Emigrantes, Oskar Kokoschka, 1916-1917
A vertigem do século XX entornou, sobre muitas coisas requintadas, os lençóis e o pó de todas as partidas. Ainda vi muitas dessas coisas, nas casas de gente distante, estava tudo à venda na crise dos anos trinta e não havia dinheiro para tão fascinante devaneio. Os artistas, muitos emigrados para Paris e Roma, só voltaram, depois das misérias todas, antes e após a guerra, acolhendo-se (subversivos) ao seio das famílias. Até o Amadeo não esteve à altura do seu talento, mas é verdade que a doença o alcançou cedo demais, interrompendo a bela herança que nos poderia ter deixado. Lá fora a confusão era de ensandecer, ainda conflituando com a ordem tradicional da chamada «arte académica» e os vultos que beberricavam nos salões da burguesia, rindo-se estrondosamente de uns intelectuais enfermos que anunciavam a «morte da arte». Qual arte? A deles, a dos bons ofícios? Certamente que não, o ensaio do suicídio esteve sempre mais próximo das experiências alucinantes. É porventura um estudo a fazer: a quantidade e o porquê dos artistas solitários, pintando na incompreensão do público e das galerias, que se suicidaram no sopro do gás ou no auge das convulsões de venenos inestéticos. Mas havia sucessos, meias tintas, um pé fora, um pé dentro, coisas dantescas surgindo do experimentalismo mais agressivo, a ironia simultaneamente áspera e bem humorada do Dadaísmo. «Dada», palavra de baptismo significativamente aleatório, duas sílabas levando a negação ao extremo possível, recorrendo a matérias e materiais aparentemente insustentáveis. A maior parte dos dadaístas, ao contrário do que supunham, sabia do ofício e procuravam o insulto com elementos afinal próprios da essência e da aparência da arte de todos os tempos. Por isso é que a revolução do dadaísmo não inquietou muita gente e teve autores cujas afirmações plásticas maiores relevavam de uma verdadeira escola de pintura, na composição, na cor, na textura e nos valores. A provocação de uma atitude não chega a encobrir a identidade estética da procura.
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Mais honestamente trabalharam os expressionistas, fora de todos os círculos naturalistas e do neo-realismo, procurando aprender das mudanças o valor profundo das metamorfoses geradas um pouco por toda a parte. Os fenómenos da acentuação das formas, como das cores ou da variedade das texturas, permitiu a muitos autores transmitir mensagens perturbantes, leituras torturadas do homem.
George Grosz, expressionismo alemão
A introdução aqui de elementos ilustrativos não procura traduzir à letra problemáticas de tão amplo significado. Mas antes deixar sinais, ou pistas, derivas até, sobre a generalidade dos conteúdos de alguns períodos em que os modos de formar se alteraram com intuitos mais ou menos precisos sobre o papel do artista e a verdade social do seu ofício.
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Também assim se explica que os bons ofícios do Surrealismo (depois) brotassem por vezes de uma técnica e de uma tradição não alheias à própria majestade renascentista. O movimento surgiu mais conservador nos meios e em certos casos liminarmente ortodoxo na técnica. Mas tinha um objectivo no projecto artístico e não contra ele: e esse objectivo envolvia a ideia do aprofundamento do nosso subconsciente mais remoto, do próprio inconsciente, trabalhando a memória e a coisificação dos sonhos. O retrato das mutações iria longe se nos aproximássemos, década após década, da actualidade, mergulhando o espírito no oceano cintilante de movimentos, tendências, sinuosas correntes, modas e modos, simbioses, abstracções e longos pântanos onde mergulha e linha fina dos medos, começando um certo horror que nos habita, em vez de se haver seguido a pose de um estilo. E até esse fazer foi muito bem aproveitado por Dali, não para se desligar das responsabilidades duras, dos pavores que as guerras haviam cravado nas mentes, mas para enfatizar o grito e a revolta, com uma nitidez cruel como se observa na sua obra referente à guerra civil de Espanha.
Salvador Dali, surrealismo
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E contudo, hoje mais do que ontem, a arte surge muitas vezes quase sem corpo, precária de expressão, alheia à complexa interdependência dos meios produtivos e de distribuição. Por um lado, porque, mais depressa que nunca, a sociedade passou a dispor de novos mecanismos de informação e comunicação, assimilando tudo o que qualquer burguês teria, no princípio do século passado, recusado apriori, de forma laminar e punitiva; e, por outro lado, porque, quanto mais radical é a experiência plástica da ruptura, maiores são os seus custos a diversos níveis – e é a sociedade organizada, em nome dos valores do espírito e das alternativas à sua vertentente sistematizadora, que terá, directa ou indirectamente, de reinventar as bases de recepção, a criação sustentada dos sentidos, o modo de afrontar as armas apontadas ao seu corpo, inclusive as pequenas marginalidades cujo paradoxo reside no facto de certos grupos combaterem panfletariamente a hipertrofia cega dos mercados e indústrias da cultura enquanto traficam a venda das suas obras a esse mesmo espaço consumista, da galeria ao hipermercado e ao museu. A sociedade sofrerá, em certos casos, de suficiente má consciência para se julgar no dever de tirar o chapéu (e oferecer o museu, directores e comissários) a autores e obras de mérito frequentemente discutível: usa assim, segundo pareceres dúbios, tantas vezes suspeitos, os bons ofícios das artes em seu próprio proveito, trabalhando todo esse jogo de ganância em eufemismos apontando vários processos redentores. Processos que transforma, cada vez com maior assiduidade e subtileza, em operações de prestígio, da emblemática do combate à pobreza crónica. Trata-se da duvidosa bondade atribuída aos sistemas de um mercantilismo cultural assaz estreito, entre políticas que, menorizando o espírito, apontam para um bem estar afinal utópico.
Chuch Close, realismo, hiperrealismo
O século XX foi pródigo nesta ginástica de mercado, por vezes de aparência mafiosa. A arte abstracta chegou a ser tomada como termo absoluto de todas as pesquisas (Gilo Dorfles, 1964) e ainda estavam para chegar os Novos Realismos, o Hiperrealismo, além de retornos fascinantes à pintura por si mesma, inteira e cheia de força, juntando o toque erudito nos materiais ao registo da gestualidade, o lado tosco das coisas, da própria percepção, ao nivelamento poeticamente sustentado. Nunca os artistas estiveram associados; ou, se o estiveram, foi de um modo muito precário, para que pudessem assumir-se disfarçadamente em termos corporativos, conseguindo chamar a casos de uma força social significativa, um melhor estatuto e melhor acesso ao tráfico de influências. Houve casos, e casos de mérito, que chegaram a parecer-se com o movimento cooperativo, sendo de facto necessário, dada a flutuação de todos os valores do consumo, que se caminhasse, nesta área, em ordem à indispensável qualificação das artes como realidade social indelével, integradora do pensamento individual e colectivo. Não foram esses ajustamentos, nas civilizações antigas mais poderosas, que ergueram Karnac ou o Parthénon, desenharam Coliseus e teatros, pintaram deuses e as catedrais mais ousadas, ficaram uma iconografia ao Cristianismo e ornamentaram grandes palácios já na contemporaneidade. Contudo, e em última análise, tudo isso aconteceu através da escravidão e dos mais estranhos mecenatos. Tudo aconteceu sob colossais tutelas dos poderes instituídos, sobretudo na linha das teocracias mais combativas. Sabe-se que os artistas, apesar de tudo e de algumas minúcias de exigência, se acomodaram a este jeito de cumprir um destino maior. Durante a Renascença, com os poderosos e o poder da Igreja, assim se construiram obras de traçados esplendorosos, entre avanços ou descobertas insólitas, sinais por vezes escondidos nas atitudes dos personagens numa grande composição. A coragem de manejar tais códigos, sobretudo nas artes da escrita, é já denegada nos nossos dias, tempo acelerado que não permite projectar com tempo e em nome de um paciente fazer.

William Tucker, abstracção, arte conceptual, minimalismo
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As soluções formais de caminhos como os do minimalismo, da abstracção geométrica, da instalação pobre e perecível, são todas pertencentes aos gigantismos absorventes de que se fazem cada vez mais as sociedades actuais. São processos redutores, presos a uma ideia de fio, de singeleza democrática, barras, néons, traços rasurando a própria terra. Claro que o pensamento moderno legitinou tudo isso, mas essa via de investigação fixa-se na aritmética óbvia, abre caminho a muitos oportunismos, facilita a mistura, em importantes instituições de cultura, do trigo no joio. Apesar das prováveis horas de revolta dos poetas, eles pouco mais são, ano a ano, do que criaturas que os senhores contratam, compram, coleccionam, perdendo assim o enorme papel social que poderiam desempenhar. A bela internacionalização, importante em princípio, é agora o lugar das feiras de arte e das bienais onde se mitificam artistas, individualmente, onde emergem presenças estranhas, estrangeiras, entidades do luxo e do prestígio, embora nenhum desses atributos confiram aos premiados o privilégio em nada susceptível de lhes empobrecer a independência, a liberdade real que o seu ofício intrinsecamente convoca.