MANIFESTO


O que em filosofia política se chama «ideário», em poesia só pode chamar-se «escola».

Se podemos falar de uma «renascença portuguesa» é porque Portugal existe.

A identidade de uma pátria alicerça-se num conjunto de específicos, de traços culturais únicos, de um perfil étnico.

A poesia que assume ser a voz de uma nação é um clarim solitário.

Nem queremos saber dos vossos gozos e das vossas dores se não forem Portugal. Enviem para França os chiliques, o boudoir, as cartas perfumadas. Enviem a quem pertença tudo o que é verme neste chão.

Estes que se adiantam, que esporeiam as montadas e erguem o rosto impoluto diante do que ainda não é, chamamos-lhes poetas, vates, profetas, doidos, proscritos – o que quiserem. Por eles falam as pátrias, as eras que a História não guardou.

Do meu lado estão os bardos dos Lusitanos, mesmo que me digam que não existiram.

Toda a poesia, toda a palavra, o gesto sequer, o olhar, que não se erguer do sangue singular desta Pátria dos Portugueses Ibéricos – é lixo e aqui não pertence.

Os poetas são as antenas da raça.


Lord of Erewhon



«Artists are the antennae of the race but the bullet-headed many will never learn to trust their great artists.»

Ezra Pound

Terça-feira, 14 de Julho de 2009

UMA MEMÓRIA DE ANTÓNIO QUADROS


Excerto de «O Escritor e a Sociedade», programa de Álvaro Manuel Machado, RTP, 1983


«[...] A pequena política é a grande dissolutora das mais belas e verdadeiras ideias humanas, porque não quer reconhecer a hierarquia dos problemas e a lógica das relações entre o menor e o maior. Assim, a mediocridade é o plano em que se agita, o superior é arrastado ao nível do inferior, as mais fecundas concepções filosóficas são degradadas em nome dos interesses imediatos, circundantes, egoístas e pragmáticos.
Crescem os actos puramente utilitários, as atitudes provincianas, as ilusões utópicas, os partidarismos irreflectidos, as subordinações confessas ou inconfessas, e é tudo isto, toda esta gama de detritos provindo de ideias e crenças moribundas, que está alimentando e envenenando um número majoritário de portugueses. [...]»


António Gabriel de Quadros Ferro (Lisboa, 14 de Julho de 1923 – Lisboa, 21 de Março de 1993),
«Os Três Problemas Portugueses», in Folha 57, nº 11, Junho de 1962.

MOONSPELL – Ataegina & Trebaruna (Wolfheart, 1995)

video
Ao vivo na Incrível Almadense, Almada, 3 de Setembro de 1995


ATAEGINA

Na Ara da Vida jaz uma morte
A ti te lanço a minha sorte
Ataegina tríade fatal
Pálida Deusa, doce é teu mal

Centenas de corvos sobre o rochedo
Cantam em coro histórias de Medo
De Primaveras que a morte abraça
Em ti encontram a sua desgraça

Devotio Ver Sacrum,
Devotio Consecratio,
Capittis Dirae
Rainha da Noite, Rainha Natura
Saudoso berço primaveril

Já se choram filhos perdidos
Para terras amargas sem retorno
Onde à voz dos Deuses Perdidos
Bebe o povo o sangue do corno

Corças alvas trazem esperança
Lembram destinos, a vitória
Nobre Guerra, furiosa dança
Do pó sai um rumor de glória

Devotio Ver Sacrum,
Devotio Consecratio,
Capittis Dirae
Rainha da Noite, Rainha Natura
Saudoso berço primaveril


TREBRARUNA

Trebraruna filha da Dor
Guerreira sagrada, Deusa do Amor
Trebraruna teu leito semente
Acolhe-nos agora num muy doce abraço
Trebraruna és Vida és Morte
da Lua és filha, dos Lobos consorte
Trebraruna pagão é teu ventre
Ansiado refúgio de quem ainda te sente
Viva!

Trebraruna és tu quem nos gera
Alimento teu seio d'Amor e de Guerra
Trebraruna a tua voz é
a melodia mais doce da nossa Terra
Trebraruna nós tuas crianças
Beijamos teus olhos cerrados com fervor
Trebraruna cantamos para ti
Somos teu eterno, fiel trovador


Langsuyar (aka Fernando Ribeiro
)

Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

SONHO DE UM DRUIDA

Sonho de um Druida, Ruela, 2009



Voodoo, Godsmack,1998

ABRAÇOS


Dawn Nr. 1, Jan Saudek, 1959


Quando acordei estava deitada na areia da praia. À minha volta, formando um círculo, estavam todas as feiticeiras de mãos dadas e olhos fechados. Ao meu lado esquerdo, uma visão horrenda: a feiticeira estafeta sem vida. Um fio de sangue escorria ainda pelo pescoço, maculando de vermelho os grãos de areia branca. Voltei a fechar os olhos enquanto alimentava a esperança de que estivesse apenas a viver um pesadelo, consequência de todo o esforço mental que me tinha deixado exausta e confusa. Queria partir outra vez para onde tinha estado antes de abrir os olhos. Queria deixar de sentir que existia, voltar ao meu sono profundo, mas era como se alguém me estivesse a agarrar com muita força para que isso não acontecesse. O abraço da vida tornou-se infinitamente mais poderoso do que o abraço da morte.
Senti a respiração de alguém muito próximo de mim, em distância e em familiaridade.
“Irmã, as minhas mãos estão sobre as tuas. Tens que deixar entrar o calor que te estou a passar. Tivemos que transferir o que restava da energia da irmã estafeta para ti. Não deixes que ela tenha morrido em vão. O abraço da morte é tentador, mas deixa-te guiar pelos nossos braços que te acolhem, como este braço de mar acolheu os portugueses que quase aqui chegavam.”


Twlwyth,
in "A Ilha Vermelha" (excerto).

NÃO!


Plymouth Rock, Tom Chambers, 2004


Não, não acredito!
Já não acredito no sonho,
Na palavra dispersa sob os lábios da bruma distante
Que cantava no amanhecer da eternidade.
Já não sinto as marés da aurora delirante,
A fugitiva sombra da promessa de um tempo áureo
E são falsos os profetas que auguravam no silêncio,
Dizendo em vozes de vento “Tu voarás!”.

Eu sou a renegada dos absurdos exilados,
A louca que brincava com palavras ancestrais
E queria compor o mundo na sinfonia do inverso
Que lhe brotava das veias mutiladas.
Eu sou o exílio que dorme nas cinzas da catedral,
A ruína das pilastras que sustentavam a miragem,
E as letras que me cantavam ecos de lenda e de império
São apenas folhas mortas no abraço da tempestade.
Eu era a mão do destino estendida em súplica aos céus,
Querendo abrir ao universo a imagem de um breve olhar,
A quimera que se estendia por dentro de um canto morto,
A morte que me esperava nos fogos de ninguém…

Mas não…
O tempo não queria o templo da minha imagem
E a miragem que pintava era um esboço esbatido
Na infame ausência de um corpo capaz de alentar a alma
E eu cria, mas não sentia o fracasso nos meus braços,
A explosão de toda a fé em estilhaços de vazio.

E não, já não acredito
Na concretização do fogo que bailava nos meus olhos,
O túmulo consagrado da minha maré primordial.
Creio apenas nos abismos que me estendem o silêncio,
Aqueles que me entrelaçam e não posso recusar.

Não! Não é minha a arca do destino,
E já não quero acreditar…

RAMONES – I Wanna Be Sedated (1978)

Para o Ruela

Domingo, 12 de Julho de 2009

ENCONTRARTE PROMOVE-SE NA GALIZA


Semanas decisivas para o Encontrarte.

É já nos próximos 23, 24, 25 e 26 de Julho, que se realiza em Amares o EncontrarteEncontro de Artes Plásticas e Cinema de Animação.

No Sábado, dia 11 de Julho, uma representação do Encontrarte – Encontro de Artes Plásticas e Cinema de Animação, deslocou-se à Galiza, com o objectivo de dar a conhecer aos públicos o evento que se realizará de 23 a 26 de Julho, em Amares.
O Encontrarte surgiu da vontade de um grupo de pessoas voluntariosas em mostrar vários géneros de expressão artística fora dos centros habituais de mostras de arte em Portugal.

O evento tem dois grandes objectivos definidos, o concurso e a mostra de convidados nas duas áreas: artes plásticas e cinema de animação. Mas não ficará por aqui, pois apresentará actividades complementares que são transversais às actividades principais, que vão desde os diversos workshops às conversas, passando pelas artes cénicas, música e poesia. Esta acção de promoção junto dos públicos da Galiza pretende dar a conhecer os pormenores deste evento invulgar, atraindo-os para momentos de pura fruição artística.

Esta comitiva portuguesa, onde também se integram a porta-voz Cândida Ramoa mais Lázaro Silva, Francisco Santos e Carla Pinto (programadores) chegou a Vigo às 17h00 espanholas, mais tarde a Santiago de Compostela, por volta das 19h30, com regresso marcado para as 22h00. Nesta visita, o grupo aproximou-se dos públicos locais, aproveitando ainda o momento para um contacto com os órgãos de comunicação social da Galiza.

Este evento surgiu da vontade de um pequeno grupo de pessoas, que se propõe mostrar durante quatro dias, de uma forma menos convencional e fora dos habituais centros de mostras de arte em Portugal, vários géneros de expressão artística.
Tendo dois grandes objectivos definidos, o concurso e a mostra de convidados nas duas áreas - artes plásticas e cinema de animação - o Encontrarte apresentará um interessante leque de actividades complementares que serão transversais às actividades principais. Nestas iniciativas, onde há uma importante rede de colaborações e parcerias, destacam-se workshops, tertúlias e conversas, artes cénicas, música, representação e poesia.

Estando o evento já a viver uma fase decisiva em termos de produção, destaca-se a preparação dos espaços que vão acolher momentos artísticos e exposições. Neste âmbito, aposta-se em particular na recuperação dos níveis de segurança do edifício dos antigos Paços do Concelho, onde os compartimentos dos serviços públicos, como a Câmara, as Finanças, o Tribunal e as respectivas celas da cadeia, serão palco e cenário para a fruição de algumas obras. O Encontrarte parte, também nesta fase, para as operações de promoção do evento junto dos seus públicos.Nesse sentido, estão programadas, para as próximas semanas, acções de divulgação nas principais cidades do Baixo-Minho, no Grande Porto e na Galiza, locais de onde se esperam visitantes para a primeira edição do evento.

JEFFERSON STARSHIP – White Rabbit (The Definitive Concert, 1983)

.Para a Fata Morgana & para o Goldmundo &...



... para quem ainda tenha dúvidas de que os Góticos são as cinzas dos Hippies.

NOSFERATU

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O silêncio da aranha, a madeira seca dos dedos que os ratos roeram, o azul da noite e o amarelo do dia enquanto respiro devagar, separado do tempo das coisas – tu estás na memória monocromática da noite, na textura granulada da história, e na metamorfose de tudo o que rasga esse pano. És o relance com que a vastidão do entendimento nos arremessou à treva da subjectividade. Como o arcanjo subjuga o dragão pisa Nietzsche sobre Deus, calca, obscuro e irreverente, Freud sobre a realidade. A morte em negativo retrata uma tela de vida, e as gerações defuntas movimentam-se nas nossas clivagens. Dantescas, as árvores golpeiam os céus, e os desfiladeiros, horripilantes, derramam, num dourado morto, o horizonte. Escuto devagar, os passos pesados e lentos dos homens fúnebres que carregam os cadáveres na procissão que me anuncia a praga. Um paralisado parasita, imóvel diante de uma enchente de vida.



Título original: Nosferatu – Eine Symphonie des Grauens.
Ano: 1922.
País: Alemanha.
Duração: 81 min.
Género: Terror.
Realizador: F. W. Murnau (A Última Gargalhada, Fausto).
Banda Sonora: – [Timothy Howard, 1991].
Elenco: Max Schreck, Gustav von Wangenheim, Greta Schröder, Alexander Granach, Georg Heinrich Schnell, Ruth Landshoff, John Gottowt, Gustav Botz, Max Nemetz, Wolfgang Heinz, Albert Venohr, Guido Herzfeld, Hardy von François.

Sábado, 11 de Julho de 2009

REBORNING

Para Rocha de Sousa


Ode to the Shaman, Melinda McCarthy, 2006


As lavas negras que fluem pelos fusos minerais,
Os pináculos pétreos, a secura crua do chão,
A carga épica do milhafre fulvo sobre a dança
Das nuvens e a carga mística do relâmpago
Que rebenta acima das árvores desgrenhadas,
Coroado, ó tudo, pela ventania poderosa – as lavas
Negras, negras, tormenta subterrânea da terra,
Que sopra por dentro de mim, que move o raio
Diante dos meus olhos e me rouba a alma
Para o imo da mais acesa tempestade do ser!

Ó pequena noite hiemal no coração do Estio –
Sê a minha montada de gelo e fogo, de treva e ar
E conduz-me às nascentes da juventude do mundo!


Lord of Erewhon

DREAM FOR A DRUID

Dream for a Druid, Ruela, 2009


Dream for a Druid...

COINCIDÊNCIAS VOLUNTÁRIAS, Os Bons Ofícios das Artes


Emigrantes, Oskar Kokoschka, 1916-1917


A vertigem do século XX entornou, sobre muitas coisas requintadas, os lençóis e o pó de todas as partidas. Ainda vi muitas dessas coisas, nas casas de gente distante, estava tudo à venda na crise dos anos trinta e não havia dinheiro para tão fascinante devaneio. Os artistas, muitos emigrados para Paris e Roma, só voltaram, depois das misérias todas, antes e após a guerra, acolhendo-se (subversivos) ao seio das famílias. Até o Amadeo não esteve à altura do seu talento, mas é verdade que a doença o alcançou cedo demais, interrompendo a bela herança que nos poderia ter deixado. Lá fora a confusão era de ensandecer, ainda conflituando com a ordem tradicional da chamada «arte académica» e os vultos que beberricavam nos salões da burguesia, rindo-se estrondosamente de uns intelectuais enfermos que anunciavam a «morte da arte». Qual arte? A deles, a dos bons ofícios? Certamente que não, o ensaio do suicídio esteve sempre mais próximo das experiências alucinantes. É porventura um estudo a fazer: a quantidade e o porquê dos artistas solitários, pintando na incompreensão do público e das galerias, que se suicidaram no sopro do gás ou no auge das convulsões de venenos inestéticos. Mas havia sucessos, meias tintas, um pé fora, um pé dentro, coisas dantescas surgindo do experimentalismo mais agressivo, a ironia simultaneamente áspera e bem humorada do Dadaísmo. «Dada», palavra de baptismo significativamente aleatório, duas sílabas levando a negação ao extremo possível, recorrendo a matérias e materiais aparentemente insustentáveis. A maior parte dos dadaístas, ao contrário do que supunham, sabia do ofício e procuravam o insulto com elementos afinal próprios da essência e da aparência da arte de todos os tempos. Por isso é que a revolução do dadaísmo não inquietou muita gente e teve autores cujas afirmações plásticas maiores relevavam de uma verdadeira escola de pintura, na composição, na cor, na textura e nos valores. A provocação de uma atitude não chega a encobrir a identidade estética da procura.
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Mais honestamente trabalharam os expressionistas, fora de todos os círculos naturalistas e do neo-realismo, procurando aprender das mudanças o valor profundo das metamorfoses geradas um pouco por toda a parte. Os fenómenos da acentuação das formas, como das cores ou da variedade das texturas, permitiu a muitos autores transmitir mensagens perturbantes, leituras torturadas do homem.


George Grosz, expressionismo alemão


A introdução aqui de elementos ilustrativos não procura traduzir à letra problemáticas de tão amplo significado. Mas antes deixar sinais, ou pistas, derivas até, sobre a generalidade dos conteúdos de alguns períodos em que os modos de formar se alteraram com intuitos mais ou menos precisos sobre o papel do artista e a verdade social do seu ofício.
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Também assim se explica que os bons ofícios do Surrealismo (depois) brotassem por vezes de uma técnica e de uma tradição não alheias à própria majestade renascentista. O movimento surgiu mais conservador nos meios e em certos casos liminarmente ortodoxo na técnica. Mas tinha um objectivo no projecto artístico e não contra ele: e esse objectivo envolvia a ideia do aprofundamento do nosso subconsciente mais remoto, do próprio inconsciente, trabalhando a memória e a coisificação dos sonhos. O retrato das mutações iria longe se nos aproximássemos, década após década, da actualidade, mergulhando o espírito no oceano cintilante de movimentos, tendências, sinuosas correntes, modas e modos, simbioses, abstracções e longos pântanos onde mergulha e linha fina dos medos, começando um certo horror que nos habita, em vez de se haver seguido a pose de um estilo. E até esse fazer foi muito bem aproveitado por Dali, não para se desligar das responsabilidades duras, dos pavores que as guerras haviam cravado nas mentes, mas para enfatizar o grito e a revolta, com uma nitidez cruel como se observa na sua obra referente à guerra civil de Espanha.


Salvador Dali, surrealismo
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E contudo, hoje mais do que ontem, a arte surge muitas vezes quase sem corpo, precária de expressão, alheia à complexa interdependência dos meios produtivos e de distribuição. Por um lado, porque, mais depressa que nunca, a sociedade passou a dispor de novos mecanismos de informação e comunicação, assimilando tudo o que qualquer burguês teria, no princípio do século passado, recusado apriori, de forma laminar e punitiva; e, por outro lado, porque, quanto mais radical é a experiência plástica da ruptura, maiores são os seus custos a diversos níveis – e é a sociedade organizada, em nome dos valores do espírito e das alternativas à sua vertentente sistematizadora, que terá, directa ou indirectamente, de reinventar as bases de recepção, a criação sustentada dos sentidos, o modo de afrontar as armas apontadas ao seu corpo, inclusive as pequenas marginalidades cujo paradoxo reside no facto de certos grupos combaterem panfletariamente a hipertrofia cega dos mercados e indústrias da cultura enquanto traficam a venda das suas obras a esse mesmo espaço consumista, da galeria ao hipermercado e ao museu. A sociedade sofrerá, em certos casos, de suficiente má consciência para se julgar no dever de tirar o chapéu (e oferecer o museu, directores e comissários) a autores e obras de mérito frequentemente discutível: usa assim, segundo pareceres dúbios, tantas vezes suspeitos, os bons ofícios das artes em seu próprio proveito, trabalhando todo esse jogo de ganância em eufemismos apontando vários processos redentores. Processos que transforma, cada vez com maior assiduidade e subtileza, em operações de prestígio, da emblemática do combate à pobreza crónica. Trata-se da duvidosa bondade atribuída aos sistemas de um mercantilismo cultural assaz estreito, entre políticas que, menorizando o espírito, apontam para um bem estar afinal utópico.


Chuch Close, realismo, hiperrealismo


O século XX foi pródigo nesta ginástica de mercado, por vezes de aparência mafiosa. A arte abstracta chegou a ser tomada como termo absoluto de todas as pesquisas (Gilo Dorfles, 1964) e ainda estavam para chegar os Novos Realismos, o Hiperrealismo, além de retornos fascinantes à pintura por si mesma, inteira e cheia de força, juntando o toque erudito nos materiais ao registo da gestualidade, o lado tosco das coisas, da própria percepção, ao nivelamento poeticamente sustentado. Nunca os artistas estiveram associados; ou, se o estiveram, foi de um modo muito precário, para que pudessem assumir-se disfarçadamente em termos corporativos, conseguindo chamar a casos de uma força social significativa, um melhor estatuto e melhor acesso ao tráfico de influências. Houve casos, e casos de mérito, que chegaram a parecer-se com o movimento cooperativo, sendo de facto necessário, dada a flutuação de todos os valores do consumo, que se caminhasse, nesta área, em ordem à indispensável qualificação das artes como realidade social indelével, integradora do pensamento individual e colectivo. Não foram esses ajustamentos, nas civilizações antigas mais poderosas, que ergueram Karnac ou o Parthénon, desenharam Coliseus e teatros, pintaram deuses e as catedrais mais ousadas, ficaram uma iconografia ao Cristianismo e ornamentaram grandes palácios já na contemporaneidade. Contudo, e em última análise, tudo isso aconteceu através da escravidão e dos mais estranhos mecenatos. Tudo aconteceu sob colossais tutelas dos poderes instituídos, sobretudo na linha das teocracias mais combativas. Sabe-se que os artistas, apesar de tudo e de algumas minúcias de exigência, se acomodaram a este jeito de cumprir um destino maior. Durante a Renascença, com os poderosos e o poder da Igreja, assim se construiram obras de traçados esplendorosos, entre avanços ou descobertas insólitas, sinais por vezes escondidos nas atitudes dos personagens numa grande composição. A coragem de manejar tais códigos, sobretudo nas artes da escrita, é já denegada nos nossos dias, tempo acelerado que não permite projectar com tempo e em nome de um paciente fazer.


William Tucker, abstracção, arte conceptual, minimalismo
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As soluções formais de caminhos como os do minimalismo, da abstracção geométrica, da instalação pobre e perecível, são todas pertencentes aos gigantismos absorventes de que se fazem cada vez mais as sociedades actuais. São processos redutores, presos a uma ideia de fio, de singeleza democrática, barras, néons, traços rasurando a própria terra. Claro que o pensamento moderno legitinou tudo isso, mas essa via de investigação fixa-se na aritmética óbvia, abre caminho a muitos oportunismos, facilita a mistura, em importantes instituições de cultura, do trigo no joio. Apesar das prováveis horas de revolta dos poetas, eles pouco mais são, ano a ano, do que criaturas que os senhores contratam, compram, coleccionam, perdendo assim o enorme papel social que poderiam desempenhar. A bela internacionalização, importante em princípio, é agora o lugar das feiras de arte e das bienais onde se mitificam artistas, individualmente, onde emergem presenças estranhas, estrangeiras, entidades do luxo e do prestígio, embora nenhum desses atributos confiram aos premiados o privilégio em nada susceptível de lhes empobrecer a independência, a liberdade real que o seu ofício intrinsecamente convoca.

MAPA ETNO-MUSICAL


Minho, Sara Nobre, s/d



Beira Alta, Sara Nobre, s/d



Beira Baixa, Sara Nobre, s/d


Baixo Alentejo, Sara Nobre, s/d


Ribatejo, Sara Nobre, s/d


O Centro Virtual Camões apresenta o Mapa Etno-Musical, um projecto que mostra a distribuição pelo território da música e dos instrumentos musicais característicos de cada região de Portugal, permitindo ainda ler a propósito textos explicativos e ouvir peças ilustrativas. O mapa é da autoria de Júlio Pereira, com a colaboração do historiador e produtor musical João Luís Oliva, responsável pelos textos do mapa, e com o grafismo de Sara Nobre.

Este mapa procura contribuir para a divulgação da música tradicional portuguesa e dos respectivos instrumentos. Não pretende ser uma obra académica ou a palavra final e única, mesmo que sintética, sobre esta matéria, mas, não o sendo, segue com rigor a palavra de quem lhe consagrou todo o seu trabalho.
O critério de divisão geográfica por já desusadas províncias, ainda que discutível (como tudo…), pareceu-nos o mais adequado e eficaz, atendendo às particularidades geográficas e sociais de cada região e à permanência dos seus nomes na nossa memória.
Adoptou-se, porém, genericamente, a distinção de Ernesto Veiga de Oliveira, figura maior e indisfarçável deste trabalho, entre o litoral do Minho ao Tejo, depois prolongado na costa algarvia – festivo, social e folgazão –, e o interior dos planaltos transmontano e beirão, que se estende, embora com particularidades, ao Alentejo – austero, grave e cerimonial.
Para esta viagem, ligue o som das suas colunas e parta à descoberta de Portugal e seus elementos etno-musicais.



Fonte: Centro Virtual Camões e Mapa Etno-Musical.

O SILÊNCIO DAS PALAVRAS, Portugal Ali Ao Lado





Pousada no outro lado do oceano, os horizontes crescem na vastidão da paisagem que se estende sem relevo, os espaços verdejantes do breve estio, as árvores tocando as nuvens baixas, imponentes ombreando as edificações dos homens. Por todo o lado o cheiro da relva cortada de fresco, flores cobrindo todo o castanho da terra que sobra. Aproveita-se cada resto de dia mais longo na cidade grande, os sem-abrigo também, em plena downtown, colhendo o calor do sol enquanto aspiram o cigarro de importação (clandestina!) indiana que o estado lhes fornece a par da ajuda monetária e psicológica.


Apesar do espectro da gripe, a viagem no subway é obrigatória para encurtar distâncias e os reservatórios de desinfectante presentes em cada saída – o mesmo que prudentemente levo na carteira – foram uma boa surpresa. Fora das horas de ponta, há espaço para fotografar o pensamento do poeta do Ontario e olhar em volta. Há um homem de idade mergulhado na leitura de um grosso livro de capa escura, na mão um café do Timothy’s, ao lado um jovem de mochila e brinco na orelha, escondido atrás de um óculos, além mais duas pequenas afagando-se, uma outra dedicada a jogos de palavras, talvez cruzadas, outros dormitando, lendo o jornal do metro ou ainda duas senhoras conversando alto, conversas de mães de criança dentro de um sling, a única que vi neste transporte público.


A senhora que se senta a meu lado também se afunda num livro. Baixo a cabeça e encontro o exemplar aberto junto à minha perna; não lhe olhara o rosto, talvez uma das muitas de ascendência oriental lendo caracteres de mandarim. Não tive a confirmação do breve pensamento quando passei os olhos, pausadamente inspirando e, de repente, a expiração suspensa pelo nome inscrito no alto da página: José Saramago. No outro lado, Blindness. Não sei descrever por palavras a ternura que me invadiu quando a figura do escritor se ergueu para mim, enquanto crescia a consciência do lugar em que me encontrava, tão longe e afinal tão perto do meu país antigo, cheio de História, como gosto de frisar quando encontro quem mostre curiosidade pelo nosso jardim nem sempre bem cuidado – como merecia.


Após uma breve hesitação, não resisti a pedir com o melhor sorriso que me deixasse fotografar (mal, percebi depois); precisava de registar aquele encontro inusitado com a minha língua materna, ali, entre a multiculturalidade que nos cerca numa cidade que ultrapassa os cinco milhões de habitantes. Gentilmente me diz que também ela é italiana, melhor, de ascendência italiana, pois que natural do Canadá; deseja ardentemente ver o filme, conhece o autor, acaba mostrando uma fotografia de três filhos adolescentes pré-universitários. Quer preservar e legar a língua de seus ancestrais, mas torna-se cada vez mais difícil, diz.


As distâncias entre estações são longas a norte, mas depressa se sucedem rapidamente perto do destino: «Next station Queen, Queen next station», repete a voz. Saí de coração lavado em direcção ao cruzamento com a Dundas para rever a Art Gallery entretanto remodelada por Frank Gery. Depois Spadina, passear por Chinatown. Um dia pleno em Toronto, a cidade que gosto de sentir pulsar.


Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

BARDOS, DRUIDAS Y OTRAS MOVIDAS – Sin Causa (2006)


Bardos, Druidas y Otras Movidas ao vivo na IX Edição do Festival Internacional de Macedo de Cavaleiros, 2008


«Este grupo foi fundado em 1999 com o objectivo de tirar as melodias tradicionais do seu contexto habitual, usando para isso harmonias e instrumentos capazes de oferecer outra gama de cores e sons.
Os membros dos Bardos, Druidas y Otras Movidas colaboram desde meados dos anos oitenta em distintas formações musicais: coros, bandas de rock, grupos de dança e todo o tipo de grupos relacionados com a música tradicional. Ao longo destes nove anos o grupo tem presenteado o seu público com interpretações musicais extremamente caprichosas e cheias da boa magia dos Druidas.»


Link: Bardos, Druidas y Otras Movidas.

MERCADO MEDIEVAL – Recriação Histórica



RECRIAÇÃO HISTÓRICA

Datas: 16 a 26 de Julho de 2009.
Preços: €6,00 por pessoa;
gratuito para trajados à época; portadores do cartão Via Verde para a Cultura; e crianças até aos 10 anos de idade.
Os munícipes terão entrada gratuita entre 20 a 23 de Julho.

Horários:
Fins-de-semana – das 12h00 às 24h00.
Dias úteis – das 17h00 às 24h00
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Local:
Vila de Óbidos.


«Do pavor da guerra, da fome e da peste, em castelos e recintos sagrados, se escondem os homens e mulheres tementes do Demo e da malvadez dos outros.
Mezinhas e superstições, rezas e encantamentos servem para apaziguar os maus espíritos e ajudam a superar os medos e temores.
Mas, importa ultrapassar esses receios e assombros. Muitas vezes é o vinho que afoga essas apreensões e, simultaneamente, confere galhardia e bazófia a quem habitualmente se tolhe acobardado.

A coragem é o apanágio dos nobres de sangue e dos fortes de espírito, e é no combate e em torneios em que cada um demonstra a sua audácia e arrojo. O triunfo, o sucesso e a vitória, trazem o preito e homenagem do povo simples e o reconhecimento de valor conferido pelos grandes do reino.

O ambiente de festa e alegria que se vive em dias de glória, contrasta com o dos dias de desassossego e dúvida motivados pelo terror do desconhecido, mas convive no quotidiano da maioria dos comuns dos mortais.

É esse tipo de clima que se respira no Mercado Medieval de Óbidos onde os visitantes são convidados a reviver os tempos idos de antanho.

Vinde, e senti os medos, que são de todos, e a glória que só alguns poderão viver.»



Cavaleiro Medieval, Ruela, 2009

SEM VERSO


O Maestro, Boris Kossoy, 1970


O silêncio é até eloquente, assim
nos livre do pranto, do ranho
exclamante do poeta de circo e
de suas musas, Deus meu, de sua baba:
tesão em verso por rameiras de colégio.
O silêncio é até semente, peido do ar
com sua cueca de virgem ao sol e
tremendas vestes de viúva.
O silêncio nem mais, supremo
à poesia empoleirada na merdamelodia
de alexandrinos monocórdicos
como a corda partida da sílaba
na rima emperrada do violino
que o doido enfia no cu do vento,
enquanto o poeta aguarda a tormenta
do gênio no lampadário, que a cigana
roubou e jogou na montureira
por não lhe encontrar utilidade.


Edson

Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

SONS DA FLORESTA NEGRA, Nine Inch Nails




Fundada em 1988 por Trent Reznor (que tinha abandonado o agrupamento Exotic Birds onde era teclista), esta é talvez a banda mais simbólica do panorama industrial, pois levou o estilo industrial de um público underground para as massas propriamente ditas. Apesar de terem por base uma sonoridade baseada em instrumentos e efeitos electrónicos, são também bastante eclécticos em termos instrumentais. Trent Reznor destaca-se também por ser uma pessoa franca ao desafiar a própria editora no que diz respeito aos direitos de autor. Recentemente anunciou que a presente digressão é a última dos NIN, embora continue a fazer música, valha-nos isso.
Para mais informações podem consultar a página oficial da banda e a página do MySpace.



Eraser (ao vivo na Self Destruct Tour), Nine Inch Nails, 1995

TRILHO


Knight, Death and the Devil, Albrecht Dürer, 1513


O gelo fecha o hálito. O coração
Continua. Entre dois sudários,
Vai morrer o cavaleiro: as neves
Que pisa e a noite que se funde
Com a espada que o sangue
Derramado em bordão transforma.
A coragem faz o homem.
As feras silenciosas sabem-no.


Lord of Erewhon

VIAGEM MEDIEVAL EM TERRA DE SANTA MARIA, XIII EDIÇÃO (2009)




De 30 de Julho a 9 de Agosto, no Centro Histórico de Santa Maria da Feira.

O início do reinado de D. Afonso IV é marcado pelo ódio e sede de vingança contra seus irmãos naturais Afonso Sanches e João Afonso, originando três anos de uma guerra senhorial em que a rainha D. Isabel, apesar de viver em clausura no Convento de Coimbra, não deixa de intervir na vida pública do Reino, procurando a paz e a reconciliação.
Após o terminus da guerra, El-Rei vai dedicar-se aos assuntos de Estado, reafirmando o seu poder e autoridade e promovendo reformas judiciais e legislativas. Como rei centralizador determina, pela primeira vez, que os representantes do povo tenham assento nas Cortes e manifestem os seus desagravos contra os grandes senhores do Reino. O rei legislador satisfaz os pedidos e anseios dos representantes do povo, criando as figuras de juíz de fora e de corregedor.
Também preocupado com a política externa, D. Afonso IV faz acordo de casamento para seus filhos, casando a formosíssima Maria com Afonso XI, de Castela, e o infante D. Pedro com D. Branca, este que não chega a ser concretizado, já que a princesa tinha quebra natural de entendimento. Depois de tomar conselho, el-rei firma o acordo de casamento de seu herdeiro com D. Constança Manuel, filha de um poderoso de Castela.
Afonso XI, de Castela, opondo-se a este casamento, manda aprisionar D. Constança. Este incidente, agravado com o facto de sua filha D. Maria sofrer injúrias e maus tratos por parte do marido Afonso XI, que tomou por manceba Leonor de Guzman, leva a que el-rei D. Afonso IV declare o reino de Portugal em guerra, desta feita contra Castela.
E finalmente, é chegado o dia do casamento do Infante D. Pedro com D. Constança, trazendo no seu séquito Inês de Castro, jovem galega e filha natural do fidalgo castelhano Pedro Fernandes de Castro.



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Castelo da Feira, Ruela, 2007

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

SOME SAY IT’S A GENETIC DISORDER…

Dedicado ao Dark Templar



Renaissance Prosperity, Eyes of Noctum ao vivo no Whiskey Bar (Austin, Texas, USA), 03/04/2009


The Sorcerer's Apprentice...

FISP 2009 – III Festival Internacional de Saxofone de Palmela


O III Festival Internacional de Saxofone de Palmela, que vai já para a sua 3º edição, decorrerá entre 12 e 19 de Julho de 2009 e é organizado pelo Conservatório Regional de Palmela, Quarteto Artemsax e Sociedade Filarmónica Humanitária, tendo como director artístico João Pedro Silva.



O objectivo deste Festival é divulgar o Saxofone através de um encontro de várias gerações de saxofonistas, apresentando o que há de melhor a nível nacional e internacional na área Clássica e Jazz. Com o sucesso assinalável alcançado nas primeiras duas edições, o FISP prevê-se como uma oportunidade única para contribuir na formação de novos e melhores públicos, jovens estudantes e profissionais da música, através do cruzamento das áreas pedagócias e artísticas.

A programação do FISP 2009 tem para oferecer mais de 30 concertos e espectáculos de entrada livre, Masterclasses, Workshops, Seminários, Conferências, 3º Concurso Internacional de Saxofone Vitor Santos, 1º Concurso de Composição para Saxofone FISP, Record do Guiness, e outras surpresas. Estarão presentes na programação do FISP algumas das individualidades mais conceituadas deste instrumento a nível mundial, bem como todos os principais intervenientes deste instrumento no nosso país.


MAIOR ORQUESTRA DE SAXOFONES DO MUNDO (World Guiness Records TM)

No próximo dia 12 de Julho de 2009, inserido na programação do Festival Internacional de Saxofone de Palmela, irá realizar-se uma tentativa de bater o Record do Guiness para a maior Orquestra de Saxofones do Mundo, sendo o Canadá o País possuidor do actual record com uma orquestra de 900 saxofonistas. Para o efeito foi escrita uma obra pelo conceituado compositor Jorge Salgueiro, que será dirigida pelo mesmo neste grande desafio.
Neste sentido é com grande satisfação que o
FISP convida todos os saxofonistas interessados a participarem nesta empolgante inciativa, que irá juntar músicos de todo o País e estrangeiro.
Consulte o site do Festival para todas as informações relacionadas.

Contamos com a sua presença neste assinalável evento do mundo do Saxofone a nível internacional!

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

THE BARD'S TALE – BEER SONG

Dedicado aos Bardos e Bardas Ossiânicos

Bardos Ossiânicos, Ruela, 2009

Todos nós estamos na lama,
mas alguns sabem ver as estrelas.

Oscar Wilde


The Bard's Tale, PlayStation 2, 2004

CANÇÃO SUPREMA


Violin (oil on canvas, 70x50cm), Boris Indrikov, 2001


Contempla o véu da bruma dormente no inverso
Com os templos da potestade adormecidos a seus pés.
Nos braços, a harpa de todas as melodias esquecidas
E na ponta dos dedos a magia dos ancestrais
Ergue no seu silêncio a premonição dos séculos
E os fumos da profecia que aguardam a sua voz.

A seus pés depositarão os louvores da imensidade
E chamar-lhe-ão príncipe de todos os cantores,
Divindade secreta com corpo de lenda ardente,
Religião renascida sob a carne de um só homem.
Nos olhos, todas as ondas do oceano primordial
Cintilarão como azuis cristais de sonho e de loucura
E a amargura dos vencidos nascerá como uma vara
Entrelaçada no trono do imperador de cristal.

Dispersa traços na rocha que pisam os pés sagrados
Do arauto que transporta a espada dos imortais,
Abraço de invioláveis sobre o sangue do esquecimento
Que renasce na loucura de cada hora adormecida.
Na alma, o silêncio transborda como fios de tempestade
Bailando por entre os corvos da imperatriz ausente
E ele é o canto e a sombra que encanta os braços da esfinge
Na tormenta inacabada de uma canção sem final.

ILUSTRADORES

Para o Ruela, poeta da vida por imagens


Caricatura de Fernando Pessoa, Adolfo Rodríguez Castañé,
21/9/1912



Com lápis seguem os poetas, artistas
Do instante, o efémero demoram, a cor
E sépia, a carvão e cal, são o batôn
Do poema pelas vitrinas brilhantes
Dos botequins, os godets de verniz
Da palidez poética. Magros centavos
Pagam o seu génio, improclamado, sem
Lápide na glória. As mãos agitam-se
Sobre as mesas dos cafés, o mármore
Gélido, a noite ébria, e o que fora
Apenas sonho sem substância no ar
Torna-se a memória de estanho, prata,
Ácido e sal de ter havido palavra.


Jesus Carlos



Fernando Pessoa, Adolfo Rodríguez Castañé, 1912 (este é o único retrato do poeta pintado em vida)

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

APENAS UM COMENTÁRIO (SOBRE OUTROS LOUCOS)




A carta aberta de um grupo de cidadãos ao Sr. Primeiro Ministro, apoiada pelo Movimento Internacional Lusófono, acabou de ser subscrita pelo nobelizado, e assumido e histórico comunista, José Saramago. Parece que, afinal, há muita gente de Esquerda que não acha nada que o MIL seja um movimento cívico fascista e neo-colonialista! Não digo mais, mas apetecia-me...

OS PÁSSAROS


«Retrato dos artistas quando jovens»... Ezra Pound e Friedrich Nietzsche, respectivamente com 33 anos e 18 anos; fotos de arquivo, desconheço os autores (a foto de Pound é da altura da sua estadia em Londres).


No Inferno não há aves e os anjos adoram a música. Os celestiais que guardam na eternidade a perfídia dos homens são criaturas estranhas de muitos recursos: o Inferno está ordenado por labirintos de mármore rosa que desembocam em átrios cercados de árvores e arbustos de funéreo basalto; a um desses cárceres circunda-o um anfiteatro onde os anjos se sentam para seu contentamento – chamam-lhe Jardim dos Cantores. Para aí enviam os homens que substituem os pássaros.
Como os pecados humanos só fazem sorrir os demónicos guardiães, o critério das penas não poderia ser senão leviano: os homens que aprisionam no Jardim dos Cantores não os escolhem pelo tamanho ou número dos seus erros e maldade, mas pela beleza do seu rosto.
Nietzsche e Pound são os maiores tenores do átrio adornado unicamente de estáticas, tremendas aves e flores formadas de safiras e rubis. São o grande deleite dos anjos no Inferno, que se quedam, cerimoniosamente silentes, espalhados pelo anfiteatro. O assunto do diálogo dos dois poetas desafia a eternidade de que são prisioneiros, nunca se altera: conversam sempre sobre o cultivo de rosas e as águas do Mediterrâneo.


Klatuu Niktos


«Na loucura poética»... A foto de Ezra Pound é de quando deu entrada no St. Elizabeths Hospital de Washington, em 1945; durante o seu julgamento nos Estados Unidos, acusado de traição, Pound teve um esgotamento nervoso. Foi declarado insano e trancado no manicómio durante 12 anos e meio. Durante esse tempo recusou a comida do hospital, alimentando-se de doces, caviar e outras «gulosices» enviadas pelos seus amigos, poetas, escritores, pintores e outros. Junto com os loucos comuns durante metade do cativeiro, sem direito a papel e caneta (!), lia muito. «Properly, we should read for power. Man reading should be man intensely alive. The book should be a ball of light in one's hand.» (Ezra Pound, Hailey, Idaho, EUA, 30 de Outubro de 1885 – Veneza, Itália, 1 de Novembro de 1972)


«Na loucura poética»... A foto de Friedrich Nietzsche é da autoria de Hans Olde, e uma das suas últimas, um ano depois o filósofo, poeta, compositor e polemista morreria. Durante os 10 anos de doença Nietzsche permaneceu delirante, escrevendo cartas bizarras, que muitas vezes assinava «Dioniso o Crucificado». Mas ainda tocava piano, nomeadamente uma composição que havia criado para o seu poema Veneza. Durante essa década fatídica, a sua irmã, Elizabeth Vöster Nietzsche, deturpou-lhe parte dos últimos escritos, que colocou ao serviço do nacionalismo anti-semita emergente.

VENEZA

Junto à ponte parei
Há dias, em noite parda.
Vinha de longe um cantar:
Por sobre as trémulas águas
Gotas de ouro brotavam e corriam.
Gôndolas, luzes, a música –
Tudo boiava, ébrio, para a escuridão, lá longe...
Minh'alma, lira tocada
De invisível mão, cantou
Em segredo uma canção de gondoleiro,
Trémula de ventura multicor.
– Se alguém a escutaria?...

Friedrich Nietzsche (Röcken, Alemanha, 15 de Outubro de 1844 – Weimar, Alemanha, 25 de Agosto de 1900)
Tradução de Paulo Quintela

NOTA: A «loucura» de Nietzsche provocada por sifílis é cada vez mais tida por patranha maldosa e lenda; estudos médicos recentes inclinam-se fortemente para cancro no cérebro. Nietzsche e Pound foram dois Bardos no sentido mais fundo; merecem estar aqui, também porque Nietzsche sempre se sentiu mais poeta que filósofo, a poesia foi o seu refúgio e a verdade da sua alma. O seu sonho era ser um grande compositor; eu acho que é um compositor de mérito, conheço-lhe a obra musical, é bela e, espantem-se, tranquila.

Ezra Pound (com Fernando Pessoa) foi, , o poeta mais importante do século XX; não disse «maior», há outros, mas nenhum tem mais importância literária, nenhum deixou os vindouros mais perplexos em relação à essência da literatura e à sua função, xamânica, bárdica, legisladora de civilizações. Fernando Pessoa é de igual importância e, tal como Pound, «destruiu» o conceito romântico de autor, desmultiplicando-se também em múltiplas máscaras dramáticas...

CADERNO DE TELAS – Elise Hensler, Countess of Edla, second wife of D. Fernando II




Dezembro chegou gélido, com neblinas sopradas pelo rio a tomar as ruelas escuras, a empurrar as gentes para o desconforto das casas pobres. Não se via vivalma. De quando em quando, o resfolegar dos cavalos, o bafo quente, o barulho dos rodados na calçada, interrompiam o silêncio negro em que Lisboa mergulhava. As ruas sujas, a cheirar a dejectos, a vinho, a miséria. As margens ribeirinhas pareciam esquecidas por Deus e pela Corte, como se a capital mais não fosse que umas quantas ilhas, a Ajuda, os palácios, S. Carlos.
Era noite de Ópera no teatro. Lá dentro respiravam-se os perfumes franceses, o adocicado dos tabacos, o calor dos agasalhos de pele, a luz bruxuleante dos candelabros, o odor de parafina ardida. As damas abanavam-se com elegância, deixando entrever a linha alva do decote, adornado por raríssimas jóias de secular tradição. O século XIX corria para o seu fim, ao ritmo de Verdi e dos sorrisos recatados das senhoras de família.
No camarote, pertença anterior dos Condes de Farrobo, um porte altivo desenhava uma silhueta elegante. Elise Hensler, abandonada aos pensamentos íntimos do mundo feminino, distraía-se a contemplar em redor.
Aquelas paredes guardavam testemunho da tragédia que vivia, um misto de suprema felicidade adolescente e de crueldade dos olhares.
As suas atenções desviaram-se para o camarote Real, uma e outra vez, de todas se cruzavam os seus olhos com os de seu amado, D. Fernando II. O decoro impunha uma distância socialmente correcta, como se a sua presença no Real espaço o contaminasse, como se horas depois não partilhassem o mesmo leito. Os poucos metros que os separavam pareciam abertos num abismo de solidão, onde Elise se afundava naquele banho de multidão, que se comprazia em a observar, em troçar da legitimidade do seu casamento.
D. Fernando sofria, impotente. Estavam bem vivas, ainda, na memória dos seus súbditos, aquela noite de 15 de Abril de 1860, Um Baile de Máscaras, e a, agora, Condessa d’Edla, vestida de pajem. Apaixonou-se de imediato, flechado por aquele cupido de voz invulgar, com uma encantadora figura e postura femininas. Não lhes perdoaram a ousadia. Ela, uma cantora de Ópera, ele, o pai dos Reis de Portugal e, por duas vezes, Regente do Reino. Ficou gravada a fogo a Real paixão, em dois corações a sangrar de amor e de uma vergonha que se forçavam a sentir.
Sofriam em silêncio as humilhações a que ambos estavam sujeitos. A Rainha Dona Maria Pia, as Condessas da Foz e da Torre, a presença fantasmática de Dona Maria II, a Rainha velha, a todos a união sagrada do matrimónio parecia não passar de uma farsa.
Em breve estariam juntos, despidos de títulos e de preconceitos. A solidão dos aposentos Reais dava-lhes a liberdade de ser, simplesmente, mais um homem e uma mulher na noite lisboeta.



Aconselho-vos um livro: Teresa Rebelo, Condessa d’Edla – A cantora de ópera quase Rainha de Portugal e de Espanha (1836 – 1929), Alêtheia Editores, Lisboa, 2006.



Elise Hensler, Countess of Edla, second wife of D. Fernando II, titular King of Portugal (regent), autor desconhecido (Alemão?), s/d (séc. XIX)

A NOITE E O RISO, Cultura e Valor




para o senhor Filipe Leote, Presidente Drogado


Abominável noção de férias, essa que só existe por remissão para o trabalho; que é mantimento das condições deste, como arrefecer o motor do carro para continuar a corrida sem gripar antes da meta. Ora, em absoluto e no sentido, eu não trabalho nem tenho férias; quero dizer, a noção de vida enquanto produção e actividade visível por um lado, e descanso ou contemplação por outro, sempre me foi estranha e agressora; e desenho a sua simultaneidade em todos os horizontes do caminho, na sua distinção viva e dinâmica.

É evidente que a exigência de centralização na produção e acção social, reprime esta minha tendência, com os seus horários e mecanismos, toda a sua organização orientada pelo fazer, construir e administrar trocas e vendas, serviços e instituições; por exemplo chão e simplesmente: o dinheiro para a renda, comida, etc; e todas outras configurações e encarrilamentos para que nos empurram as leis e a rentabilidade mercantil, os ensinos e o civismo, a integração e os costumes. A supremacia quantitativa dos dias úteis da semana, compensada pela ilusão qualitativa dos dias de ócio, por exemplo, é absolutamente irrespeitável: sufoca de tédio, mentira e ausência de sentido pessoal. Não que tal consiga ser-me central, a ditadura não é perfeita, mas é assaz eficaz; e a primeira consolação de sentido e acção, vai na medida de se ser em tais significados e sociedade – estudante encanado, trabalhador janado, cidadão enfastiado; e revoltar-se contra desumanizações e desvitalizações sem flipar.

Mantenho-me assim fiel às paixões culturais da infância, despertadas pelo diletantismo insolente do Trinitá, e a ironia romântica do Zé Carioca; e só nos pormos a trabalhar diligentemente na revolta de Mompracem, quando o invasor toma o centro da casa e nos expulsa dela na escravidão ou no exílio, e essa expulsão tiver o rosto da amada e do amado, as mais íntimas paixões da nossa vida depois da morte e de Deus: aquele rosto que ao longe vemos, um vulto na praia distante, e nesse relance algo nos toma por inteiro e fundo, como se por dentro nos víssemos e sentíssemos como nunca dantes o fizéramos, no próprio fervor do combate perante o feroz inimigo; a partir daí, a vida cinde-se num antes e depois, e as paixões cruzam-se em convergências e divergências: isso sim, é actividade com sentido; e não podemos também e nunca, esquecer o sabor do sangue na veia jugular que rebenta na nossa boca faminta, e o odor da terra nas forças da selva e na infância de John Greystoke.

Claro que hoje as sementes expandiram-se em outras raízes e folhagens, mas não abandonamos o combate contra o rato Mickey e contra o tio Patinhas; não abandonamos a revolta contra Lorde James nem a espada nem o destemor, soçobrados e sangrando do coração aos pés da Pérola de Labuan; e também não abandonamos o olhar que no meio da cidade e do império, intui serem as plantas e animais selvagens os fundadores da nossa humanidade. Hoje, falamos mais de Hobbes, Lafargue, Huizinga, Miller, Kerouac, Debord, Black, etc; mas não esquecemos que todo o acontecimento significativo se doa a si no nosso primeiro despertar: o primeiro beijo, mesmo esquecido, detém o segredo; as primeiras cantigas e histórias, a alma crescente em anseio e encanto, como afinal e concretamente vamos ou não acordando; digamos, para ater-nos à luz da infância, que a luta central dum samurai é contra o clorofórmio; e, para incluir o desenvolvimento na sua real orientação, digamos que é Trinitá que lê Black, Sandokan Debord, Zé Carioca Miller, Tarzan Huizinga, etc; e que são sempre as mãos da noite, no dia mais fundo, que estas linhas escrevem e cruzam debaixo do vulcão.



Aproveito a deixa e o que sobra para informar, neste contexto de suficiente bazófia, que aqui se suspendem estas crónicas; voltaremos à lide ossiânica, se nenhuma pura violência irromper, na segunda-feira 5 de Outubro 2009. Para dizê-lo o mais discretamente que o respeito pela beleza exige: tem sido uma mui magnífica viagem. Sangue forte, ossiânicos! Até já.

Domingo, 5 de Julho de 2009

VAGOS OPEN AIR

VAGOS OPEN AIR: Site Oficial.

A região litoral de Vagos, nas proximidades da cidade de Aveiro, será palco da primeira edição do Vagos Open Air, nos dias 7 e 8 de Agosto.

Amon Amarth, The Gathering, Dark Tranquillity, Katatonia, Epica, Kathaarsys e Dawn of Tears são as primeiras confirmações internacionais, que se juntam aos portugueses Process of Guilt, Thee Orakle, F.E.V.E.R. e Echidna. Nos próximos dias a organização irá anunciar mais um nome internacional, completando o alinhamento do Vagos Open Air 09.

Este festival consegue assim, a fusão de duas organizações nacionais como a Prime Artists juntamente com a Ophiusa Eventos que regiam os respectivos anteriores festivais, Alliance Fest e In Ria Rocks. Com o objectivo de se afirmar como o festival de Verão de referência no metal em Portugal, o Vagos Open Air constitui-se como um dos grandes acontecimentos dos próximos meses.

Os primeiros 300 passes estarão disponíveis em regime de pré-venda já a partir do início da próxima semana (11 de Maio), que incluirão a oferta de uma T-shirt do Festival.

O espaço do festival facultará de todos os meios necessários para a permanência no local durante estes dois dias, como área de campismo, restauração, espaços de lazer, entre outros.

Data: 7 e 8 de Agosto.
Local: Lagoa de Calvão (GDC) – Vagos.

Preço dos bilhetes:
Bilhete diário: 25 euros;
Passe dois dias: 40 euros.

Jovens até aos 12 anos têm desconto de 50%, excepto na campanha de passe com oferta de T-shirt.

Locais de venda: Ticketline (Reservas: 707 234 234
www.ticketline.pt), Fnac, Bliss, Livraria Bulhosa (Oeiras Park e C. C. Cidade do Porto), Agencia Abreu, Worten, C. C. Dolce Vita, Megarede, Carbono (Lisboa e Amadora), Cave (Lisboa), Piranha (Porto), Lost Underground (Porto), Break Point (Vigo) e no local.

LIBAÇÃO

Dedicado a'O Bar do Ossian


Sidhe, Horned Wolf, 2009


A VISÃO E A VOZ

Reveste-te em flama,
e a Albina Coroa da Morte
ser-te-á útil.
O nome das estações
movimentar-se-á na tua respiração
as ondas num relampejar rápido
até que a Voz e a Visão
repousem (novamente) no teu peito.


O CAMINHO ESPIRITUAL DA MORTE

Fada lavadeira
ilibai-me
neste rio, de nascente amarga
lavai-me esta noite até que o dia
me abrace sob a chuva d'ouro.


UIVAR A NOITE-DENTRO

Tão apegado a uma tão singular jóia,
eu teria uivado a noite
para me fundir, na profundidade das
suas curvas, na carnalidade
das suas coxas; nos lábios de luar da
sua pele.


André Consciência em "Thorns of Dying",
traduzido por André Consciência.






Night Whisperwind, Horned Wolf, 2009

FRUTO PROIBIDO

The Rose, That Wouldn't Die, Emil Schildt, 2003


Desejei-te assim que te vi.
Foi numa manhã quente e clara como estas manhãs que ultimamente nos entram pelas casas adentro. Tinha acordado há pouco tempo e sabia que as horas seriam todas minhas dentro destas quatro paredes onde procuro esquecer quem sou com todas as letras do alfabeto que vou espalhando em todos os recantos possíveis da casa: debaixo do sofá, atrás dos móveis, dentro da lareira inutilizada e em cima do piano que os meus dedos não tocam, desde que acordei com um vazio maior do que eu.
Nessa manhã em que te desejei profundamente, toquei-te na pele macia, tão delicadamente como antes tocava nas teclas do piano. Enquanto os meus dedos deslizavam em ti, ouvi uma doce melodia que me embalou os gestos para continuar. Chamei-te Maria, mesmo sabendo que esse não era o teu nome. Devorei-te na avidez de quem delira com a frescura que me trazias. Torturei-te entre os meus lábios sedentos. E foste assim mais do que um simples alimento. Morreste em mim num melífluo tormento.
Os teus restos? Plantei-os no meu jardim.
''As ideias da razão pura jamais podem ser em si mesmas dialécticas, mas tem que ser o seu simples abuso que faz com que delas surja uma aparência enganosa."
(Immanuel Kant)

O GUARDADOR DE REBANHOS (IX)


Old Times Were Good Times, Son of Dave, 2008


Sou um guardador de rebanhos,
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.


Alberto Caeiro

O MENINO QUE CONSTRUÍA TÚMULOS


The Burning Man, Evelyn Williams, 1985


Na minha adolescência injectava-me de perfumes, andei desesperadamente pelas ruas à procura da realidade, acordava aos gritos.
Anoitecia pelas páginas de uma loucura de pergaminho, o amarelo era a minha cor maldita, identificava os poentes e os cadáveres. O meu ofício era desde logo semelhante: capturar, e procurava um país difícil.
Num delírio de sofreguidão corria para os campos e devorava rosas, bebia água em grandes haustos, bebia vinho em sucessivas garrafas, mordia o chão até que a terra na boca me fizesse sentir repleto de sabores e de fontes – mesmo assim não havia saciedade.
Corria para a floresta como um lobo, despedaçava-me contra as árvores, inspirava violentamente, queria comer o ar – não havia saciedade.
Dava a mão às mulheres e trazia-as por caminhos difíceis, arrastava-as até ao cimo da montanha, à beira do abismo, olhava-as com crueldade e perguntava: Queres voar? – não havia saciedade.
Transformou-se-me a alma num vento de cânticos, todas as palavras proferidas no mundo passaram a ser minhas e as sombras sorriam à minha passagem e tocavam-me.
Decidi morrer no pino do Verão: o piar dos pássaros, a calma solar da meia-tarde, um punhal de fogo cravado na medula. Sempre adiei tudo, até hoje.
Na juventude procuramos corações como se fossem oásis, acreditamos no Graal, mas quando se nasce ferido já nada no mundo pode calar a nossa sede. Não encontramos a saciedade no chão, a vida transforma-se num grito, e depois envelhecemos, devagar, quase iguais a toda a gente.
Às criaturas raras o destino reserva uma morte em vida e um luto antecipado, de si mesmas. Uma só e inútil glória lhes é ofertada… a de poder olhar em redor e saber quão belo é o seu túmulo.


Lord of Erewhon

Sábado, 4 de Julho de 2009

BANDEIRA NORDESTINA


Pe. Jose de Anchieta, o Santo Apóstolo do Brasil: Anchieta Escrevendo na Areia, Benedito Calixto, (óleo sobre tela) 1900


FICHA DE INSCRIÇÃO

No concurso do Banco da Tristeza
Eu muitas vezes me pego
Josedeanchietando
Me inscrevendo na ficha da areia
E a borracha do mar me apagando



Porto das Naus, Benedito Calixto, (óleo sobre tela) 1900


BANDEIRA NORDESTINA

A bandeira nordestina
É uma planta iluminada
É qualquer raiz plantada
Mostrando o caule maduro
E quando o sol varre o escuro
Com luz e sombra no chão
É quando germina o grão
É quando esbarra o machado

É quando o tronco hasteado
É sombra pro polegar
É sombra pro fura-bolo
É sobra pro seu vizinho
É sombra para o mindinho
É sombra prum passarinho
É sombra prum meninote
É sombra prum rapazote

É sombra prum cidadão
É sombra para um terreiro
É sombra pro povo inteiro
Do litoral ao sertão
Essa bandeira que eu falo
Tem cores de poesia
Tem verde-folha-avoada
Amarelo-jaca-aberta

Em tudo que é vegetal
Tem bandeira desfraldada
No duro da baraúna
No forte da aroeira
No bandejar buliçoso
Das folhas das bananeiras
Das bandeirolas dos coentros
E na marca sertaneja:

O rijo e forte umbuzeiro


Jessier Quirino

EXCALIBUR

Dedicado ao Lord of Erewhon

Tribal, Ruela, 2009



A Past and Future Secret, Blind Guardian, 1999 (sobre excertos de Excalibur, John Boorman, 1981)

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

POR EXISTIR


Night Light, Tom Chambers, 2006


Nomeio-te dono de um passado que nunca existiu.
Podes fazer com ele o que fiz contigo,
Chamar-lhe o que não pensas, por puro egoísmo,
Nota alta de barítono enrouquecido
E que nunca soube cantar.

Vá, chama-o, que te quero ouvir
Clamar leda dor pétrea por esse passado vazio.
Que almeja ele pedaços de ti que o consumam
E conspícuos pontos que o constituam,
Como eu me constituí em ti.

Não lhe negues esse pouco de ti que ainda resta.
Não lhe negues, que de nada te serve ser vivo ou morto,
Pedaço intransitável de carne que se decompõe.
Sê dele, do passado que nunca existiu.
E sê meu jantar por digerir.

Não. Não ouviste mal.
A letífica febre que se destila, via Inferno, arqueja
Na avidez árida dos seus desertos, em mim.
Por isso chama-o. Chama o passado por existir.
Que tu te constituis nele. E eu me constituo em ti.


Leto of the Crows

MAGNIFIQAT – Dalla Bocca Dell’ Inferno (2002)

Dedicado aos Amigos da Sabedoria Perene




Il Piu’ Antico Dei Giorni…

O CONTRÁRIO DA ESTÁTUA


The Sun is Also a Star, Awbarr, 2007


[Escuto
O canto das crianças
Pelas mãos vazias
De gigantes.]


Ondula a figura de chifre e a seiva
Solta do estival augúrio
Derrama as alegrias simples
Dos carneiros descansados.

As crianças, despidas,
Miram a pedra
E esperam
A lamúria das águas.

Se dói ser fogo nas tuas mãos
E dedilhar os corações bravios
Alivia a harpa sonhada
Ser osso e cabelo na corda
Em arco alvorada.

A árvore respira,
A ruína da estátua,
O solo pulsa
E dançam os pés luzidos
No coração leitoso da bruma
Que a terra afunda no seu
Voo derramado.

SONS DA FLORESTA NEGRA, Black Sabbath




Inicialmente formados em 1968 como uma banda de blues-rock, denominada Polka Tulk Blues Band, mudaram o seu nome para Earth, até se terem apercebido que estavam a ser confundidos com outra banda sob o mesmo nome. Então resolveram mudar de nome, após o seu baixista Geezer Butler (apreciador dos contos sobre magia negra de Dennis Wheatley) ter escrito umas letras relacionadas com uma suposta aparição em frente da sua cama, a que deu o nome de Black Sabbath, inspirado num filme de terror de Mario Bava, que estava em exibição nessa altura, e foi quando mudaram definitivamente para Black Sabbath, no ano de 1969. Curiosidades à parte, causaram um enorme impacto quando surgiram com um registo inicial de blues-rock, que de vez em quando progredia para uma sonoridade mais agressiva e sombria, em contraste com a tendência da época, que era o flower power, música folk e a cultura hippie. O seu reportório envolvia experiências com drogas, estados mentais e abominação da guerra, entre outros, e inspiraram várias gerações de músicos até aos nossos dias, e, ainda hoje, depois de várias entradas e saídas de membros (onde o único membro original que permaneceu sempre no alinhamento é o guitarrista Tony Iommi) e re-ajuntamentos, ainda permanecem activos. Para mais informações, podem ir ao site oficial da banda, mas note-se que ainda está em construção...



Black Sabbath, Black Sabbath, 1970

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

ENTRELAC


Druids Cutting the Mistletoe on the Sixth Day of the Moon, Henri-Paul Motte, c. 1890


Mosquitos nos brônquios da mortiça luz. O pântano,
O solo lunar de areia fina dos sonhos escutam
A canção do druida. Abrem-se ao silêncio,
Assim o caçador e a presa. As rãs calam e elmos
De prata fulgem. Os ossos são as peças de um escudo,
Um dólmen de ouro protege a criança dos bosques.
O veneno beija as taças, as flores ardem e a canção,
O pó brilha, e os mortos vivem com um lacre fechado.
A cabeça é o trovão e o raio num torso de lume.
O fósforo nascente fende a linha de água…
– Como uma luz lenta és proficiente.


Jesus Carlos

CANTEM!


Um novo ciclo do tempo, como um hino de trompas e fachos na noite tremenda. Orações lusitanas ao poente, para que o astro não abandone os homens à escuridão e renasça. Ferro e luz, montanha e regato e o fundo sábio das florestas. Chegaram os dias de contarmos a nossa gesta e a da tribo, a glória alta dos antepassados, o valor do bardo e a temperança do druida!


O tema para este mês é: Bardos e Druidas – mas também aceitamos que louvem o Verão...
Abraço lusitano!
A Redacção

BLIND GUARDIAN – The Bard’s Song (2003)

Dedicado ao Casimiro

DEBATE PÚBLICO: O FUTURO DEMOCRÁTICO DA GUINÉ-BISSAU NO ESPAÇO LUSÓFONO




Dia 4 de Julho, Sábado, pelas 16h00 na Sede da Associação Agostinho da Silva, em Lisboa, na Rua do Jasmim, nº 11, 2º andar (junto ao Príncipe Real).

O Movimento Internacional Lusófono apela a quem venha a estar presente para que leve como oferta livros infantis e para adolescentes, que serão depois enviados para a Comunidade das Irmãs Dominicanas do enclave timorense em Oecussi, que pretende organizar uma Biblioteca mas não tem, até ao momento, nenhum livro.

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

EDITORIAL, Julho

Um passeio na madrugada, Caspar David Friedrich, c. 1835


Passou o Inverno por nós, passámos devagar a madrugada e as luas. Tempo, da tua sombra tão lenta ergue-se o chão: águas ásperas de Abril, simples rosas de Maio, luz, soubemos agora dançar no fogo a noite rubra e o Verão! No céu a estrela polar, os cantos.

Passou o lume por nós. Passámos tão devagar a terra e os mares. Pátria, da tua canção tão funda erguem-se os homens: sabemos agora gravar no fogo a alma dos vivos. No oriente da inquietação, as armas.

Amigos de velada e caminho, chegou de novo Julho, chegou o Verão. Saudemos o Sol na solidão dos cumes, saudemos como iguais a luz imperial e a aurora. Tem este mês o nome do primeiro César, tem esta nossa terra o nome da derradeira Roma. No meio passamos nós, saudade e espera de poder ser.

E deixamos para trás as luzes mortas.

Amigos de jornada e paz, fundámos este lugar como acampamento e espírito, como arrábida e caravana, como princípio e aclamação; na língua do corvo e do falcão invocámos o guerreiro e o bardo, o Viriato e o Ossian; chamámos os guardiães da terra e do ar, do fogo e da água, todos os anjos e todos os ventos, todos os homens e todas as cores.

Maravilha do alto olhar, que faz em nós o esplendor da aurora: fundámos este lugar no fundamento chamado arte, no firmamento chamado chão. Olhar, sentir, guardar, morrer, com isto que somos ganharemos voz. Guardamos, e somos o Viriato; aguardamos, e somos o Ossian. Mas, amigos de busca e encontro, ser é saber. Lusitanos e artistas, abramos em nós e entre nós lugar de honra para a sapiência, que é poço sagrado e abóbada: neste mês com nome imperial, busquemos a figura, a função e a canção do Druida. Convido-vos à evocação e à invocação, neste Julho da estrela polar.


Casimiro Ceivães

PLANÍCIE & PLANALTO


Prom Gown 3, Tom Chambers, 2005


PLANÍCIE

A planície estende-se com um sobro acaçapado,
Um dólmen, uma cruz num monte,
De muitos modos a terra
Sangra a luz. São uma haste onde
O deserto nadifica. Secura entre sarças de fogo.
Onde as searas ficam em sangue. É tudo branco menos
A alma. A solidão é um ofício da pedra
E os olhos uma cal levantada. Água,
Água. Funda, funda piedade para o homem.

Intranscendentes desdobram-se as terras, o vórtice.
As mulheres sentam-se na imensidade, fitando
As coisas passantes e não sei que ermo
Porque à terra pertencem. Os vedores aceitam o desafio.
Aceitam o deserto com uma prece de luz,
O nada cegante, o pó, o exílio. Passam invisíveis
Nas planícies do coração. Abrem-se ao deserto
No fogo sem fim. Repetem as onomatopeias da água,
Proferem as palavras, os sacramentos dos rios subterrâneos
Aos ouvidos do tempo: «Não esqueças estas mulheres,
Estas árvores torcidas, estes cães secos.»
As árvores prostam-se – também os cães.
As mulheres sentam-se com os olhos devorados
Como Moisés diante da terra prometida.


PLANALTO

Trabalha no escuro e cresce no silêncio
A árvore dobrada para as águas. Alta,
Nas profundezas da alma.
Ergue-se, esquálida, entre escuras fragas.
O céu do que se move em fundas águas.

Sombra que escuta o abismo.
Nada a liga a nada; o vazio mais puro,
Guarda uma pureza de talha. É um poço onde
A morte frutifica. As raízes suspensas;
Devorada pela luz.

Fosse a vida esta altura.


Jesus Carlos

NOTÍCIAS DE VERA CRUZ, Mário Gomes – Poeta, Santo e Bandido


AÇÃO GIGANTESCA

Beijei a boca da noite
E engoli milhões de estrelas.
Fiquei iluminado.
Bebi toda a água do oceano.
Devorei as florestas.
A Humanidade ajoelhou-se aos meus pés,
Pensando que era a hora do Juízo Final.
Apertei, com as mãos, a terra,
Derretendo-a.
As aves em sua totalidade,
Voaram para o Além.
Os animais caíram do abismo espacial.
Dei uma gargalhada cínica
E fui descansar na primeira nuvem
Que passava naquele dia
Em que o sol me olhava assustadoramente.
Fui dormir o sono da eternidade.
E me acordei mil anos depois,
Por detrás do Universo.


Mário Gomes

Nota: Mário Gomes (23 de julho de 1947 – ) com uma vida marcada pela tortura, incompreensão e boémia, este poeta cearense, hoje como um mendigo, perambula pelas ruas da cidade de Fortaleza. Nem mesmo seus conterrâneos demonstram ter noção da arte que ele criou, pois ainda há pessoas em Fortaleza que nunca ouviram falar dele. A Biblioteca Pública de Fortaleza Menezes Pimentel possui obras de Mário Gomes publicadas e o poeta cearense Márcio Catunda escreveu a sua biografia, intitulada como o próprio Mário Gomes gostaria de ser conhecido: Poeta, santo e bandido.
O Poema "Ação Gigantesca" ganhou o primeiro lugar em um concurso de poesia em Fortaleza.

Blog
Poeta Mário Gomes.

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

MANHÃ SUBMERSA


Manhã Submersa, Ruela, 2008. Seleccionada pelo júri do Concurso Internacional de Artes Plásticas ENCONTRARTE para concorrer na mostra a ser realizada entre os dias 23 e 26 de Julho de 2009 em Amares, na disciplina plástica Fotografia.


Captei esta fotografia em solo sagrado no pico de uma serra situada no norte do distrito de Aveiro, numa manhã de Inverno submersa pela chuva e nevoeiro.
O título (fotografia) é uma homenagem a "Manhã Submersa" de Vergílio Ferreira, um dos mais importantes romancistas portugueses do século XX, que como seu último desejo quis ser sepultado “virado para a serra”. Uma obra poderosa que oscila entre a luz e as sombras, uma luta entre o corpo e o espírito em que o corpo acaba por ser mutilado em nome da libertação do espírito. "Manhã Submersa" foi escrita em 1953 e adaptada em 1980 para o cinema pelo realizador Lauro António, sendo esta a sua prima longa metragem; Vergílio Ferreira integra o elenco do filme na personagem do Reitor.


Cena do filme "Manhã Submersa" de Lauro António, filmada na estação do Larinho, 1980


"Lauro António consegue transformar a amarga consciência da tragédia que sobressai da obra de Vergílio Ferreira na constatação serena de uma certa tristeza/castração nacional. O trajecto de António (um trabalho apreciável de Joaquim Manuel Dias) serve sobretudo de revelador de uma paisagem social que, embora situada nos anos 40, é raiz e seiva do nosso quotidiano de hoje."

Jorge Leitão Ramos, in Dicionário do Cinema Português, ed. Caminho.


Extracto:


(...) o peso da dor nada tem que ver com a qualidade da dor. A dor é o que se sente. Nada mais. Desisto definitivamente de me iludir com a minha força de adulto sobre o peso de uma amargura infantil. Exactamente porque toda a vida que tive sempre se me representa investida da importância que em cada momento teve. Como se eu jamais tivesse envelhecido. Exactamente porque só é fútil e ingénua a infância dos outros - quando se não é já criança.

(...) Estranho poder este da lembrança: tudo o que me ofendeu me ofende, tudo o que me sorriu sorri: mas, a um apelo de abandono, a um esquecimento «real», a bruma da distância levanta-se-me sobre tudo, acena-me à comoção que não é alegre nem triste mas apenas «comovente»... Dói-me o que sofri e «recordo», não o que sofri e «evoco».

(...) Eu vivia, de resto, agora, e cada vez mais, da minha imaginação. E foi por isso a partir de então que eu descobri a violência da realidade. Nada era como eu tinha fantasiado e não sabia porquê. Parecia-me que havia sempre outras coisas à minha volta que eu não supunha, e que essas coisas tinham sempre mais força do que eu julgava. Assim, a minha pessoa e tudo aquilo que eu escolhera para mim não tinham sobre o mais a importância que eu lhes dera. Chegado à realidade, muita coisa erguia a voz por sobre mim e me esquecia.

(...) Quando algum de nós se afastava para dentro de si próprio, logo a vigilância alarmada dos prefeitos o trazia de rastos cá para fora. Os superiores sabiam que, à pressão exterior, cada um de nós podia refugiar-se no mais fundo de si. Como sabiam também que a descoberta de nós próprios era a descoberta maravilhosa de uma força inesperada. Nenhuns sonhos se negavam ao apelo da nossa sorte, aí na nossa íntima liberdade. Por isso nos expulsavam de lá. Mas, uma vez postos na rua, havia ainda o receio de que as nossas liberdades comunicassem de uns para os outros e ficassem por isso ainda mais fortes. E assim nos obrigavam a integrar-nos numa solidariedade geométrica, ruidosa e exterior como de ladrilhos.


Vergílio Ferreira, Manhã Submersa, 1953


Manhã Submersa, Xutos & Pontapés, 1997

BOCA AMARGA CABARET




Sábado, pelas 18h00, dia 4 de Julho na Geraldine, Rua de Arroios, 56-A, Lisboa.

VITÓRIA E PIRENÉUS, DE MENDO CASTRO HENRIQUES

1813, O Exército Português na Libertação de Espanha




Lançamento na 2ª feira, dia 6 de Julho, pelas 17h00 no Museu Militar, em Lisboa (entrada frente à Estação de Santa Apolónia).

MEU QUERIDO VELHO


Senhor Armelindo, Altruísta, 2009, Site Olhares


Dê-me um cigarro, diz o velho;
Dê-me o fogo, diz o velho;
Pegue as cinzas, diz o velho;
Varra este chão, diz o velho;
Senhor sem paciência, este velho!

Dê-me um cigarro, diz o velho;
Pegue minha mão,
Mostre-me o óculo,
Dê-me um pão, diz o velho;
Quão chato é este velho!

Mas quem se pergunta,
O que ele fez por este mundo?
Quem se pergunta?

É um velho de batalhas,
É um velho tão cansado,
Tem direitos, cotas de malha,
Lutas mil, força no passado.

É um velho enjoado,
Um pobre coitado,
Que ganhou o seu direito
De ser egoísta,
De ser a si,
E somente a si, dedicado!

DAIMON, Arte e Natureza





"O que denominamos natureza é um poema encerrado numa maravilhosa escrita cifrada. Se o enigma pudesse ser revelado, reconheceríamos nele a odisseia do espírito que, fascinado por um engano, buscando-se a si mesmo, afasta-se de si; pois através do mundo sensível brilha, como o sentido entre as palavras, apenas como no meio de bruma semi-transparente, o país da fantasia (o imaginário) a que aspiramos. Um belo quadro de alguma forma nasce quando a parede invisível que separa o mundo real do mundo ideal é suprimida; ele é apenas a abertura pela qual as figuras e os lugares do mundo imaginário (...) emerge na totalidade. "

Schelling, citado por M. Ribon, A arte e a natureza