livros.



Mais informações
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Fotos e texto de: Nuno de Sousa

UMA VOZ NA PEDRA

Ouvi poesia da boca de uma estátua de pedra. Os amores tristes de Ramos Rosa saindo dos lábios frios, finamente esculpidos por mãos desconhecidas em homenagem a uma vida que se extinguiu. Há lugares assim, onde as vidas já vividas se cruzam com as que se vão vivendo. Lugares mágicos onde os nossos sentidos se abrem para os detalhes e intuem histórias de gente que deixou a sua marca, visível ou invisível, na linha ingrata do Tempo. Lugares onde os Poetas que amamos escorrem pelos mármores e granitos até à nossa Alma.



A dama de pedra, Mariazinha, Kensal Green, London, 2008


Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.

Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha tristeza é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.


António Ramos Rosa, Uma voz na pedra


Darkness, Lacrimosa, Live, 1998

F

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F, Ruela, 2008



Night clubbing, Iggy Pop ( Baby doc Remix ), Trainspotting Soundtrack , 1996

CANTANDO NA AVENIDA DA MORTE


Fotograma do filme Rumble Fish, Francis Ford Coppola, 1983


Ao som do motor dos carros na conhecida Avenida da Morte*, andávamos alheios aos perigos. Dizem que Deus protege os bêbados, os loucos e as crianças, esqueceram de mencionar, sobretudo a nós, adolescentes. E seguimos cantando: Nós somos jovens / Jovens, jovens / Somos o exército do surf / Sempre a cantar / (sempre a cantar) / Vamos deslizar / (vamos deslizar) / E quem não souber / (e quem não souber) / Eu vou ensinar / Vou dizer porque / (vou dizer porque) / Amo tanto o mar / (amo tanto o mar) / Balançando assim / Você junto a mim / Vivo a cantar. Essa não é uma música de nossa geração. No animado grupo de três pessoas constam: Bia, filha de uma headbanger, Julinho, filho de um surfista aposentado, e que hoje comercializa pranchas no fundo do quintal de sua casa, e Sidarta, fruto da legítima Rainha dos Raios de Sol de Arembebe, na Bahia em meados dos anos 70. Herdámos esta canção das lembranças e vivências de nossos pais.
Um dia enquanto brincávamos de verdade ou conseqüência, parámos o jogo e questionámos a nossa geração: se não há a famigerada ditadura aterrorizando nossos destinos e se não há restrição à leitura, música, programas de TV e à cultura, então porque nossa geração é tão violenta e alienada? Especulámos sobre toda a teoria de psicólogos de areia de praia que nos ocorreu. A nenhuma conclusão chegámos. Só sabíamos que éramos três com ilusões, cismas e procurávamos confusos a chave desse imenso enigma que se chama vida. A vida, esse mistério terrível, nada mais é que um terrível vício.


* Se chama Avenida da Morte à Avenida das Américas, no Rio de Janeiro.

Domingo, 28 de Dezembro de 2008

TRIBOS PERDIDAS – OS WAIKI-KA E A ORIGEM DA VIDA


A Lua, Tarsila do Amaral, 1928


No início dos tempos, o Uibi-a, «O Grande Céu», era povoado pela luz e pela escuridão. Sucediam-se uma à outra, sem nunca se encontrarem, e sentiam-se sós.
Começaram a trocar olhares, pela manhã e ao entardecer, até se enamorarem. Deste amor nasceram os animais do ar, da terra e das águas, e todas as plantas. Yiabi e Kiabi, a «Luz» e a «Escuridão», por muito amarem os seus filhos, quiseram que se entendessem e deram-lhes a linguagem.
Os filhos mais velhos, a Huaia, «A Grande Árvore», e a Wuni-a, «A Ave Que Tudo Vê», querendo homenagear os seus pais, criaram o homem e a mulher, mas ordenaram-lhes que só entre si podiam procriar.
Viveram em harmonia sob os olhares orgulhosos de Yiabi e Kiabi.
Mas os filhos de Huaia e de Wuni-a, demasiado preocupados com a sua descendência, esqueceram-se de honrar os seus pais e foram deixando de falar a língua deles. Cada geração esquecia uma palavra, até quase não restar memória da Língua Antiga.
Os Waiki-ka são os filhos que se recusam a esquecer, zelam pela recuperação da harmonia, honram os seus pais.
«O Povo Que Ouve» é descendente directo d' «A Grande Árvore» e d' «A Ave Que Tudo Vê».

ESTRANHAMENTO


La Elegida, Ángeles Agrela, 2006,
Galeria Magda Belloti, acrílico sobre papel, 200 x 152 cm


"Dois cortes. Duas façanhas. E uma só pessoa."

Hilda Hilst



Ela falava como se parisse,
como se parecesse
com o nada
contido
no oco ressoado
descolorido que renasce
do fatídico ventre relido...
Como de tudo,
desde o que é vago
até o que me faz nutrido
e convencido do estrago
alimento a vazão do perigo
que reside ao lado
do inatingível rabisco
que freqüenta o caminho
amaldiçoado e desconhecido
da página virada...


Luciano Fraga

Sábado, 27 de Dezembro de 2008

LISBOA MADRUGADA


Lisboa e o Tejo, Domingo, Carlos Botelho, 1935


Ser lisboeta é vestir a calçada de negro negrume, amar as ruas de Lisboa como quem ama a Morte, acreditar nelas como em profecias impossíveis, saboreando o cheiro das horas perenes.
Os turistas, os mendigos e os outros que correm, num reboliço necessário à vida: a cidade vai vivendo, julgando-se viva, numa ilusão de liberdade.
Caminho para tudo pisando o chão que não me leva a lado algum, e nas matutinas manhãs como esta, quando as ruas ainda se espreguiçam sonolentas entre os prédios, Lisboa faz-me lembrar uma morgue cheia de corpos a chegar.
As minhas mãos são janelas abertas por onde a minha alma vai espreitando timidamente. O vento é um espectro de épicos cantos, que perdido me abraça.
Sorrio aos mendigos, mas não os sinto porque os sou e sendo, vejo apenas os que correm à minha volta sem ver.
Lisboa dos palcos alegres e tristes, cantando melancolicamente mais uma madrugada de saudade, és o meu pátio palco de cantigas de infância campo e cidade-cidade, a minha nudez de moça, transbordante de beatas por apagar.
Percorrendo-te, a minha sombra lembra-me sempre que existo e a minha existência em carne de pés, movimento, lembra-a sempre que não quer ser lembrada.
Entrego-te os meus dedos persianas, de janelas mãos em prédios altivos de rotos, entrego-tos, entrego-tos, para que os mergulhes na terra, calçada poluída, tornando-se raízes de uma possível árvore de mim, se me for justo dizê-lo, egoísmo-flor, de dizer ser-me de mim própria.
Lisboa, és o Corvo que observa as gentes do alto das estátuas, que as protege nas suas asas, aguardando o pulsar da noite.

Antígona

O PENSADOR

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O Pensador, gif, Ruela, 2008


1. Existe um Deus que é o conjunto de tudo quanto apercebemos no Universo. Tudo o que existe contém Deus, Deus contém tudo o que existe. Pode-se, sem blasfémia, considerar, falar não de Deus mas apenas do Universo, com Espírito e Matéria, formando um todo indissolúvel. A doutrina de Deus, tal como a pôs Cristo, permite considerar todas as religiões como boas, embora em graus diferentes, todos os homens como religiosos. Não poderá, portanto, fazer-se em nome de Deus qualquer perseguição: todo o homem é livre para examinar e escolher; a maior ou menor capacidade de exame e o resultado da escolha serão, em qualquer caso, a expressão do que ele é e do máximo a que pode chegar segundo as suas capacidades.

2. A visão mais alta que podemos ter com Deus, nós que somos apenas uma parte do Universo, é uma visão de Inteligência e de Amor; os pecados fundamentais que o homem poderá cometer são as limitações da Inteligência ou do Amor: toda a doutrina estreita, sem tolerância e sem compreensão da variedade do mundo, toda a ignorância voluntária, todo o impedimento posto ao progresso intelectual da humanidade, toda a violência, todo o ódio, limitam o nosso espírito e o dos outros, impedem que sintamos a grandeza, a universalidade de Deus.

3. Deus não exige de nós nenhum culto; prestamos a nossa homenagem a Deus, entramos em contacto pleno com o Universo, quando desenvolvemos a nossa inteligência e o nosso Amor: um laboratório, uma biblioteca são templos de Deus; uma escola é um templo de Deus, e o mais belo de todos. Todos podemos ser sacerdotes, porque todos temos capacidades de Inteligência e de Amor; e praticamos o mais elevado dos cultos a Deus quando propagamos a cultura, o que significa o derrubamento de todas as barreiras que se opõem ao Espírito. Estão ainda longe de Deus, de uma visão ampla de Deus os que fazem consistir o seu culto em palavras e ritos; mas dos que subirem mais alto não pode haver outra atitude senão a de os ajudar a transpor o longo caminho que ainda têm adiante. Ninguém reprovará o seu irmão por ele ser o que é; mas com paciência e persistência, com inteligência e com amor, procurará levá-lo ao nível mais alto.

4. Para que possa compreender Deus, para que possa, melhorando-se, melhorar também os outros, o homem precisa de ser livre; as liberdades essenciais são três: liberdade de cultura, liberdade de organização, social, liberdade económica. Pela liberdade de cultura, o homem poderá desenvolver ao máximo o seu espírito critico e criador; ninguém lhe fechará nenhum domínio; ninguém impedirá que transmita aos outros o que tiver aprendido ou pensado. Pela liberdade de organização social, o homem intervém no arranjo da sua vida em sociedade, administrando e guiando, em sistemas cada vez mais perfeitos à medida que a sua cultura se for alargando; para um bom governante, cada cidadão não é uma cabeça de rebanho; é como que o aluno de uma escola de humanidade: tem de se educar para o melhor dos regimes, através dos regimes possíveis. Pela liberdade económica, o homem assegura o necessário para que o seu espírito se liberte das preocupações materiais e possa dedicar-se ao que existe de mais belo e de mais amplo; nenhum homem deve ser explorado por outro homem; ninguém deve, pela posse dos meios de exploração e de transporte, que permitem explorar, pôr em perigo a sua liberdade de Espírito dos outros. No Reino Divino, na organização humana mais perfeita, não haverá nenhuma restrição de cultura, nenhuma propriedade. A tudo isto se poderá chegar gradualmente e pelo esforço fraterno de todos.


Agostinho da Silva
in “A Doutrina Cristã”, editado em 1943

LITERATURA ÁRABE, 01

um recadinho

vou ao mercado
peço-te que me esperes aqui até eu voltar
podes lavar a tua roupa se te sentires aborrecida
e se a porta te perturbar
então arranca-a
e põe qualquer coisa no seu lugar
peço-te que não deixes a tua cara no espelho
e não saias pela janela
não te mates como é teu costume
mas
espera-me
aqui
até
eu voltar

Ahmed Barakat (Marrocos, 1960-1994)

Tradução: André Simões
Revisão: Nádia Bentahar

كلمة صغيرة

أنا ذاهب إلي السوق
أرجوك انتظرني هنا حتى أرجع
يمكنك أن تغسل ملابسك إذا شعرت بالضجر
وإذا ضايقك الباب
فاخلعه
وضع مكانه أي شيء
أرجوك لا تترك وجهك في المرآة
وتغادر من النافذة
لا تنتحر كعادتك
لكن
انتظرني
هنا
حتى
أرجع

O PIRATA

No Cais do Tejo (o Aterro em 1881), Alfredo Keil, 1881


Longe, onde o rio encontra o mar,
Sentei-me hoje, sob o sol poente,
Com um sorriso infantil e crente,
A ouvir lendas de um lobo do mar.

Mais do que os quadros emocionantes
Que com as suas palavras descrevia,
Eram outras, mil histórias que eu ouvia
Nas suas rugas e nos olhos cintilantes...

Agora está velho. Os barcos partem sem ele.
Mas mantém dignamente o ar altivo e forte,
Duma proa a desafiar as águas, a sorte.

E quando, alto, as vagas se fizeram ouvir,
Foi entre soluços que conseguiu falar:
«Ouves o mar? Está a chamar-me...»
.

SIOUXSIE AND THE BANSHEES – Dazzle (1984)

Dedicado às colaboradoras d’O Bar do Ossian

Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008

RÉQUIEM

Para a Lúcia Beatriz Frusca do Monte, no dia do seu aniversário

When She Asked Death to Dance, Angels Came, Leslie Lee, s/d


Meu canto de amor a todos os excluídos:
aos bêbados, aos clowns,
aos negros e aos downs
e aos paraíbas.

Quero cantar, um a um, todos os «errados»:
os canhotos, os gauches,
os feios e os rotos
e os esfarrapados.

Minha saudação a todos os esquisitos:
aos índios e aos loucos,
aos anões e aos coxos
e aos desvalidos.

Um «salve-salve» a todos os bichos-do-mato:
aos mendigos, aos doentes,
aos velhos e aos dementes
e aos desdentados.

Abençoados todos os oprimidos:
as feras e as crianças,
os sem-terra ou esperança e os sem-juízo.

Saravá a todos os foras-da-lei:
aos bruxos, aos macumbeiros,
aos hippies e maconheiros
e também aos gays.

Que Deus proteja todos os renegados:
seja Jó, seja Caim,
os bocós e os pixains
e os excomungados.

Minha homenagem a todos os grandes merdas:
enjeitados e malditos,
solitários e proscritos.
E aos poetas.


Ricardo Thomé

SONS DA FLORESTA NEGRA, Capitão Fantasma



Eles ainda mexem, e estão para durar, uma grande valia do rock nacional!
Com o seu novo álbum "Viva Cadáver" lançado em Abril de 2007, eles vão agora expandir-se na Web e no MySpace.
Note-se que o site oficial ainda está em construção, mas a página do MySpace ouve-se alto e em bom som!
Tenham uma grande entrada em 2009!
Nem 20 anos, Capitão Fantasma, 2007

VENTO E VELAME


Passou o Natal e aqui estamos, tanto quanto possível ressurrectos, cristãos, pagãos, ateus e outros possessos do divino. Novos colaboradores vão engrossando a nossa armada utópica, uns já ergueram o seu padrão nestas areias finistérricas à beira Atlântico, outros estão ainda à espera do banho de final de ano nas renovadas e profundas águas. E vamos, os timoneiros são piores que o do Bateau Ivre de Rimbaud, a rota sempre foi incerta, esquecemos os sextantes e os estandartes; a ventania e o velame reteso e alto nos guiam!


Abraço lusitano!
A Redacção



P. S. Aproveitamos para vos indicar dois blogs de mérito, de dois colaboradores, o Pausa Sobre as Ruínas, do André Simões, e o 221-B Baker Street, da Ana Paula (que muito gostaríamos de ver continuado).

Quinta-feira, 25 de Dezembro de 2008

FONTES DO QUINTO IMPÉRIO, 01

João IV, Rei de Portugal, Pierre Aubry, entre 1649 e 1686



«Em Espanha (1) verá o rei de Portugal ressuscitado (2), e Castela vencida e dominada pelos portugueses. Em Itália verá o Turco barbaramente vitorioso, e depois desbaratado e posto em fugida. Em Europa verá universal suspensão de armas entre todos os príncipes cristãos, católicos e não católicos; verá ferver o mar e a terra em exércitos e em armadas contra o inimigo comum. Na África e na Ásia, e em parte da mesma Europa, verá o Império Otomano acabado, e El-Rei de Portugal adorado Imperador de Constantinopla. Finalmente, com assombro de todas as gentes, verá aparecidas de repente as dez tribos de Israel, que há mais de dois mil anos desapareceram, reconhecendo por seu Deus e seu senhor Jesus Cristo, em cuja morte não tiveram parte.»


Padre António Vieira
Carta ao padre André Fernandes
29 de Abril de 1659
(Vol I, Carta 83)
Edição de J. Lúcio de Azevedo, INCM




(1) Aqui tem o sentido geográfico, equivalente a Península Ibérica.
(2) Vieira refere-se a D. João IV, falecido em 1656.

COMPOSTELA, I, II, III


Finisterra, Ralph Dinkel, 2006


COMPOSTELA, I

Pelos vales as pedras, as aldeias de pedra
Rude, o garbo calaico das escarpas cantam
Que a coragem é uma herança antiga.
O peregrino coloca-se no lugar da morte,
No fogo da pedra. Gafanhotos, bagas.
A morte repousa em urnas de trigo
E em trilhos de cabras e em estrelados
Cumes. O céu. A luz de ser sem abrigo.
O verbo da estrela crava o coração no nome
E no número incontável dos passos.
Como um prego na carne. O que arde vive.


COMPOSTELA, II

A fé tem de ser forte, a veste pobre,
A existência rica. Deves despir a carne,
Rasgar o corpo de estrelas,
Descarnar o coração ao sangue mais puro,
Ao lume rubro da pedra,
Como o escultor apura a obra.
Tocar corações iguais. Tocar:
O verbo é maior que o acto.
A imensidão é maior que a casa.
(Assim a planície toca o céu.)

Caldeia-nos o interminável longe:
Um pacto secreto à raíz do sangue.


COMPOSTELA, III

Tudo retorna aqui, tudo retorna a tudo,
Tudo se fecha sobre si e se centra:

O canto fecha a noite em círculo,
O texto da carne é rasgado pela luz:
Todo o ser quer ser eterno: o mocho,
A rosa, a pedra, a cor dos lagos. O canto
Levanta os mortos, liga morte e vida,
Toca uma estrela pura.

Morre, tarde de um Dezembro sem estrelas,
Sê agora o mais precioso de ti,
Sê e torna-te eterna.


Jesus Carlos

Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008

TRIBOS PERDIDAS – OS WAIKI-KA E A MORTE


Santa Irapitinga do Segredo, Tarsila do Amaral, 1941


A cascata, que ilumina os dias dos Kuaia, não está só presente na vida dos Waiki-ka, mas também na morte.
Por detrás da cortina de água estende-se uma gruta que entra pela terra dentro. É para lá que os mortos do «Povo Que Ouve» são levados. Embrulhados em esteiras coloridas, a natureza, que em vida lhes segredou a Língua Antiga, envolve-os agora num abraço e toma-os de volta.
A palavra retorna à origem.
Não se ouve o pranto dos que ficam, isso seria insultar a própria vida. Fazem silêncio para que a terra não se distraia com o seu barulho, para que só ouça o que os mortos têm para lhe dizer.
Permanecem pouco tempo na gruta, por detrás da cascata, apenas o suficiente para entoar uma melodia suave, tranquila, uma espécie de canção de embalar. Depois viram costas e banham-se demoradamente.
Nos dias seguintes um pequeno grupo reúne-se fora da aldeia, é liderado pelo Waiki-ka com quem havia sido partilhada a escuta do semelhante. Os celebrantes exibem colares idênticos, o que significa que entre eles conhecem as mesmas palavras da Língua Antiga. Repetem-nas num exercício de memória que homenageia os que já partiram.

TERRAMAR LUSITANA, The Lusiads by Camoens, 1



"God gave the Portuguese a small country as cradle but all the world as their grave."
P. António Veira, citado por W. C. Atkinson



Até 1952, havia cerca de seis tentativas de traduzir o épico de Camões para língua Inglesa, começando por Fanshawe em 1655 e acabando em Burton em 1870. Todos eles tentaram reproduzir de alguma forma a ottava rima original de Ariosto que Luiz Vaz de Camões usou em Português, seja mantendo-a ou transformando-a noutros tipos de verso; mas sempre em verso.
Em 1952, William C. Atkinson publicou uma nova tentativa, mas desta feita e pela primeira vez em prosa.
Faz parte da colecção de bolso da velha Penguin Classics, e na qual foram elaboradas novas traduções para autores como Homero, Sófocles, Dante, Virgílio, Cervantes, Goethe e muitos outros nomes imortais.

Quando abri o velho alfarrábio amarelento que estava em saldo por 3 libras numa livraria de Londres, foi por tédio, uma ponta de curiosidade por objectos estranhos, dois dedos de orgulho luso, e com uma condescendência mal-disfarçada.
Nada me preparava para a viagem que iria começar... Esqueçam por um instante as histórias fantásticas de Tolkien ou Ursula Le Guin, esta é uma viagem mais fantástica ainda, por uma Terramar que realmente existiu, em barcos construídos com madeira das florestas Lusas, nas palavras de um bardo tocado pela deusa do Verbo e que podemos admirar todas as noites quando esperamos amigos para ir beber um copo numa das sete colinas de Olissipo...

Decidi transcrever aos poucos algumas partes desse alfarrábio aqui, para partilhar convosco esta experiência, que é uma releitura do poema épico de Luiz Vaz de Camões com outros olhos, com outra alma atlântica.


THE LUSIADS Canto I


THIS is the story of heroes who, leaving their native Portugal behind them, opened a way to Ceylon, and fhurter, across seas no man had ever sailed before. They were men of no ordinary stature, equally at home in war and in dangers of every kind: they founded a new kingdom among distant peoples, and made it great. It is the story too of a line of kings who kept ever advancing the boundaries of faith and empire, spreading havoc among the infidels of Africa and Asia and achieving immortality through their illustrious exploits. If my inspiration but prove equal to the task, all men shall known them.

Let us hear no more of Ulysses and Aeneas and their long journeyings, no more of Alexander and Trajan and their famous victories. My theme is the daring and renown of the Portuguese to whom Neptune and Mars alike give homage. The heroes and the poets of old have had their day; and another and loftier conception of valour have arisen.

Nymphs of the Tagus, you have inspired in me a new and burning zeal. To your stream I have always paid glad tribute in my humble verse. Grant me now nobler, sublimer strains, a style at once grandiloquent and flowing, that Apollo may recognize in your waters another fountain of the Muses. Give me the grand, resounding fury, not of rustic pipe or flute, but of the trump of war that fires men's breasts and brings a flush to the cheek. Give me a song equal to the deeds of your so warlike people, a song destined to be known and sung throughout the world, if indeed a poet may achieve so much.



[...] (to be continued)




Imagens: 1) Foto da colecção Penguin Classics, autor desconhecido. 2) Mapa dos descobrimentos Portugueses, autor e data desconhecidos, disponível no site da Universidade do Minho:

OS ENVIADOS


Portal da Natividade na Catedral da Sagrada Família: Os Três Reis Magos, Carlos Lorenzo, 2006, Barcelona


«Na Pérsia existe uma cidade chamada Savah, da qual partiram os Três Feiticeiros [...] e nesta mesma cidade foram sepultados, lado a lado, em três mausoléus belos e gigantescos. [E acima dos túmulos foi construído um singular edifício quadrado, preservado com zelo.] Os seus corpos permanecem inteiros, ainda com cabelos e barbas.»

Marco Polo, Il Milione, Libro XXII



– Melhor sangrarmos o teu camelo… tem os olhos inchados.
– Deixa lá o meu camelo! Não te chega o sangue do teu? O camelo aguenta, já atravessou o deserto em piores alturas.
– Não é o deserto que mata os camelos do grande e temível Gathaspa, é o próprio Gathaspa, de tanto os beber! ­– gracejou o mais jovem dos três Persas.
– Sem ti, jovem Bithisarea, esta travessia seria só dor e meditação! – replicou Melichior e soltou uma estridente gargalhada, tão forte que ninguém diria ter vindo daquele corpo velho.
– O chá é para os velhos e as crianças! – vociferou Gathaspa irritado e tomou a dianteira, chibateando o seu camelo branco de arreios negros, equipado à maneira dos nómadas.
O Sol do meio-dia queimava implacável as areias, mas os três homens continuavam a marcha. Quem os visse, não se aproximaria, a reunião de três acólitos de Angra Mainyu no deserto não poderia ser bom prenúncio.
– Mestre Melichior, com esta claridade já não consigo ver o astro! – disse Bithisarea, prescrutando o horizonte com uma mão sobre as sobrancelhas.
– Não te preocupes, o astro está lá e vamos na direcção certa… eu falo com esta luz desde os meus dez anos, quando uma voz se ergueu do ar e me disse: «Melichior, quando fizeres sessenta anos farás uma viagem e salvarás o mundo…».
– Mestre… e se falharmos?
– Não falharemos… não com Gathaspa entre nós, ele se encarregará disso… Não falharemos!
– Mestre… eu não gosto de olhar para Gathaspa, é feio!
– Feio? – virou o rosto e soltou uma gargalhada límpida – Gathaspa não é um homem como nós… já nasceu com os cabelos brancos e não há memória de um mago de Angra Mainyu com tanto poder, mas o seu coração é justo. Eduquei-o desde que era uma criança apedrejada nas ruas e nunca vi uma má acção sua… é uma criatura calada e estranha, eu sei, dorme pouco, nunca se deitou com uma mulher e gosta demasiado de sangue de camelo… Gathaspa nasceu com a vida escrita e sabe-o!
– Vem tempestade! – gritou Gathaspa da frente – Juntemo-nos mais!
Lentamente, as areias do deserto começaram a invadir o ar abrasador. Os três homens taparam os rostos e continuaram a marcha entregues aos seus pensamentos. Tinham partido da Babilónia há cinco dias em direcção ao oeste e as caravanas passavam em silêncio por eles e esperavam que abandonassem os oásis...

A tempestade começara a abrandar e o chão ganhava cor ao longe… a presença de água trazia a vida e mil novas formas de morte. Gathaspa chamou Bithisarea para junto de si com um aceno.
– Limpa o caminho!
Bithisarea tomou a dianteira a trote e ao fim de duzentos metros percorridos deteve-se. Ergueu os braços, falou. As areias começaram a mover-se à sua frente e tudo o que era a morte subterrânea começou a vir à superfície tórrida, serpes, escorpiões, aranhas, toda a sorte de venenos do deserto, e ficaram imóveis, paralisados pela magia de Bithisarea.
– Ensinaste-o bem, Melichior, não há melhor Mestre do que tu em Savah.
– Se te ensinei a ti, Gathaspa, que és como o vento… com menos trabalho tenho feito crescer nas artes e na fé, Bithisarea, que é como a frescura da água nas fontes.
– Escuta-me, Melichior… Se amanhã a minha alma abandonar este mundo, quero que saibas que te respeito e amo como a um pai.
– Eu sei, Gathaspa, conheço o teu coração, mas fico feliz de o ter ouvido da tua boca… Que receias? Que tenha nascido com os cabelos brancos, como tu?
– Não! Mesmo que assim seja e saiba que vamos a caminho, nada poderá fazer, desde que cheguemos antes que faça sete dias de nascido! O que temo é que não cheguemos a tempo… Assim que sairmos do deserto, compremos cavalos! Mesmo que rebentem, podemos arranjar novos nas cidades…
– Assim faremos.
– Melichior, amanhã, ao pôr do Sol, temos que chegar ao nosso destino!

Na última cidade, grande e decadente, nem quiseram dinheiro pelos cavalos, Melichior tinha deixado uma bênção e menos dores nos ossos a um Egípcio imigrado, taciturno e supersticioso. Os cavalos eram, decerto, os melhores do lote, tão incansáveis que em menos de uma hora avistaram Bethlehem. O astro brilhava majestoso nos céus do poente, quieto, qual sentinela. Avançaram por entre as ruelas sombrias e fétidas, Melichior, o que falava com o astro, conduzia-os. À sua passagem fechavam-se as portas e as janelas, mas Melichior parecia conhecer os meandros daquela pequena cidade suja como se fosse um dos seus habitantes.
Fez sinal com a mão e apeou-se do cavalo. Os seus dois companheiros apearam-se também.
– Rezemos! – disse Melichior.
Rezaram junto às montadas, parecia que se despediam, não só uns dos outros mas também da vida... caminharam em direcção a um estábulo, sabiam há muito o que tinham de fazer. Melichior distrairia a família do recém-nascido com presentes, Bithisarea defenderia a entrada contra homem ou besta e Gathaspa, o Branco, dirigir-se-ia ao Destruidor do Mundo. Assim fizeram, e muito falaram as épocas e os homens depois daquele dia. Porque aquela criança, que deveria ter morrido pela adaga e a magia de Gathaspa, continuou viva, fez prodígios e teve muitos seguidores.
Ninguém sabe exactamente porque pouparam os três acólitos de Angra Mainyu a criança angélica, mas os discípulos de Bithisarea, que sobreviveu aos seus companheiros e se tornou o sucessor de Melichior, repetiram a lenda pelos mercados e os templos de Savah… Quando Gathaspa se debruçou sobre o recém-nascido, este tocou-lhe na mão que baixava a adaga. Gathaspa viu então toda a vida futura daquele filho dos anjos… Dar-lhe-iam o nome de Joshua, faria milagres, anunciaria a destruição do mundo, de que seria o seu autor, mas, depois de se encontrar com Angra Mainyu no deserto, ficaria com piedade dos homens, recusar-se-ia a cumprir as ordens de Zurvan, e este ordenaria a Ahura Mazda que lhe retirasse todos os poderes para que o matassem.
Gathaspa ter-se-ia afastado dos seus companheiros durante a viagem de retorno, a coberto de uma tempestade, e só voltaria a Savah para morrer… dizem que era também um filho dos anjos e que nunca apreciou a companhia dos homens. Ninguém sabe com que idade morreu.
Melichior morreu aos sessenta e cinco anos, tranquilo e sábio. Bithisarea tornou-se o Guardião do Tesouro e viveu até aos noventa anos, quando se juntou aos seus dois mestres e irmãos, no mausoléu que tinha mandado construir.
O resto é Zurvan, o Tempo, e as vozes e as miragens que assombram as caravanas nos desertos…


Klatuu Niktos



Previamente publicado no blogue Crónicas da Peste.

Terça-feira, 23 de Dezembro de 2008

IRRUPÇÃO

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Na impossibilidade técnica de neste supersónico site operar comentários a partir do meu catatónico e primitivo computador, para além de não aceder às postagens senão um dia depois da sua colocação, venho por este meio dizer ao bispo de Erewhon que o Natal é a irrupção plena da abóboda na abóbora, sem aniquilação desta LOL.

Aos cristãos desejo pois uma abobodada aboborada, e aos outros desejo uma plena aboborada, o que vai cristologicamente no mesmo sentido: a plenitude do humano converge com uma dada irrupção divina.

O sentido, o secreto, o silencioso: o sanguígneo.
Aqui se sustenta toda a palavra, todo o poema; e neste se sustenta toda a prosa.
Toda a alma é um corpo que arde, e toda a palavra cinza ou brasa de tal vida.

Haja pois um dia que nos apercebamos, um dia que se entrelace na sua própria noite sem se fechar e sufocar.

Aproveito também esta extra-ordinária postagem, para deixar uma prenda-citação ossiânica:

“Há apenas alguns meses, pude convencer-me, meditando na singular tese dum filme notável intitulado Berkeley Square – o novo habitante dum velho castelo, fazendo reviver alucinatoriamente os hóspedes anteriores e já desaparecidos deste castelo, conseguia não apenas misturar-se com eles, mas ainda encontrar na participação às actividades deles, a solução do problema do seu comportamento próprio actual, problema sentimental dos mais difíceis – que este mito das sobrevivências e das intercessões possíveis, em tal lugar mantinha-se o mais vivo possível. Penso que o elemento “gótico”, apesar do seu carácter quase permanente através do ciclo de produções que ora nos ocupa, não deve no entanto ser retido como essencial. Enquanto estilo, a sua evolução histórica para o “flamejante”, essa sua maneira de se abismar nas chamas, é que parece por si só ter decidido a predilecção certa de que tem sido alvo. O psiquismo humano, no que tem de mais universal, encontrou no castelo gótico e seus acessórios um lugar de fixação tão preciso, que seria de todo em todo necessário saber o que é para a nossa época o equivalente dum tal lugar. (E tudo leva a crer que não se trata duma fábrica.)”

André Breton em Limites não-fronteiras do surrealismo


E há também, forçado sou a notá-lo, o Square Tolstoi; mas isso são fogos para posteriores águas LOL.

Et voilá.

Abreijos a todos, habitantes e transeuntes, presentes e ausentes, e bom natal!

STRAY CATS – Stray Cat Strut (1981)

A PRAÇA

Pequena homenagem aos poetas anônimos da Praça do Ferreira, Fortaleza

Praça do Ferreira, Fortaleza Antiga, 1934, foto Sales, Arquivo Nirez


O sol da tarde ainda castigava a Praça do Ferreira e alimentava a agitação dos passantes. O entra-e-sai incessante nas lojas, a cantoria dos camelôs e a correria dos consumidores fazia o dia transcorrer rapidamente sob o olhar sonolento dos que passavam o dia inteiro sentados nos bancos da praça, observando. Este grupo de amigos chamavam a praça de escritório e se denominavam poetas.

Mas este dia não foi como os outros, com a agitação costumeira. Depois de uma tarde de conversas e versos improvisados, um baque surdo calou a tarde. Um dos poetas, que circulava entre as pessoas, tombou, morto no meio da praça. Imediatamente, um círculo se formou ao redor do corpo.

– Um poeta morreu! Um poeta morreu! Um verso atravessou-lhe o coração.

Com a chegada da ambulância, os curiosos deram espaço para que o poeta fosse removido e logo a cortina estrelada da noite desceu sobre a cidade. As fachadas das lojas e do cinema iluminaram-se. A vida era a mesma, a praça era a mesma, tudo continuou como se nada tivesse acontecido.


Adriana Costa

Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008

TRADIÇÕES LUSÍADAS, Cantando o Natal




Este mês em que o tema sugerido é o Natal, partilho convosco uma cantiga tradicional alusiva à época, cantada pelo Núcleo de Etnografia e Folclore da Academia do Porto*, grupo que se dedica à recolha, encenação e performance das Tradições Lusíadas desde 1982. Este tema, Nana, Nana, Meu Menino, é tradicional do Minho, e foi gravado num Concerto de Cantares Tradicionais que decorreu na Igreja dos Clérigos a 15 de Dezembro de 2001.


Nana, nana, meu Menino
que a mãezinha logo vem.
Foi lavar os teus paninhos
à pocinha de Belém.



A pintura que ilustra o tema é São José e Santa Clara adorando o Menino, de Josefa de Óbidos, 1647, óleo sobre cobre


*Recentemente o grupo passou a usar a designação Núcleo de Etnografia e Folclore da Universidade do Porto.

BLOCO DE ESQUISSOS XL, A Vida






A existência humana como que fundida num só corpo, as questões sem solução possível, o princípio, o fim e a renovação reflectidos na transfiguração das fisionomias elevadas a uma beleza angelical, um idealismo simbolista evocado subtilmente com mestria transcende poeticamente da pintura para a vida.


Ruela

 

RENASCIMENTO LUSITANO | O BAR DO OSSIAN