MANIFESTO


O que em filosofia política se chama «ideário», em poesia só pode chamar-se «escola».

Se podemos falar de uma «renascença portuguesa» é porque Portugal existe.

A identidade de uma pátria alicerça-se num conjunto de específicos, de traços culturais únicos, de um perfil étnico.

A poesia que assume ser a voz de uma nação é um clarim solitário.

Nem queremos saber dos vossos gozos e das vossas dores se não forem Portugal. Enviem para França os chiliques, o boudoir, as cartas perfumadas. Enviem a quem pertença tudo o que é verme neste chão.

Estes que se adiantam, que esporeiam as montadas e erguem o rosto impoluto diante do que ainda não é, chamamos-lhes poetas, vates, profetas, doidos, proscritos – o que quiserem. Por eles falam as pátrias, as eras que a História não guardou.

Do meu lado estão os bardos dos Lusitanos, mesmo que me digam que não existiram.

Toda a poesia, toda a palavra, o gesto sequer, o olhar, que não se erguer do sangue singular desta Pátria dos Portugueses Ibéricos – é lixo e aqui não pertence.

Os poetas são as antenas da raça.


Lord of Erewhon



«Artists are the antennae of the race but the bullet-headed many will never learn to trust their great artists.»

Ezra Pound


sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

A OUTRA NOITE DE PÃ


Sob a Luz Azul, Ramon de Assis, 2006


O derrame azulado do Sol, quando a noite
Se acende. A Lua é só uma imagem,
Um pouco de dourado na Noite e o dia
Nunca vem. Sem medo ou claridade
Livre. Deito-me na erva onde está tanto
A pelugem ao fogo da minha cintilância.
A electricidade para sempre fundida, a luz
Jamais roubará esta pele. Tudo
Está aqui, numa arquitectura de sonhos.
As casas desabaram e as coisas do mundo.
Mercadores acenderam chamas
E defenderam o terror que nos mantinha
Unidos, nunca únicos, e em conflito.
O meu horizonte transborda de Frédéric Chopin
E assuntos que nasceram sem nome.
Tudo um canto e tudo sem palavra o dizer
A minha cintilância ao lume de todos os corpos.
As pedras, cheias de pianos, o teu selo
Com tantos violinos no meu sangue.

André Consciência

MEU SONHO NÃO FAZ SILÊNCIO

Samba, Di Cavalcanti, 1928



Meu sonho jamais faz silêncio
E a ninguém Caberá calá-lo
Trago-o como herança que me mantém desperto
Versos Como esta cor não traduzida em
Pois se fariam Necessários muitos e tantos versos

Meu sonho vara madrugadas
Alto Som
De timbales que se arrebatam em cânticos
E trago-o como Olorum na crença
Que não me pune em pecados
Mas
Enche-me o peito grávido de esperanças
Como Malungos Marchando ao sol de novembro
Subindo as serras
Defesa e Guerra

Meu sonho jamais faz silêncio
É uma lança brilhante de Zumbi
A espada de Ogum
É o Lê, o Rumpi, o rum é
É um Arreios sem furia
Terra dos anseios farta
Desacato, ato, sem freios

Vôo Livre da águia que não cansa
Me faz erê, me faz criança

Meu sonho jamais faz silêncio
É um griot velho que me conta as lendas
De onde fisga tantas lembranças

E com ele invado chats, páginas, sites
Na intimidade de dança em corpos
Perpetuando o gosto pelo correto
Meu sonho é pura herança
Rastro
Dos Plantaram que, lutaram, construíram
O que não usufruo
Areia que moldada em vaso
Onde não nos cabe culpas
É lúcido ao sol dos trópicos, charqueado ao frio
É como um fio
Grita alto e bom som
Que o seio não nos pertence amanhã
Carregamos toda pressa

Meu sonho não faz silêncio
E não é apenas promessa
Planta em mim mesmo, na alma
Palmares, Palmares, Palmares
Pelo que de belo, pelo que de farto
Muitos Palmares

Carrega como o vento Escritos
Versos de Jônatas, Oliveira, Colina, Semog e Cuti
Alimenta e nutre
Lembrando que esta cor me mantém desperto
E não tenho sustos
Sentinela que tange o eterno quissange
Entende uma volúpia do calor que me Abriga
Desfaz uma mentira, destruindo uma intriga
Meu sonho jamais faz silêncio
Como um Ilê Aiyê acordando a liberdade
Descobrindo amante Ávido o sexo pulsante da Existência
Desejo de navegar todos os mares
Comandando todas as Fragatas, naves
E nos lança em um solo de Miles
Nos recria em um solo de Coltrane
Clássico como Marsalis, como Jazz Marsalis

E nem que tentem que faça silêncio
Pois voltaria gritando em um texto de Solynca
ás que completa a trinca
Torna-se um canto de Ella, Graça, Guiguio, Lecy
Gente negra, gente negra
Jamelão, da Mangueira
Brilho da estrela mais brilhante
Nunca se Estanca, bravo se sina em retraduz

Só não lhe cabem
Crianças arrancadas da escola
Gargantas Pela fome que rasga
E nos promete vê-las
Alimentadas todas, cultas
Meu sonho é uma criança negra
Que luta
Ergue Quilombos, aqui, ali
Em cada mente, em cada rosto
Impávidos como Palmares, impávidos Iles
Em todos os lugares

Meu sonho não faz silêncio
Porque feito de lida
Teimoso como esta cor
Para sempre será desperto e certo
Mais que vivo, é a própria vida.


José Carlos Limeira

O REI DA ÍTACA


Ulysses and the Sirens, Herbert James Draper, 1909


A civilização em que estamos é tão errada que
Nela o pensamento se desligou da mão

Ulisses rei da Ítaca carpinteirou seu barco
E gabava-se também de saber conduzir
Num campo a direito o sulco do arado


Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

O FILHO DO ARQUITECTO


Child of the Storm, Cyn McCurry, 2005


«Sou pequeno. Tenho medo da noite.»
O menino escapava das casas dos homens,
Do calor da lenha, dos doces e dos seios,
No vau da praia desértica, ouvia os búzios
Surdo ao trovão do mar. «A noite é a capa
Que nos oculta dos olhos.» Ouvia os búzios,
Que se agitavam asas tantas e luzes mil.
Obedecia. Das marés o roubo das conchas
De prata, sobre espinhos e vidros, nas mãos,
Fossem ovos férteis, jóias mágicas, erguidas
Acima da lama do mundo. Um amontoado,
No chão de palha, para um palácio de prata.
As noites, a infância envelhecida, os olhos
Cegos, os búzios. «Não tenhas medo.»


Lord of Erewhon

CESARINY NA MORTE: PODEM APAGAR A LUZ

O poeta e pintor Mário Cesariny morreu a 26 de Novembro de 2006, de madrugada em sua casa, em Lisboa cerca das 5h30, aos 83 anos.




Face a face com a morte, Pessoa pediu os óculos, o pedante do Göethe mais luz; dentro deste mar negro da morte sem fim, que abafa a luz deste quarto, que sobe pela manhã e agita o terror entre as estrelas, acho que vou ficar calado e morrer apenas.
Podem apagar a luz.


Lord of Erewhon
Escrito em 26/11/2006 e publicado, com minha permissão, a 27/11/2006 no blogue
Crónicas da Peste.

quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

CARTOGRAFIAS DA MEMÓRIA




Sábado, 28 de Novembro, das 15h00 às 18h00, no Museu do Trabalho Michel Giacometti, Largo Defensores da República, Setúbal.

VODKA COM SABOR A BAUNILHA

Anarchic Freak Show, Ruela, 2007


Vês aí esses caderninhos? De letras miudinhas... Tão miudinhas que não consegues ler. Vês? Eu leio. Eu consigo. Por vezes. Por vezes consigo ler. Consigo lembrar-me de como era. Eu. E o mundo. O meu. Porque falamos sempre do nosso. Esta noite sonhei que morria. Que me baixava para tirar cogumelos do congelador e o wok me caía na cabeça, matando-me. Morte absurda a minha.

Dias. Noites. Dias. Noites. E mandas-me dançar? Mas eu quero é chorar. Chorar estes dias e estas noites.

Cogumelos. Seitan. Cebolas das pequeninas que têm um nome que não lembro. Pimenta. Alho. Alho francês. Rebentos de soja. Couves de bruxelas. Verde. Quero verde. E champanhe que me deram para me embebedar sozinha. É triste beber sozinha. Não? Sim, talvez não. Desde que tenhamos copos lavados. Não te rias. Eu falo de coisas sérias. Por vezes torna-se difícil ter copos lavados. Ainda que eu tenha muitos copos. Raramente parto um. Eu parto pouca loiça. Sabes? Sabes. Eu sei que sabes.

Sim, é verdade, ando cansada. Cansada de pessoas. E radicalismos. Todos tem opinião formada sobre tudo. Todos. Andam todos tão bem mal informados. Tão bem partidários. E apegados a causas que os fazem clicar num botão dizendo "Eu apoio". Que apoio! Eu apoio aqui sentado de barriga sobre os joelhos. Eu sou contra a morte dos animais, dos bichos, das mulheres, dos idosos, das criancinhas, dos besouros, das carochas, dos pénis com um só testículo. Vamos todos ver verde. Verde! Gritam! E agora vamos todos ver vermelho! Vermelho! Gritam! E nunca puseram os olhos no amarelo...

Dá-me um cigarro.

Eu não sou diferente. Apenas me deito e sonho em ser. Ou estar. Ou morrer.

Tenho os pés gelados.

A minha mão de unhas arranjadas e cigarro entre os dedos aqui pousada excita-me. A minha mão é bela. Neste momento. Só por este momento. Consegues sentir a beleza desta pausa? Que nada tem a ver comigo. Tem somente a ver com aquela mão, aquela mão pousada com um cigarro entre os dedos neste teclado. Aquela mão que é minha. Mas podia ser tua. Ou dela. Sente. Por vezes a beleza atinge-me de tal forma que sinto que nada mais há a partilhar. Uma impossibilidade.

Chamaram-me de padeira de Aljubarrota. Um logro. Que logro!...

Vou jantar. Vens? Tenho vinho. E um beijo de seguida.


Chevry



Guilty, Classix Nouveaux, 1981

CASABLANCA


Baby Turns Blue, Virgin Prunes, 1982


O enterrador estava pronto. Tinha escolhido um local em que sabia que dificilmente seria incomodada. A maioria dos que utilizavam o processo solitário fazia-o em locais bonitos. Praias, montes verdejantes, pequenos paraísos de cor e luz. Não uma fábrica velha junto a uma pedreira abandonada onde imperavam os cinzas e a rocha nua espreitava em tons escuros num monte dilacerado a picaretas. Não tomaria o comprimido. Tinha-se decidido a sentir. Sempre a sentir. O solitário não lhe seria indolor mas sentiria algo. E o último pensamento seria dele. A ele dirigido. Quando a terra batesse sobre ela fortemente. Quando o seu corpo recebesse o impacto daqueles quilos de terra seria nele que pensaria. Nele que não a amara. Nele que não a quisera. Nem a ela, nem ao seu amor. Sufocaria lentamente? Não sabia. Não procurara informar-se. Chamar-lhe-iam de doida caso explicasse o que pretendia fazer. Não existia relatos de quem não tivesse tomado o comprimido. Não existiriam relatos de nada. Quem experimentava o enterrador não ficava para relatar. Daí não se preocupar em saber como se programava o enterrador. Seria manualmente que o faria. Bastava-lhe puxar a alavanca com o cordel que trouxera para o propósito. Cavar um buraco onde deitar o corpo. Colocar a terra do buraco sobre a plataforma do enterrador. Deitar-se no buraco. Concentrar-se no céu escuro. Puxar o cordel. E cairia a noite. Para sempre. Sempre. Questionava-se. Existiria espaço à tosse? A convulsões? Ser enterrada viva. Sentir-se a morrer. A sufocar. Espaço a gritos? A arrependimento? Desde que os pais lhe tinham morrido não existia motivo para se deixar ficar. Os entusiasmos não morriam. Apenas tinham deixado de se fazer sentir. Era um zombie. E na cabeça apenas uma morada. A morada dele. Dele. Seguira-o. Visualizara-o de longe. Sonhara em que ele voltaria e lhe diria que a amava. Que a queria. Que não conseguia viver mais sem ela. Que a desejava como ela a ele. Muito. Tanto. Tanto... uma história de amor de tirar o fôlego. De romper com o mundo e tudo o que nele conste e se conheça. Querera tanto que ele fosse louco por ela. Que obcecasse por ela. Que a quisesse acima de tudo. De qualquer forma de ser. De tudo e de todos. Um amor de enjoar. De novela. De conto e de história. Mas não. O enterrador estava ali. Pronto para carregar com a terra. A terra a depositar no buraco. A retornar ao local de origem. Cavar a própria sepultura. Morrer e ser enterrado onde queremos. Um direito difícil de adquirir mas conseguido ao final de muitos anos de lutas. E a ela a quem nunca interessaram as lutas, usufruía agora desse direito. Punha-lo em prática. Começa a cavar. O sol esconde-se por detrás do monte violado. As mãos pequenas posicionam-se ridiculamente sobre a pá. Não tem pressa. Poderá descansar sempre que queira. Não há mais pressa. Após a decisão tudo é pacífico. Existe uma serenidade no corpo que há muito não sente. Deixou de transpirar de ansiedade. Deixou de se interrogar o que fazer. Simples. Paz. Não há orgasmo que lhe valha. Nem coito que deseje. Nada. Não há fome. Não há sede. Nada. Vácuo. Um negro de luz. Retoma o trabalho. O processo é lento. Ainda que tenha escolhido o melhor local este encontra-se repleto de pequenas pedras. Restos da mãe rocha. Anoitece. Decide parar. Não sopra uma brisa. O vento nega-se a fazer sentir. Nada se faz sentir. Nem o luar. Somente as estrelas presenciam aquele corpo coberto de pó. Deita-se sobre o pequeno monte de terra já retirado. Sobre a plataforma do enterrador. Dormir sobre a própria campa. Sobre o coveiro da campa. Adormece. Em sonhos ele. Sempre ele. Maldito. Amo-te. Amo-te. Porque não me amas? Porque não me amas se eu amo-te tanto? Deverias amar-me. Deverias achar-me especial. Deverias sentir-te privilegiado. Deverias... Porque não me amas se eu te quis amar. E consegui. Amo-te. Porque não me amas se me mostrei. E revelei. E... amo-te. Vomito-me de amor por ti. Sente-me. Amanhece. Lentamente. Tão lentamente que parecem dias. Dias sem noites. Somente um sol nascente. Eterno. Ali. Pairando baixo no horizonte. Agarra na pá e prossegue. Que horas serão? Não sabe. Com ela apenas o seu corpo e o vestido imundo que traz colado aos seios e às pernas. Não escreveu nenhuma carta de despedida. Não avisou ninguém. Será um solitário não registado. Mais uns dos que agora começam a serem descobertos em grande número. Mais um que calou o destino. Mais um. O solo ergue-se. Finalmente ergue-se e queima. A pele morena tinje-se de suor. Termina o buraco. Ou pensa que o termina até se deitar nele e constar que não existe espaço para o corpo. Só de lado. Pensa em retomar. Ri-se. E porque tem de ser de costas? Porque não podemos enterrar os mortos de lado? Porque não pode ser ela enterrada de lado? Que de lado fique. É importante? Afinal... é especial. Ri-se. A gargalhada ecoa na parede da montanha dilacerada. Sente-se feliz. Ou o mais próximo que conhece da felicidade nos últimos tempos. Ata o cordão à alavanca. Entra no buraco e deita-se. Magoa-se no braço esquerdo que bate numa pedra. Não faz mal. Que importância tem a dor naquele momento? Não pensa. Não pondera. Nada a pensar. Não existe espaço para um último momento. Para uma última reflexão. Para um momento de silêncio. Para compadecimento de si mesma. Puxa o cordão. A plataforma ergue-se. Devagar. Mais lentamente do que previra. Eleva-se a cerca de um metro e meio, gira sobre si mesma e a terra é atirada com força sobre o buraco. As medições foram bem feitas. Ainda que a olho. Ainda que sem grande método. Sente o impacto da terra sobre o corpo. O cheiro do pó. O escuro. Estranhamente não se arrepia. Não se engasga. Não sufoca. Somente escuro. Um escuro terrível. Um escuro e um cheiro a terra intensos. Estranho. Não morre. Não sente a vida a esvair-se. Não sente nada a não ser um imenso escuro e um imenso cheiro a terra. Aguarda. Quanto tempo passa? Quanto? Já deveria ter sufocado. O corpo não sente o peso da terra. Estranho. Sente-se envolvida. Quase que poderia afirmar, deliciosamente envolvida. Nada. Aguarda. Ri-se. Sim. Consegue rir-se. Vem-lhe à mente a imagem do seu egocentrismo. Especial. O querer ser especial. Para alguém. Para ele. Pois seja. É-o. Não morre. Porque não morre? Grita. Quer morrer. Porque não morre? Quer sufocar. Não há direito. Não é justo. Ela só queria calar a mente. Só se queria calar. Só queria morrer sentindo. Sente. Mas não morre. Apenas o escuro e o cheiro forte a terra lhe fazem companhia. Nem a pedra sob o braço esquerdo faz notar a sua presença.


Chevry


Escultura: The Being, Ruela, 2007

PORTUGAL, EM VISÃO EXTRAVAGANTE, XI


(Da série) O Gosto do Pão, Jorge Molder, 1988


51. A reforma educativa de maior alcance que se tem feito em Portugal é a da formatação de professores.

52. Organização da urbe – As ruas dividem a cidade, dividem mesmo, isto é, colocam de um lado os edifícios dos arquivos que, diz-se, pertencem ao Estado. Do outro lado, as casas dos cidadãos que têm sentimentos vivos.


Eduardo Aroso



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terça-feira, 24 de Novembro de 2009

OLGA RORIZ E CNB – PEDRO E INÊS


Apresentação do bailado Pedro e Inês em Moscovo, pela Companhia Nacional de Bailado, coreografia de Olga Roriz, Reportagem Sic Notícias



Pedro e Inês, Companhia Nacional de Bailado, coreografia de Olga Roriz, Teatro Camões, 2003

O RITO


Circe Invidiosa
, John William Waterhouse , 1892



Eis o momento regenerador,
O flagelo dos hemisférios turvando na penumbra,
As sombras turvando nas águas imundas,
As mãos da mulher vertendo a bacia daquele líquido escuro.

Véus caíam no compasso do vento,
Qual tempestade, nada se rendia
Perante a chuva de olhares visionários,
Os que compunham aquele circulo de mestria.

Tanaris, evocavam ressonando,
Batendo com os pés na terra molhada,
O suor dos corpos compenetrando-se
Naquele rito de lua encarnada.

Se os céus comparecessem a tão compactuada energia,
Gritariam por entre os sete caminhos da obscuridade
Para que lhes fosse permitido gerar força tal
Que bloqueasse os corações no limiar da verdade.

Mas Aernus senhor do vento não vacilava,
Transbordou a taça e a visão foi quebrada,
O suor da convalescença, a doença do transe,
Tudo no pavor e na insanidade se misturava.

Ah, mas a catástrofe ainda agora recomeçava,
As linhas da água nas rotas do gelo,
No seio o leite não saciava
Mas que criança, seria o povo
Que a sua própria morte cavava.

O tambor rufava no silêncio com brio
Tocado pelo sábio em sua própria ressaca,
Quando tudo passara de um conto no vazio
Na noite da lua não escarlate, encarnada.


Luthien

CITAÇÕES NOCTÍVAGAS, VIII







«So this is the underworld
You have in your heart;
You hide in your room!
I'm so sorry to say
It only makes me laugh.»
Moonspell, Darkness and Hope,
albúm Darkness and Hope, 2001

A MORTE COMER PARA VIVER


Ruínas do Convento do Carmo, Wolf38, 2008


Sento-me no chão frio deste mosteiro, que foi barrado a cimento pelas portas e de onde brotaram as sementes daqueles depois de mim.
Reconheço, aqui na escuridão em que a minha sombra é o pátio e depois do pátio o mundo e a seguir para dentro do mundo, ser um destroço perdido dessa penumbra móvel, que sou um fruto da árvore branca da ignorância. Em todos nós, que cantámos neste solo regado, doentes com o medo e o nosso medo cheio de criação, a amável memória do caos no rosto d’Ela, que o Inverno sepultou de brancura e gelo. No fundo de todos nós, doentes com a organização, como uma flama albina dentro do espelho, a saudade. Geração após geração este esquecimento pueril. Do medo do escravo construimos o temor do guerreiro. Da saudade inútil esculpimos poetas e lançamos-los para fora destas paredes. Edificámos um forte contra a poluição da tua indiferença. Envelhecemos e morremos incontáveis vezes, fortalecendo as paredes com os nossos ossos.
Uma noite, a maçã caiará sobre este caixão de cristal quebrando-o todo, as canções da Lua serão Carne. Depois, o Mundo não será uma esfera, mas será uma continuidade de mundos.


Horned Wolf

CLASSWAR KARAOKE 0008 SURVEY

Dear friends,

This message just to say that 0008 survey is now published and on-line,
here, at the classwar karaoke myspace.
This time, we are seventeen-acts-strong, and offering, for the first time, both film and music, as well as the images and texts.
Of the seventeen, seven acts chose to submit film – happily, including several inter-ck collaborations:

Anthony Donovan & Jaan Patterson
Murmurists, Pixyblink & Bryan Lewis Saunders
Noise Research
Ruela & Babalith Band
Bryan Lewis Saunders & Nicole Bailey
Sound Inhaler
Undress Beton

... whilst ten chose to submit music:

A Quiet Monday & Abdul 'Ben' Camel
Colin John Conass
Fonik
Iku Turso
Kalistongue
Lezet
One Minute Wanda
PAS
Pixyblink
Zoologic

As ever, the images can be viewed in the myspace's pics section and the words can be read in its blog section; the films can be viewed in the videos section; whilst the music is available on the front-page mp3 player.

Again, this is fantastic work - worthy of maximum exposure and anyone's serious attention and consideration. Please, tell your friends, include links in your own circulars etc. Please, also, when you comment, do so on the myspace's comments sections.

We thank you all for making classwar karaoke so damned fine!

Special cheers to Ad, who spent all last night wrestling with glitchy old myspace, uploading the films numerous times. He's a hero!

Enjoy and very best wishes!

Anthony x


Babalith «Waters from the Moon» music video, Ruela, 2009

Waters from the Moon, Ruela, 2009

segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

SUSERANA DA NOITE


Autumn Leaves, John Everett Millais, 1855-56


No entardecer que o céu ilustra
A laranja e carmesim,
Diviso um final firme no horizonte
Onde se encerra o mistério pardo.

Que quando for rei o crepúsculo
No seu mísero reino de tempo nenhum,
Abrirá os sete cadeados fechados
E libertará o escondido no além.

Além, muito para além, aguarda a noite.
Trajada em veludo de escuridão,
Marchetada de jóias em ouro e prata.
Que se erguerá a suserana.

Liberta por fim e viva, que é bela,
A donzela do luar formoso,
É fogo ebúrneo que se acende,
Para os amantes do profundo,

Que a sua cantiga é solidão,
Mas alegre solidão de melancolia.
Um sonho áureo de tempos antigos,
Que foi ontem real, ontem, tão distante.

Hoje é lenda e amanhã será mito,
O da senhora suserana de além um dia.

MEDICINA E MAGIA NO PORTUGAL ANTIGO, A Medicina Entre os Visigodos






O Código Visigótico, compilado no ano de 654, no tempo de Recesvinto, e aprovado no VIII Concílio de Toledo, não tinha os médicos em grande conta. Trata-se de uma obra complexa que traduz a fusão das influências romana e germânica. Foi revisto, anos mais tarde, mas pouco mudou até ao final do reino visigótico. Algumas das suas normas pareciam destinar-se a proteger os doentes da incúria ou da ganância dos clínicos.
Mal ficaria referir os Concílios de Toledo sem falar da minha terra, Almendra, vila do concelho de Foz Côa. Numa colina próxima, em direcção ao rio Douro, encontram-se os vestígios da antiga Caliábria dos visigodos. As ruínas mal se vêem. Tudo o que tinha utilidade foi levado há muito e nada assinala um passado de certa grandeza. No entanto, os bispos da cidade participaram activamente nos Concílios de Toledo entre os anos 621 e 693. Terão ajudado a discutir e a aprovar este Código.
As regras a aplicar eram diferentes consoante a posição social do paciente. Como os nobres eram os próprios visigodos e os nossos (meus) humildes antepassados eram obrigados a servi-los, estavam previstas indemnizações maiores e penas mais pesadas para os casos dos senhores que sofriam e se davam mal com a medicação. Estávamos muito longe do Serviço Nacional de Saúde, universal e tendencionalmente gratuito. Nenhum médico poderia sangrar mulher ou filha de nobre sem que um parente ou um criado assistisse à
intervenção. Se um nobre sofresse uma lesão supostamente iatrogénica, o médico teria de lhe pagar uma quantia de cem soldos. Se morresse, em consequência (ou apesar) dos cuidados prestados, o infeliz curandeiro seria entregue aos parentes, que fariam dele o que entendessem.
Era bem preferível causar um aleijão, ou a morte, a um servo. Em casos desses, bastava comprar um novo para o substituir. Subentende-se que os honorários seriam substancialmente diferentes de uma classe para outra.
O preço dos cuidados era combinado logo que o doente fosse observado, e antes de começar o tratamento. Em caso de morte do paciente, nenhuma quantia era devida. Infere-se daqui a dificuldade que os familiares de doentes graves ou terminais encontrariam para arranjar um clínico que se atrevesse a cuidar deles.
A aprendizagem do ofício estava também regulamentada. O médico recebia doze soldos pelo ensino de um discípulo.
A legislação visigótica terá sido aceite e mais ou menos aplicada pelas comunidades moçárabes entre os séculos VII e XI da era cristã.





Fontes:
Lemos, Maximiano, História da Medicina em Portugal, Publicações Dom Quixote/Ordem dos Médicos, Lisboa, 1991.
Nogueira. J.A., As Instituições e o Direito. Em: História de Portugal, Publicações Alfa, Lisboa, 1983.
Trabulo, António, Retornados, Editorial Cristo Negro, Lisboa, 2009.

Ilustrações:
História de Portugal, Publicações
Alfa, Lisboa, 1983.

domingo, 22 de Novembro de 2009

FERNÃO DE MAGALHÃES


Fernão de Magalhães, Charles Legrand, c. 1841


Fernão de Magalhães da Ibéria toda,
Alma de tojo arnal sobre uma fraga
A namorar a terra em corpo inteiro,
Consciência do fim no fim da boda,
Fernão de Magalhães que andaste à roda
De quanto Portugal sonhou primeiro:

Ter um destino é não caber no berço
Onde o corpo nasceu.
É transpor as fronteiras uma a uma
E morrer sem nenhuma,
Às lançadas à bruma,
A cuidar que a ilusão é que venceu.


Miguel Torga

BLOCO DE ESQUISSOS XL, Fim...


Auto-Retrato, Ruela, 2009

sábado, 21 de Novembro de 2009

PÁGINAS DE SANGUE


(Da série) Joseph Conrad, Jorge Molder, 1990


Esta é a mais negra voz do silêncio,
A mais maldita página do tempo
Que se contempla na esfera do absurdo.

A noite derramada sobre as horas
Chora a secreta espera do absoluto
Nas páginas de um livro mutilado.

Nos olhos da renúncia nasce um grito
E as páginas agitam-se no ar
Como corvos de sangue e de memória.

E a história morre em véus de tempestade,
Liberdade cantada à hecatombe
Em ecos de contemplação e nada.

VIDA E OBRA...


Pia baptismal da igreja onde foi baptizado Ferreira de Castro, Ruela, 2007


[…] é sobre as recordações da infância, sobre as paisagens e os homens que as habitavam, que se construirá, como sobre um pedestal – sabem-no bem os escritores – a nossa vida e a nossa obra.


Ferreira de Castro (1966)

HOJE, EXTRAVAGÂNCIA EM MONTEMOR-O-NOVO, 3º ENCONTRO




Regresso do ciclo de simpósios dedicado aos 12 Teoremas do 57 – Actualidade dos Teoremas do Movimento de Cultura Portuguesa, que os Cadernos de Filosofia Extravagante têm vindo a organizar.

Livraria Fonte de Letras, Rua das Flores 10/12, Montemor-o-Novo, hoje, dia 21 de Novembro, às 15:30.

Com os conversadores António Carlos Carvalho (teorema do Teatro), Cynthia Guimarães Taveira (teorema das Artes Plásticas) e Luís Paixão (teorema da Arquitectura). Os teoremas podem ser lidos nos Cadernos...

sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

MAIS UM TÍTULO DA COLECÇÃO NOVA ÁGUIA

A Gnose de Sampaio Bruno, Afonso Rocha, Ed. Zéfiro, 2009 (no prelo)


CADERNO DE TELAS, By the Candle Light, Wang Yi Dong




Carta de um homem que perdeu o seu melhor amigo.


O que é o Amor em Si?
Não fará parte da sua essência a de exigir um alvo?!
Amar sem destinatário, fará parte da perfeição?!
A quem dirigias o Teu amor antes da Criação?
Ouvi dizer que um Malaio pode trair um amigo mas não a si próprio!
Traíste-Te pela Queda a que nos permitiste e somos nós os expulsos do Paraíso?! Os pecadores?! Para nós é Queda, para Ti Dispersão?!
Perdi o meu amigo. Perdi uma parte de mim. Em quantos mais pedaços me posso quebrar?!
Também Te sentes perdido ou iludes-Te pelo regresso da centelha que a Ti retorna e Te acalma a inquietude que espreita a ilimitada perfeição?!
Eu não passo de mais uma poeira de luz à espera de encontrar o caminho, mas só conheço o desnorte da perda.
Ficas sentado, à porta, de candeia na mão, à espera que os grãos de trigo semeados Te tragam de volta a Ti mesmo, para voltares, de facto, a ser Um?! Não Te iludas! Só és Um connosco!
Eu vou-me partindo em mil estilhaços deixados em todos aqueles com quem me cruzei, que vi partir, a quem virei costas, a quem amei ou odiei…
Não aceito os teus carteiros. Fica a carta debaixo de uma vela acesa, no parapeito da minha janela. Sei que quando as duas se fundirem ela chegou ao destino.



By the Candle Light, Wang Yi Dong, 2004

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

CANTO I


Ulysses Deriding Polyphemus, Homer's Odyssey, J. M. W. Turner, 1829


E descemos então para o navio, e
Quilha contra as ondas, rumo ao mar divino, içámos
Mastro e vela sobre a nave negra,
Ovelhas a bordo, e também os nossos corpos
Pesados de pranto, e os ventos de popa
Nos lançaram ao largo, as velas infladas,
Por parte de Circe, a de bela coifa.
Sentados no meio do barco, vento premindo o leme,
A todo o pano, singrámos até o fim do dia.
Sol rumo ao sono, sombras sobre o oceano,
Chegámos ao limite da água mais funda,
Às terras cimerianas, cidades povoadas
Cobertas de névoa espessa, jamais devassada
Por brilho do sol, nem
Quando tende às estrelas, nem
Quando volve o olhar do céu,
Treva a mais negra sobre homens tristes.
Reflui o oceano, chegámos ao lugar
Predito por Circe.
Aqui cumpriram ritos Perimedes e Euríloco.
Puxando a espada do flanco
Cavei o fosso de um côvado de lado;
Vertemos libações a cada um dos mortos,
Hidromel primeiro, depois vinho doce, água e farinha branca. *


Ezra Pound
Tradução de Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari


* Excerto inicial do Canto I dos The Cantos; adaptação do Canto XI da Odisseia de Homero.

ORFEU REBELDE



Orpheus and Euridice, George Frederick Watts, 1890
Orfeu Rebelde, Cada Som um Grito, 2009


Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade no meu sofrimento.

Outros, felizes, sejam rouxinóis…
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.

Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legítima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.


Miguel Torga

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

PORTUGAL, EM VISÃO EXTRAVAGANTE, X


(Da série) Ocultações, Jorge Molder, 2008


47. O dia de hoje não é só o dia de hoje. É o dia de todos os tempos. Hoje, porém, devo dar-me a este tempo presente. Para que, no futuro, não se diga em vão que esse dia não é de todos os tempos…

48. Quando, a torto e a direito, ouvimos a expressão “este país”, para além do mecânico hábito de impensada repetição, ainda assim podemos crer que algo fala verdade pela desocultação de uma ausência, ou seja, a insistente menção a “este país” significa que um outro existe ou poderá vir a existir. Dado que a expressão tem sido sinónimo de uma fonte interminável de desgraças e dissabores culturais, é de crer no “outro país”, mais verdadeiro, estável e prometedor. Nele vive conscientemente a nação e – melhor ainda – a pátria, o ser inconfundível e universalmente português.


Eduardo Aroso



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A MINHA NOVA IORQUE


(Blockschokolade) Halle, Olaf Martens, 1989


Quando acrescentei uns óculos à colina do Castelo,
Ondas do mar decapitaram casas capicuas,
Não houve caos que me repudiasse, nem ruelas
Que me não aprisionassem sob o luzir tosco
Dos candeeiros. Olho para o céu,
Tenho lâmpadas nos sapatos.

Tenho todas as pedras da calçada
A enlatar o coração, o coração
A entalar as beatas que enlutámos
Entre as pedras da calçada
E guardo na mão Cesariny
A desconstruir uma escada:
Bairro Alto, fumando como quem ri,
No divã bordeaux da areia branca,
Flor.

A minha Nova Iorque é a confluência
Das quedas que se seguiram à primitiva
Língua, a das festas que se sonham
Na velhice antecipada, é quando
A colina se torna um ermo crasso e tudo
O que há é uma inexplicável saudade
Por uma qualquer recordação inexistente.


Antígona

terça-feira, 17 de Novembro de 2009

O SOBREIRO


O Sobreiro, D. Carlos de Bragança, 1905


I

Há valor, num homem, que despiu
A sua roupagem, e vestiu a cinza
Da terra e a erva da serra
Onde as bandeiras acabam e o poeta
Começa.

E heroísmo, no homem,
Que derrubou o mundo para o deixar
À solta e navegar,
As pincelagens do Sol a pôr-se.

II

Há mais em Portugal do que Portugal estar,
Há em Portugal rumar, amar, chorar;
Há na Terra vozes e no Atlântico, bramidos ferozes,
Civilizações com sangue bárbaro e luz de vida;

Há em Portugal, Portugal ser,
Há em Portugal, espalhar-se e amanhecer,
E noite funda e cemitério de amores
E homens que olham e se aprendem
E saber que eu sou isto e isto não é nome,
É pedra de aurora, é árvore por dentro
Como árvore por fora.

Oh, malditos párias, pouco sabendo
Das portas abertas por almas incertas,
Debaixo da cova e por cima das setas,
Brasão que pende sobre a vida e sob a morte.

Portugal não está aqui, mas tanto é
Esta estátua orgulhosa que suporta
E de um só tempo em cores se derrota,
Portugal pilhado em forma de livros e,
Depois, Portugal espalhado em todas as
Ruínas, nos fantasmas das aves
Que sobrevoam as memórias do chão
E da nação. E se um dia, se revolta
A recordação, a que chamais saudade,
Os anjos caídos aqui farão
Oásis e liberdade.


Horned Wolf

O PADRE E O PROFETA, 2009



David Nunes

SINTOMÁTICO


Surpresa na Estrada, Boris Kossoy, periferia de S. Paulo, 1970


Uma dor na alma,
Uma angústia que chora,
Uma solidão que apavora,
Um sentimento qualquer de pura aflição.
E dá uma falta de ar,
Uma tontura panorâmica;
E como um elemento da semântica
A visão turva,
Na simetria de uma visão.
E o fantasma cresce,
E se aproxima com voracidade.
Nessa hora um desmaio indigno
Escurece toda a verdade.
É pertinente dizer
Que um enjôo, uma dor de cabeça,
Fazem a fragilidade ficar ainda mais evidente.
O corpo pesa,
O coração aperta,
E um sono terrível se faz companheiro permanente.
Há algo errado, se sabe, não há dúvida.
Mas o que faz um guerreiro tombar
Se não a violência do impacto da flecha?!
A gente acostuma com a dor.
Mas o momento do impacto,
E a eternidade do tempo entre um ferimento quente
E a frieza do depois...
Aí sim, o guerreiro precisa parar e respirar fundo.
E se é preciso seguir diante do mundo,
Levanta-se,
Amarre-se uma tala;
Não cura, mas o ferimento cala;
E se recomeça a marcha,
Até um pouco solitária,
Em busca de uma vitória pessoal.
Os guerreiros são impiedosos
Com eles mesmos;
Os guerreiros morrem de dor
Entre eles mesmos;
Os guerreiros fogem do amor
Por eles mesmos.
O amor fragiliza,
Hipnotiza,
Desmoraliza.
É melhor uma flecha cravada no peito
Que uma flor ao alcance da mão.
É melhor sangrar de maldade
Que chorar de saudade,
Sem poder conter a hemorragia de amor
No coração.


Cacau Rodrigues

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

LITANY TO THE MOON


Litany to the Moon, Babalith, vídeo, Ruela, 2009

COINCIDÊNCIAS VOLUNTÁRIAS, Encontros Mediatos do 5º Grau



Pintura de Eduardo Batarda


A crítica em Portugal, nesta época de ouro em que vivemos, começou a «popularizar-se» quando abandonou os amadorismos pouco compensadores e passou a dar consultas por quinhentos paus. Os jornais, pagando à tarefa, foram os verdadeiros exploradores desta classe, toda ela de súbito activa e quase madrugadora para acompanhar os fenómenos culturais sob os céus da «Primavera Caetanista», em particular bebendo estatuto do esboçado mercado artístico, tudo por cada vernissage.

Eu, que tenho sido crítico amador, cronista de acasos culturais, moço bem educado para entrar na «Colóquio», entrei nesta vagabundagem quando as colónias portuguesas ardiam. Essa tragédia gerava uma espécie de economia de guerra, o que fazia borbulhar o dinheiro e favorecia a criação de certas mordomias, acções voando de mão em mão como cautelas de lotaria distribuindo riqueza-sem-trabalho pelas sete colinas da cidade. Pela minha parte, como não sou príncipe e nunca usei a G3 nem granadas defensivas, descarrilei um pouco para a linguagem plebeia ou dos tímidos indignados, levei mais porrada do que Álvaro de Campos e conheci o Professor José Augusto França num lanche ajantarado em casa do Dr. Rio de Carvalho. Pintor, cronista, assistente no lugar das artes ditas belas, o meu destino foi tão espinhoso quanto o de qualquer desses Silvas que arrastam fatalidades desde a fundação do Condado e contraem dívidas a fim de levarem as filhas ao bronze do Algarve. Ernesto de Sousa, que faleceu há anos, foi um dos adversários mais aguerridos: já envelhecido e moderníssimo quando balbuciei as primeiras palavras, o nosso D. Roberto a preto e branco viera (impante) das veredas sociais do neo-realismo e deambulava (luminoso) pelos lugares de todas as performances da cultura sem K. Porrada não era com ele, naturalmente, só língua. Um pouco à distância, José Augusto França, já doutor, ambiciosamente parisiense e aristocraticamente internacional, feudalizara com eficácia o reduto da crítica, A. I. C. A. em termos poupados, e abençoara os seus discípulos dessa fundação, Fernando Pernes, Rui Mário Gonçalves e Francisco Bronze, aquele que substituiram os antigos na parede ao alto da Brasileira do Chiado. João Abel Manta, cartonista talentoso, arquitecto de bom porte, pertencia à primeira fila do «teatro» de Conceição Silva, o da Balaia. João Abel detestava aquela gente da crítica, selectiva em termos que fingiam ciência, candidata a outras monarquias e juntando erro sucessivos à descoberta da nova modernidade portuguesa – de Joaquim Rodrigo e Joaquim Bravo ou vice-versa. A luz era intermitente, mas fazia génios uma vez por outra.



O advento da novíssima crítica, que viria a verificar-se nos anos 80, não desapertava os botões dos mais encasacados. Antes disso, ao descobrir, omnipresente, o longínquo cavalgar das vanguardas, todas as que varreram os modernistas e colocaram a fasquia da singularidade criadora trinta anos para lá da segunda metade do século XX, Almada Negreiros, o indiscutível, o primeiro grande paradoxo das artes nacionais, encrespou-se, vestiu o velho «macaco» e foi ao útero da Fundação Gulbenkian proferir uma palestra. Pensando certamente no século das luzes e nos cada vez mais próximos «grandes apagões», ele perfilou-se diante do público, com os seus incomensuráveis olhos ainda mais abertos, e assim ficou (hirto, altíssimo) em silêncio, um ou dois minutos. E então disse, com uma colossal voz de trovão: «Há pontes finais!».

Ninguém se atreveu a nada, nada de nada, no minuto seguinte que se seguiu àquele grito de guerra. E quando ele voltou a declamar tal frase, firme e forte, tudo parecia ameaçado, oportunistas e vulgares intelectuais do Chiado.
A opinião estrangeira (tanta) foi continuamente importante, incluindo Rudi Fuchs e Donald B. Kuspi, personalidades convidadas para o júri da famosa «LIS/81». Tudo pareceu mais credível, sobretudo quando Deus, de desígnios inexplicáveis, pegou fogo à outra bienal, onde soçobraram centenas de obras de arte e se fez, pelo mistério, o maior happening que o país jamais produzira, só mais tarde superado, em grandeza e notícia, pela espectacular queima de uma parte significativa da zona do Chiado, em Lisboa. Época após época, desde (pelo menos) o século XVII, volta a concluir-se pela nossa irremediável necessidade de apoio alheio, crédito, doutores, vanguardistas. Nós, humildes e sem qualquer ponta de chauvinismo mas decididamente cretinos, continuamos em crise, sobretudo tomados por uma notória incapacidade de descobrir as raízes de um verdadeiro talento que sabemos ter existido, entre nós, até mil e quinhentos. Ninguém acha nada, ainda que diga achar tudo, como o Pacheco Pereira, nem valores, nem produções, nem a genuína faúlha de alguma cultura artística. Reféns dessa amarração, dados à importação de bens do espírito lá fora, no estrangeiro, talvez em nome de uma estranha quanto rara veia ecuménica, fomos tendo dias melhores e piores, entre falsas opções, coisas de empréstimo ou requentadas, riscos de um claro-escuro baseado (calcule-se) no funcionamento perceptivo e suas emendas.

De facto, e a propósito, foi desconfortável ouvir Salette Tavares – suponho que pelo fim dos anos sessenta – lembrar-nos de como era absurdo o trabalho de muitos artistas portugueses, artistas plásticos, ao revelarem um péssimo entendimento da arte «Pop», pois pintavam pequeno o que era na origem, nos EUA, coisa de grande escala. Aquele movimento, redescobrindo os valores pictóricos do real diverso e urbano, traduzia-se sobretudo na produção de obras de tamanhos imensos, o que tornava patéticas as «cópias» em «miniatura» que se faziam em Lisboa, por mãos inábeis, na nossa congénita miopia.
De súbito, um senhor levantou-se no meio do público, pedindo a palavra, e logo ali esclareceu a Dra. Salette Tavares de que a escala dos artistas portugueses correspondia à ponderável pequenez das celas em que viviam, duas assoalhadas, nenhuns ateliers, tudo insuportavelmente a favor dos queridos e insaciáveis «patos bravos» que nos têm atravancado o território sem conta nem arte. Pintar «pop» nessas condições, reduzindo o tamanho dos suportes e a quantidade das figuras à escala com que viam o mundo, era tão meritório como pintar, para lugar nenhum, telas com seis metros, como que asseguradas para o caminho do museu ou instituições de grande átrios, sempre de olho vivo em aceitar novas actualizações e lançar novos mercados. É certo que as premissas da «pop», se as havia a tal ponto, ficariam um pouco desviadas. Mas só um pouco, pois sobrava ainda muita margem de sentido, pelo nosso engenho. Salette não pensara no pé direito dos nossos lugares de vida e de trabalho, e afirmava ser a pequena escala das pinturas (aqui) produto de uma leitura ignorante de revistas estrangeiras. A seu tempo nos garantiram que tudo isso – copiar, imitar, adaptar – não passava de uma espécie de ingenuidade típica de costureiras do Alto do Pina, a salivar diante de longínquos figurinos.

Esta é efectivamente uma realidade ainda hoje tangível e ponderável. E há quem pergunte, numa boa vontade quiçá provinciana, se será legítimo modelar o tempo e o espaço dos autores pelo ilusório imperativo das escolas, tendências e outras identidades culturais. Vermeer não é susceptível de ser aumentado, eternizou-se na especial beleza da sua escala. Mesmo sob a influência da grandeza (física?) dos retratos de Chuck Close, cujo tamanho reflecte uma outra problematização, a um outro tipo de ideias e cultura. Nós temos as nossas próprias urgências, os direitos que nos assistem. A «pop» que se desenvolveu na Inglaterra, e na Europa em geral, teve os maiores méritos e nunca precisou de se parecer com um arranha-céus. Do Chiado ao Areeiro, por exemplo, assistem-nos outras hipóteses formais, o nosso próprio tempo e o nosso próprio espaço. Não imitaremos nem Vermeer, nem Chuck Close, embora nos seja lícito aderir a um comprimento de onda semelhante ao deles. De resto, a crítica portuguesa emigra com frequência para o Alto do Pina e ficou (naquele simpósio) mais ou menos assente que Sallete não tivera notícia do que é pintar em duas assoalhadas, nem legitimidade de avaliar tal coisa. A universalidade do Bairro Alto é hoje indiscutível e o pitoresco absorve tanto o hiperrealismo como os restos de Escola de Paris. É tudo (ou foi tudo) uma questão de anos ou décadas.

Daqueles pontos com e sem nó, no Alto do Pina ou na A. I. C. A., sempre se chega a um têxtil jeitoso. Tem havido por aqui muitos mal entendidos, coisa de um pouco de arrogância e de pouca auto-estima. Já assisti ao nascimento de desconfortos assim, a par de lindíssimas performances, numa simples viagem, de comboio, entre paris e Lisboa, entre Lisboa e Roma. As costureiras sabem o que fazem, talvez outros modelos com outra chita (disfarçada), obras que empalidecem nos salões ao ritmo dos disparos dos fotógrafos e das pernas das moças prontas para o estrelato. Mas tudo morre depressa, é bom que se diga. Antes da próxima festa de uma sociedade híbrida, nem alta nem baixa, baile de máscaras ou passagem de modelos quase desactualizados, tudo se rege pelo mecanismo que extingue as espécies cada vez mais depressa. Uma década depois de Paris se tornar no Alto do Pina, algo terá de ser reconduzido para o centro de uma perspectiva decidida de acordo com a nossa própria cidadania, porventura já razoavelmente emancipada. Medina Carreira vai ao fundo connosco, dentro em breve, sem ter pronunciado a solução capaz de salvar o país. Assim continuaremos, de face oculta ou destapada, se entretanto as catástrofes não tornarem o quotidiano e o pântano incapazes de absorver o betão da nossa contemporânea utopia.


Fotos de Rocha de Sousa

A NOITE E O RISO, Uma Sessão De Ética



GUERRA FALSA


(Da série) Ocultações, Jorge Molder, 2008


Cirandas de todas as cores
em volta do corpo caído;
a alma esfacelada
sangrando sob as retinas.

Brilho falso.

Uma batalha correndo
dentro da velha cabeça;
ilha de carne e fuligem;
exércitos canibais.

Falsa batalha.

Circos agonizantes
e bombas humanicidas;
uma piada velha;
sorriso-de-papel-picado.

Tudo correndo assim:
de modo tão maravilhosamente
falso.


Fabrício Fortes

domingo, 15 de Novembro de 2009

NOTÍCIAS DE VERA CRUZ, Mestre Verequete




O ritmo afro-indígena mais popular do Estado do Pará, o carimbó, foi introduzido por Mestre Verequete que faleceu no último dia 3 de novembro. Ele estava com 93 anos.
Posto aqui o documentário como forma de homenagear ao mestre e ao carimbó, que eu amo apaixonadamente.





Chama Verequete, direção de Luiz Arnaldo Campos e Rogério Parreira

UM POUCO DA SABEDORIA EXTRAVAGANTE E PARADOXAL DO PEDRO SINDE

.

É conhecida a frase de Agostinho da Silva em que este diz sensivelmente (cito de cor) que “não é pelo ortodoxo nem pelo heterodoxo, mas pelo paradoxo”.

Todos os grandes, mesmo quando defendem o “ortodoxo”, sabem que as formas são sempre corpetes e que, portanto, há qualquer coisa para lá, acima, que é além de qualquer forma; essa “qualquer coisa” apresenta-se à razão como paradoxal (por estar acima dela: são as “verdades acima da razão”, a que se refere Sampaio Bruno). No entanto, a mesma razão, vê-se forçada a reconhecer essa coisa, apesar da sua natureza paradoxal, natureza que faz com que seja simultaneamente “isto” e ”aquilo” e, no entanto, não seja nem “isto” nem “aquilo”.


Pedro Sinde



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O REINO *


The Accolade, Edmund Blair-Leighton, 1901


Era uma vez um Cavaleiro que jurara lealdade a um Rei e uma Rainha, e um dia o Reino partiu-se e o Rei e a Rainha enviaram exércitos um contra o outro. Nesse dia o Cavaleiro fustigou a montada branca à ponta de um desfiladeiro e apeou-se na beira do precipício. Olhou os céus, olhou o rio de águas prateadas no fundo, muito fundo do abismo. Ficou ali, imóvel, enquanto o cavalo pastava, manhã e tarde, até que o cair do Sol lhe pintou a face de vermelho, e depois de negrume. Tinha feito uma jura, uma Jura de Cavaleiro e não poderia quebrá-la.
Voltou para comandar o exército do Rei e na sua armadura de prata conduziu a Cavalaria Real num movimento audaz, que forçou a retirada do exército da Rainha. Após a ceia recolheu à tenda e deixou ordens para não ser perturbado antes do claror da alba.
Quando tudo estava quieto, a coberto do escuro e com um manto negro, iludiu as sentinelas e caminhou para o centro da floresta densa, entrou numa antiga cabana de bruxa e de lá saiu um Cavaleiro de armadura mais de treva que a mais funérea das noites, que montou um cavalo preto, de longa crina. Qual espectro dos infernos, irrompeu pelo acampamento do exército do Rei e trucidou centenas de homens estremunhados e atónitos, uns que mal o enfrentavam, outros que fugiam em pânico, alguns que ajoelhavam e faziam o sinal da cruz.
Durante um lento e árduo ano, o exército do Rei progredia assim durasse a luz, chefiado pelo Cavaleiro de armadura de prata, mas assim a noite estendia o seu véu sobre o mundo eram duramente sangrados pela fúria do Cavaleiro Negro.
Nos exércitos em conflito militavam, cada um do seu lado, dois capitães que eram primos e que tinham estabelecido o pacto de, enquanto fossem vivos, se encontrar aos domingos numa capela, como amigos e família. Uma manhã, após terem rezado, confessaram as suspeitas que lhes devoravam o coração e escolheram uma noite para se reunir na floresta, cada um com um grupo de dez soldados valentes.
Era Lua cheia e viram nitidamente o Cavaleiro dirigir-se à cabana decrépita, que tinha um cavalo preto, de longa crina, com as rédeas atadas ao alpendre. Aguardaram que o Cavaleiro entrasse, fizeram cerco ao covil infecto e gritaram que se rendesse, uns em nome do Rei, outros em nome da Rainha.
Curta foi a espera, quando de lá saiu o Cavaleiro, equipado com partes de ambas as armaduras, que, ignorando o cavalo, se perfilou em frente da cabana, de escudo erguido e espada preparada, junto a uma lápide nua, sem qualquer inscrição. Os capitães de imediato deram sinal de ataque e um deles gritou «Traidor!», e o outro gritou também «Traidor!».
O combate durou uma interminável hora, o Cavaleiro foi ferido incontáveis vezes, nada parecia poder derrubá-lo e matou muitos, sem dizer palavra. Então, quando já só restavam seis dos soldados e os capitães, e desesperavam de poder vencer, a Rainha surgiu de dentro da noite a galope e atravessou o peito do Cavaleiro com uma flecha. O Cavaleiro deixou cair a espada e o escudo, foi golpeado pelos oito e tombou.
Sempre em silêncio, tentou arrastar-se para a lápide incógnita de pedra cega, mas uma lança pregou-o ao chão e nesse lugar morreu. Os capitães viraram o rosto e não viram a Rainha e nunca mais ninguém a viu e a paz voltou ao Reino.
Dizem os crédulos que quem passa no desfiladeiro, e se aproxima do precipício, ouve a Rainha chorar.


Lord of Erewhon
* Texto pertencente à série «
Rimance do Cavaleiro das Escócias».

A INSÍGNIA *


Castelo de Palmela, Klatuu Niktos, 2007


O menino pegou na espada do Cavaleiro morto, no escudo e no elmo, era um peso insuportável para uma criança, mas não podia abandonar o que era sagrado, as armas, a insígnia, não podia porque o Cavaleiro morto gritava dentro do seu coração e da sua alma e depois gritavam todos os do seu sangue que tombaram. É fácil o julgamento dos outros, mais rápido cair em desgraça, por amor ou por orgulho. Nada sabem os que estão fora da mesma carne.
O Cavaleiro lutou, sem temor, mesmo de joelhos, exangue da última pinga de espírito e força, lutava ainda. Não era um fanático, um louco, ou um suicida desesperado – era um Cavaleiro. Sabia que ainda que o chamassem traidor, ainda que lhe virassem o rosto, ainda que o seu nome ficasse manchado de desonra pelos tempos fora, ainda que do céu descessem anjos montados em esqueletos de cavalos, nunca teria medo, o seu valor seria sempre imorredouro, fundo e sangrante o sentiriam os poltrões que o enfrentavam no campo.
Fácil é o julgamento dos homens, mais rápido cair em desgraça, por amor ou por orgulho, e o Cavaleiro cumpria a lei mais alta a que o obrigava o dever, mesmo que dos erros da paixão nascido, era seu o menino escondido na cabana. Não há maior pátria do que a que corre de pai para filho.


Lord of Erewhon
* Texto pertencente à série «Rimance do Cavaleiro das Escócias».

2 MINUTOS


Virtuoso, Sára Saudková, 2007


Recrio-me em mundos paralelos. Uma vez. Outra.
Renasço. Morro. No passado. No futuro.
Ouço-me dizer-te que te amo. Que te odeio.
Que te quero. Que quero que te fodas.
Recrio-me e a alma foge do espaço-tempo
que é viver entalada entre dois minutos apenas.
Sorrio e choro. És cobarde. És genuíno. És
apenas um filho da puta. O mundo avança
e eu estou presa noutra dimensão, as asas erguidas.
Nascem crianças que são minhas e são tuas.
São a soma de nós dois. Do melhor de nós dois.
Crianças que são o que fomos, mas que são muito
mais. Crianças. Que amamos. E elas existem,
algures. Presas entre dois minutos apenas.
Recrio-me e as possibilidades são infinitas.
Às vezes morro-te nos braços.
Outras vivemos eternamente felizes.
Presos entre dois minutos apenas.

ARCHOTES NA NOITE

Ao Jesus Carlos


The Stigmatization of Saint Francis, Caravaggio, 1596


A LA NOCHE


Noche, fabricadora de embelecos,
loca, imaginativa, quimerista,
que muestras al que en ti su bien conquista
los montes llanos y los mares secos;

Habitadora de cerebros huecos,
mecánica, filósofa, alquimista,
encubridora vil, lince sin vista,
espantadiza de tus mismos ecos:

La sombra, el miedo, el mal se te atribuya,
solícita, poeta, enferma, fría,
manos del bravo y pies del fugitivo.

Que vele o duerma, media vida es tuya:
si velo, te lo pago con el día,
y si duermo, no siento lo que vivo.


RIMAS SACRAS, SONETO I

Cuando me paro a contemplar mi estado
y a ver los pasos por donde he venido,
me espanto de que un hombre tan perdido
a conocer su error haya llegado.

Cuando miro los años que he pasado,
la divina razón puesta en olvido,
conozco que piedad del cielo ha sido
no haberme en tanto mal precipitado.

Entré por laberinto tan extraño,
fiando al débil hilo de la vida
el tarde conocido desengaño;

mas de tu luz mi escuridad vencida,
el monstruo muerto de mi ciego engaño,
vuelve a la patria la razón perdida.


Lope de Vega (1562-1635)

video
Hi Ha Un Remoli, Arianna Savall, 2004

sábado, 14 de Novembro de 2009

O SENTIMENTO DE UM OCIDENTAL, I AVE-MARIAS


Homenagem a Cesário, Bartolomeu Cid dos Santos, 1985


Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba-me;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, Sampetersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga, os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos,
Embrenho-me a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinido de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!



Cesário Verde

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

MILHAFRE

Há mais uma ave na blogosfera lusitana: o MILhafre, blogue do Movimento Internacional Lusófono. Nobre ave, águia rústica, que eleva para o jogo eterno dos ventos o seu amor ao chão; fiel, constante, valente, destemida. A essa imperatriz dos campos, dos vales e das fragas, une-se o nosso falcão de Ossian e Viriato acima das cumeadas que desafiam a altura das estrelas!

Em frente, Amigos, pela lusofonia e por um ideal de civilização comum, em que nenhum homem tenha que implorar para ter pão.


Abraço lusitano!
A Redacção

DEPOIS DO DIA DAS ROSAS

Dedicado à Antígona


Love Among The Ruins, Sir Edward Burne-Jones, 1894


Com 13 lanças fecha a tarde. Do que não é 13 esmeraldas tem. Por 13 dias e 13 noites. À 13ª porta, quando ouvires as 13, nas 13 cadeiras entre o pó. Um tempo de 13 e a serpente largará a cauda. A távola, com os 13 lugares vazios, na taça terás o meu sangue.


Lord of Erewhon