Hoje é dia 19 de Agosto de 1759. Estou de serviço aos canhões da Fortaleza de São Luís de Almadena, está um calor que apenas apetece dar um mergulho nas águas que se adivinham mornas. Ouvi dizer que a esquadra Francesa tentou romper o bloqueio dos ingleses em Gibraltar. De facto desde ontem que se ouve o ribombar dos canhões trazido pelo vento de sueste. Dizem que os ingleses já capturaram um navio de 74 canhões. 74 canhões! Nós aqui apenas temos 4! Não consigo imaginar o som de todos esses canhões a disparar, aqui quando disparamos os 4 fico com os ouvidos a zunir a noite toda. E o estrago que tantas bocas de fogo causam deve ser aterrador.
De súbito vejo que lá na linha do horizonte surgem velas, agarro no óculo e começo a vislumbrar as silhuetas de 4 enormes navios. Há medida que se aproximam vejo os pavilhões, são franceses, conto os canhões... 80! Só pode ser o Ocean, o navio almirante francês! Atrás dele outro de 74 canhões, mais atrás e já rodeados por vários pequenos navios ingleses mais 2, 1 com 74 bocas de fogo e outros com 64. Os navios de trás atrasam-se, sendo alcançados pelos mais poderosos dos ingleses.
O Ocean e o outro que me parece ser o Redoutable, aproximam-se velozmente da costa, mas os pequenos navios ingleses largam os outros 2 e seguem-lhes no encalço reduzindo rapidamente a distância. Com ousadia e audácia colocam-se à frente deles obrigando-os a parar. A batalha é terrível, ao poderio dos canhões franceses, opõe-se a rapidez, o poder de manobra e a mestria dos ingleses. Rapidamente os poderosos navios ingleses capturam os 2 franceses que ficaram para trás e lançam-se em perseguição do Ocean que vai tentando colocar-se ao abrigo dos nossos canhões. Os ingleses aproximam-se dos franceses e abrem fogo, estes tentam responder, o barulho é ensurdecedor, o chão treme quase tanto como quando à 4 anos tivemos aquele tremor de terra.
O Comandante dá ordem para não abrirmos fogo, também o que poderiamos fazer, 4 míseros canhões contra as várias centenas dos ingleses! Sim, pois só o Prince tem 90 canhões! Impotentes apenas podemos assistir ao fim do Ocean, envolto em chamas encalha na praia, os marinheiros saltam borda fora, vou para baixo ajudá-los. Aos poucos começam a chegar a terra, os ingleses não se atrevem a disparar sobre eles agora, vão todos atrás do Redoutable que já está quase no Zavial. Começo a ajudar a evacuar os feridos, um deles é o Almirante de la Clue. Pobre diabo está gravemente ferido e não deve sobreviver, ajudo-o o melhor que posso e ele pergunta-me: – O Redoutable conseguiu fugir?
Uma explosão ensurdecedora responde-lhe, um tiro certeiro dos ingleses acerta no paiol de munições do Redoutable. Os olhos do Almirante enchem-se de lágrimas.
Deixei o Almirante, achei que desejaria morrer rodeado dos que com ele travaram a derradeira batalha. Fui contar os mortos, 24 (não tarda serão 25), apenas 40 feridos, estranho que no meio de tão grande batalha o saldo fosse assim tão pequeno, sempre pensei que seriam muitos, muitos mais. Dirigi-me à borda de água, fiquei a olhar para os destroços do gigantesco navio a serem consumidos pelas chamas, passadas algumas horas o pouco que não ardeu tinha sido engolido pelas águas. Perguntei-me se alguém mais iria ver os destroços daquele navio. Talvez daqui a muitos anos o Homem consiga andar debaixo de água...


5 Comments:
Bem-vindo, meu caro amigo! Fazias falta por aqui...
Um forte abraço.
Um bela estreia... Bem-vindo ao nosso Bar.
Abraço lusitano!
Parabéns pela estreia excelente neste espaço.
A tua narrativa, toda ela, é muito genuína, sentida... Mais do que ler os teus contos, nós assistimos a eles!...
Excelente, Nitrox !!!
E do "Redoutable" ? Por onde andarão os seus restos ?
Abraço
Lord of Erewhon - Obrigado pela recepção.
O BAR DO OSSIAN - Eu é que agradeço o convite.
lélé - Obrigado pela visita, já sabes todos os meses venho cá deixar uma nova história. Poderá acontecer que algumas não sejam de minha autoria, mas quando acontecer eu deixo um aviso.
diario de mergulho - O Redoutable, segundo tudo indica estará algures entre o Zavial e a Ingrina, talvez até para os lados da Figueira. Como gostava de ter tempo e possibilidades para partir em busca desse e doutros naufrágios.
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